Condensado de cafeína (ou sintomas de emigrante)
Cafeína = estimulante. Daqui o significado pareçe desvanecer como um anúnico numa parede.
In London, neste bairro de casinhas de bonecas não há cafés. Só pubs. Cada um na sua esquina estrategicamente colocado. Geralmente equidistantes entre si uns três quarteirões, quebram a monotonia e definem assim comunidades de emborcadores que se distinguem pelas marcas da cerveja: Staropramen, London Pride, Red Stripe, Guinness, Magner, Stella, Leffe…
Só há uma regra: se bebes, bebes ao meio litro de cada vez, ou então optas pela versão foninhas que é a meia pint.
Domingo às 4 da tarde no Ten Bells, o pub está pejado de MVD’s (Male Vertical Drinkers conceito criado por holandeses para se referirem aos ingleses). Lá fora e cá dentro, tudo de pint no bico. E elas, claro de gin tónico ou meia pint. Não há lugar para sentar-mo-nos, ficamos de pé algures entre o balcão e o WC com um vaso de cerveja na mão a berrar para manter uma conversa no meio de tanta algazarra alcolémia..
Em Roma sê romano e assim naquele Domingo começa a traição do café de Domingo.
Nos últimos tempos, o ritual de “tomar um café” tal como sempre conheci sofreu um processo drástico de deterioração e instrumentalização. Sim, é um instrumento de trabalho tal como a máquina de calcular que está pousada na minha secretária.
Segunda-feira de manhã às 9.30 chego à minha baía, ironicamente chamada blue bay, não porque o céu está sempre azul e nos sentamos em toalhas de praia sobre a areia, mas porque o mobiliário do escritório é organizado por baías e o nosso projecto se chama assim, Azul.
Ligo o meu DELL, leio os mails NNTO (no need to open) que me escaparam da semana passada. É uma espécie de mercado negro que se foi instituindo na intranet onde o staff tenta vender o que tem e já não quer. Bicicletas, alugueres de quartos ou apartamentos, torradeiras, bilhetes para concertos, etc.
Ofereço-me para fazer um café ao pessoal da minha bay. Dirijo-me à kitchenette e pego numa das cafeteiras Bodum. A kitchnette é um ponto de passagem e de encontro. Enquanto a água ferve, os que por ali vão passando repetem a instituida pergunta de segunda-feira: How was your weekend? .
Já preparado para despejar a água fervida na cafeteira, um qualquer Ben insiste em demonstrar a sua técnica de misturar a água fervida sem torrar o café no processo. Pega numa colher de sopa e coloca-a na cafeteira com a concavidade para baixo entornando a água sobre a superfície convexa. A água cai sobre o metal frio perdendo uns graus celsius de temperatura para uma mistura perfeita. Interessante mas sem qualquer aplicação prática… o café continua uma merda.
Café feito, um tabuleiro, 4 chávenas de chá, uma tigela com cubos de açúcar e um mini pacote de leite e estamos prontos para começar na nossa baía. Joy Division, a cafeína entra a kickar e o trabalho ganha o embalo epiléptico do momento. Para controlar excessos, pepermint tea …
Starbucks, Nero, Pret ou cadeias do género são autênticas fata-morganas para um apreciador de “tomar um café”. Machiatto, Americano, Expresso, Cappucinno, Black ou White Coffee simulam um nível de especialização de quem sabe o que está a fazer no que à cafeina diz respeito. Serviço, só ao balcão, só uma voz ao fim da fila: Next! em intervalos de meio minuto tempo médio em que os clientes são despachados, dir-se-ia, à biqueirada. O sujeito fardado de embaixador da cafeinolândia pergunta se é para ficar ou para levar. Se ficar aplica-se a “taxa de indulgência”, uns 30p em cima da libra. Se é assim é para levar. O café é servido em copinhos de papel e a mistura do açucar é feita com uma varinha de pau… mas que é isto? Estamos num picnic ou quê?
Setembro em Montreal, algures numa das inúmeras esplanadas de Mile End peço um café e um croissant. O empregado serve um daqueles cafés em chávena de chá (como já estava à espera) e um croissant num prato com um guardanapo impresso onde se lia Welcome! Bienvenue!. Saco do livro e deixo-me derreter na cadeira. Após umas 5 páginas, More coffee, sir?. Esta é a alma do café Norte-Americano, é tipo um contracto: café pedido é o compromisso de chávena cheia até o livro acabar. Good life!
10 páginas depois tudo parece mais luminoso, mais saturado. More coffee?, Sure!. 15 páginas depois não só tudo parece mais saturado, uma certa ansiedade apodera-se. Os dedos começam a tremer… Tinha passado o limite da estimulação para uma espécie de mini sobre dosagem que me ia levar a escrever, minutos mais tarde, uma espécie de paranóia teórica sobre a América do Norte, uma verdade última que só se atinge e só faz sentido com uma bordoada de cafeína. Aqui vai a pérola:
For those coming from the Old Continent it’s hard not to notice an omnipresent difference in things. It is however as subtle as the difference between Coca-Cola cans. They are just barely larger, everything is slightly bigger. Streets, houses, cars, signage, cigarette packs, everything seems to have suffered from a fattening process… Where once Romans lend their vitruvian notion of proportion, here Mc Donalds seems to be the new Romans. So far, this “open proportion” in things feels like clumsy, as if you had taken two more cups of coffee than usual.
(Ganda moca!)
Daqui a mês e meio espero estar no Ceuta a “tomar um café” com a malta do costume. Um cimbalino trazido por um daqueles míticos senhores Manueis que arrastam as cadeiras a pontapé e deixam cair os sacos de açúcar na mesa com o mesmo jeito de quem já atirou muita bisca na tábua da da Praça da República. Enquanto os minutos vão passando, a conversa passa pelo processo alquímico da cafeína, e isto sim é um cimbalino!