O Pseudo
Escrevi a primeira versão deste artigo em Abril do ano 2000, ainda antes do inÃcio do CafeÃna, tendo-o depois reeditado mais tarde. Ao lê-lo agora, dá para perceber que eu era um miúdo irritado. Provavelmente, tinha estado a discutir com alguém no IRC (pois é, essas modernices estilo Facebook são para meninos). E provavelmente, tinha levado um kick, ou um ban, ou lá como se chamavam essas coisas. Daà a dose de ressabiamento.
Vejo, no entanto, uma grande verdade por detrás do meu artigo: existe em Portugal uma crença nefasta numa ‘alta cultura’. Para alguém que trabalha nessa tal ‘área da cultura’, a ubiquidade desta crença torna-se sufocante. Eu cá não acredito que a cultura traga qualquer valor acrescentado a alguém – ninguém é melhor pessoa por ter visto os filmes do Jean-Luc Godard. É bom conversar com alguém com quem temos um vocabulário comum. É apenas natural que as pessoas com gostos semelhantes se aproximem. Mas ninguém é superior  a ninguém – não há qualquer mérito em ver filmes, ouvir música, em ler, ir ao teatro ou a uma exposição: Falamos de consumo, afinal. O valor do conhecimento cultural é estritamente pessoal – se ver um filme do Michael Bay de algum modo me ajudar a ser uma pessoa melhor, óptimo – para mim. Por outro lado, se um filme do Manoel de Oliveira só me servir para me vangloriar de ‘conhecer Oliveira’, então estamos mal – isto é o que Steven Pinker chamou e muito bem de “machismo cultural”.
Fica o artigo:
Isto é um assalto. À mão armada. Um ataque violentÃssimo. Como um leão que salta para cima de um caçador que caminhava serenamente pela savana, maravilhado com a diversidade de cores de um amanhecer africano. Um ataque vil, horrendo, como o cavalheiro que manda três brutamontes assassinar o seu rival com 50 facadas nas costas, isto na véspera de um duelo (que não podia vencer visto ser um azelha a pegar numa pistola, e o seu rival campeão de tiro aos pratos).
Qual é, então, o meu problema? Penso que o posso descrever como a bipolarização de Portugal, à luz de uma azeiteirice e de uma pseudolice crescentes. Há cada vez menos pessoas normais. Apesar de muitas variações, 99% da população pode ser classificada ou como azeiteira (a maioria) ou como pseudo (apesar de em menor número, a classe intelectual dominante).
