Desta vez vou à manifestação
Não sou muito dado a manifestações. Já o disse antes. Acredito que o poder é um reflexo das sociedades onde se manifesta, a um nÃvel mais profundo que o voto e a democracia. De nada servirá que nesta Grândola o povo ordene, se esta não for uma terra de fraternidade. E que não somos.
Não quero que se lixe a Troika: esta existe vários graus de separação para lá dos meus conhecimentos e é uma coisa terrÃvel odiar-se quem não se conhece. Eles podem pedir e até ordenar, mas a opressão que por vezes sinto não origina da Troika nem sequer do Governo ou de um qualquer Outro relativamente abstracto. A opressão da negligência e do descuido quotidianos, da desmesura e da ambição, talvez seja capitalista mas não é fruto do cumprimento de ordens. Quando acordámos hoje reconstruÃmos a nossa parte do mundo que cessou enquanto dormiamos. E este é precisamente o mundo o que escolhemos reconstruir – fruto de actos que são o critério da verdade dos nossos desejos.
Desta vez irei contudo à manifestação. Sei que de pouco adiantará enquanto as manifestações apenas servirem para mudar governos sem nos mudarem a nós, que segunda-feira reconstruiremos este Portugal mesquinho, serviçal e turÃstico: uma cultura que demorará gerações a mudar. No entanto, por mais insignificante que seja o passo, acredito que é chegada a hora em que a retirada de certos indivÃduos de posições de poder é necessária, não pelo que fizeram à economia mas sobretudo pelo que fazem à nossa mentalidade. Irei por isso.
Sem participar em concursos de cartazes, sem beber cervejas nem tirar fotos para o Facebook. As manifestações não podem ser sábados bem passados; assim eu farei desta a minha.
Fica aqui uma sugestão musical alternativa à  Grândola, Vila Morena, demasiado usada nas últimas semanas como canção contra. Cante-se por.



