Xau aí, pessoal

Decidi colocar um ponto final n’O Procrastinador Profissional, e com isto oficializar a minha reforma, perto dos quarenta, da actividade de blogueiro em português que iniciei com metade da idade e noutras paragens no longínquo ano 2000. É certo que os últimos anos foram pautados pelo sub-rendimento e por longos períodos de afastamento dos teclados, não por lesão mas por desilusão. Se na década anterior ainda conservava algum optimismo em relação à internet, hoje sinto-me quase um ludita, pois vim a convencer-me que isto da internet foi um erro. Temos acesso a uma cornucópia de conteúdo que pagámos, e bem, com vidas abaixo do nosso potencial e do nosso esforço, através da precariedade e restantes maleitas do capitalismo turbo 16 válvulas de grande eficiência, que desconfio tratarem-se de certa maneira de impostos impostos por este digital que mutou para o torto.

Deixou de me apetecer contribuir com a minha escrita. Deixou de me apetecer a produção de ‘conteúdos’. A meu ver, a internet tornou-se um local ingrato, milhões a falar para ninguém em justaposição com uma battle royale de bullying de toda a forma e feitio. Sinto que devíamos decidir, enquanto sociedade, fazer pouco, ou pelo menos fazer menos. Deixar de escrever é assim o meu contributo para o mundo que gostaria de ver.

Sei que teria coisas para dizer sobre temas sobre os quais raramente me pronunciei, como a gentrificação ou a especulação imobiliária, ou Rui Moreira e Donald Trump; assim como continuaria a ter coisas para dizer sobre temas velhos, como sobre a contínua falta de bons cafés para passar uma tarde na cidade do Porto (apesar da contínua abertura de maus cafés para passar uma tarde na cidade do Porto), ou as agruras do dating na era digital. E posso falar sobre isso com quem queira ter uma conversa comigo num desses cafés com problemas, tais como televisões, música alta, espaços com reverberação, mesas redondas, mau wifi, 1.90 euros por um abatanado, & etc., que têm aberto na cidade do Porto.

Na internet não. Xau aí, pessoal.

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Somos os maiores!

A cidade do Porto ganhou o prémio de Melhor Parque Temático Europeu, não dando sequer hipóteses à Euro-Disney, ao Parque Asterix, e ao grande favorito, a Bracalândia. As mesmas massas que elegeram (acho) Pablo Osvaldo como o melhor reforço do FC Porto 2015/2016 foram mobilizadas para uma decisiva vitória numa votação online apenas comparável com a escala das últimas presidenciais norte-americanas.

Admito que a propaganda municipal me merece menos interesse que a Dica da Semana, pelo que posso ter lido mal. A ter vencido o prémio de Melhor Ponto de Partida Europeu, será uma vitória justíssima: tenho a maioria dos meus amigos emigrados em cidades como Berlim, Toronto e Pequim (medíocres quando comparadas com as oportunidades de trabalho, lazer, e qualidade de vida oferecidas pelo Porto-ponto) e o nosso aeroporto é de facto porreiro. Somos os maiores, carago!

Feliz Natal


Postal por Carl Røgind, 1919 – Wikimedia Commons.

O Procrastinador deseja um feliz Natal a todos os seus três leitores!

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XXXVI

chocolate-fighting

Aparentemente dei a minha 36ª volta completa à volta do Sol num certo dia da semana passada, o que me fez merecer as mais diversas felicitações. Por existir, aparentemente. Uma vez que a maioria dos dias a minha existência nem sequer merece repúdio, sendo simplesmente ignorada, não desdenho essas felicitações à minha existência e a mais uma involuntária circumnavegação do sistema solar. Além disto, a ocasião permite que se organizem uns jantares e beberetes onde posso reencontrar pessoas que não via há algum tempo – desde a última celebração idêntica, por vezes.

Apesar da gravidade com que se iniciam os 36 anos – com aquele efemérico acordar em que mais uma vez me ponho a reflectir nas coisas que tanta gente alcançou em menos tempo; isto é, a invejar o que desconheço – não finjo que não aprecio fazer anos. Gosto dos aniversários alheios mas sobretudo dos meus: dias em que não fica mal reclamar – ou exigir até – a atenção dos outros, tal fedelho mimado. Com 36 anos, perdemos a vergonha do mimo e da necessidade de afecto. Podemos tê-la andado a esconder, armados em jovens adultos, armados em jogadores com os afectos, invulneráveis. Pelo contrário, queremos aquilo a que todo o ser humano tem direito e que só por teimosia e mania desdenha. Abrace-se o mimo, e comam-se chocolates. Todos gostam de chocolates.

Coraçõezinhos

Ao cimo da rua onde vivo existe uma casa emparedada, onde me recordo ter funcionado uma padaria. Há uns tempos alguém pintou, e muito bem, uns corações vermelhos no cimento que tapa as janelas. Talvez sejam um comentário cínico à quantidade de habitações devolutas aqui na zona, ou porventura uma observação sobre número de likes e de outros coraçõezinhos digitais conquistados pela exploração pornográfica do abandono. Ou, uma ideia radical: talvez apenas sejam corações vermelhos e bonitos.

Sendo sensível à estética do abandono da pedra, do tijolo, do cimento e da telha (e quiçá com um lascivo vislumbre de azulejo), o que faz de mim um desses pornógrafos do abandono urbano, fotografei os tais stencils. Hoje já não o faria, pois julgo que estou muito perto do meu limite para o fetichismo da ruína: por um lado aborrecido, por outro mais sensível à mensagem que este passa: “Venha fazer um tour à Detroit da Europa! Depois de anoitecer pode provar as melhores torradas, bifanas e palmiéres do mundo em cafés gourmet onde raramente vou porque as pessoas com quem me encontraria lá tiveram que emigrar!”, & etc.

Seja como for, às 12:32 do dia 8 de Março de 2014 não tinha estas ideias presentes. Foi esse o momento em que tirei a seguinte foto, utilizando o VSCO Cam porque no que toca a software de telemóvel sou claramente um hipster.

coracoezinhos

Como tenho as minhas aplicações e redes sociais interligadas através de uma complexa pichelaria, devo ter recebido a esperada meia-dúzia de coraçõezinhos no Instagram e de polegarzinhos erectos no Facebook. Esqueci a foto, ainda que continue a passar junto dos corações stencil quase diariamente.

Até ontem, Dia dos Namorados. A meio da tarde o meu telemóvel começa a receber toda uma torrente de amor na forma de notificações incessantes e que rapidamente começam a levar a bateria à exaustão. A foto que eu havia esquecido fora escolhida como ilustração de S. Valentim por alguém no marketing da VSCO Cam e um link para a minha conta no Instagram seria a minha única remuneração. Foram-me enviados dezenas e depois centenas de coraçõezinhos anónimos.

A torrente de notificações que recebi via Instagram no espaço de alguns minutos talvez represente o somatório de três minutos de apreço por uma humanidade anónima, mas ainda assim foram centenas de coraçõezinhos dirigidos no Dia dos Namorados a uma imagem que considero um comentário cínico sobre o abandono — sendo a ironia ainda maior uma vez que o fotógrafo em questão tem sido bastante inábil e algo desafortunado no que toca a assuntos do coração.

Foi-me inevitável ponderar o absurdo da situação. Estes coraçõezinhos do software quotidiano serão meros ideogramas de gosto, apreço, estima, muitas vezes por apenas meio segundo, raramente por mais que dez. Por isto não consigo considerar os emoji, quando usados como substantivos, como mais que eufemismos macabros. Valem um aceno ou um tímido gesto, e ainda assim vêm-se nas redes sociais pessoas que se referem às suas namoradas ou namorados como “a minha / o meu <3”; a ausência do deleite em assumir o amor por alguém transparece quando a ‘mais que tudo’ é a menos que três.

Ontem à noite dei um abraço de despedida a mais uma amiga, quase irmã, que vai emigrar. Ao menos vai fazê-lo por amor, e ainda não há emoji para esse gesto.