A internet é uma merda?

Este artigo foi originalmente publicado no Cafeína a 11 de Outubro de 2003:

Embora pareça paradoxal, um site chamado internetisshit.org fornece alguns bons argumentos rumo à conclusão de que a Internet é uma merda. De facto, tenho que concordar parcialmente com certas opiniões que afirmam que a Internet é uma merda, e que o seu impacto na sociedade acaba por ser limitado, principalmente quando comparado com o impacto provocado pelo aparecimento, em paralelo, dos telemóveis, que reformularam de forma radical a nossa forma de gerir o tempo e as relações pessoais. Mas penso que há várias formas de desilusão com a Internet, e o tal site apenas manifesta a sua desilusão face ao mito, muito difundido, de que a Internet será a maior biblioteca do Mundo.

É que a Internet não é biblioteca nenhuma.

O site parte de uma citação de um publicitário qualquer que considera o Google o mais eficiente bibliotecário alguma vez existente. Dizer isso é um erro grave – ou no caso, conversa de vendedor. O Google é um bom motor de pesquisa, mas temos que ter em conta que “bom motor de pesquisa” significa “arquivista muito pouco fiável”. Basta tentarmos encontrar uma crítica a uma câmara fotográfica (por exemplo), e só encontramos lojas, sites que afirmam que a câmara em questão é óptima. Mas uma crítica, é difícil. É como tentar elaborar um trabalho universitário apenas com base em dados presentes na Internet. Não admira que depois digam que a Internet é uma merda! Mas ponham-se no lugar do autor daquele óptimo livro que está na bibliografia da cadeira em questão: iriam colocar todo esse texto na Internet e abdicar dos lucros do livro que demorou 5 anos a escrever? De facto, na Internet só encontramos alguns trabalhos feitos por nossos colegas – e ninguém garante que tenham tido 20 valores. Daí a Internet, quando encarada como uma biblioteca, ser uma merda. Há no entanto excepções: Utilizo o IMDB.com quando quero saber como se escreve ‘Stroheim’. E os alunos de Direito conseguem encontrar os Diários da República na Internet. Mas fora isto, não esperem encontrar até a ‘História da Arte’ do E. H. Gombrich através de uma pesquisa no Google. É melhor ir a uma biblioteca a sério.

Podemos dizer que de facto a Internet é uma merda se nos sentirmos com o estado de espírito com que lemos uma Lei de Murphy. Isto porque a Internet é um reflexo da Humanidade – e a Humanidade é bem capaz de ser uma merda.

A Internet não é a Biblioteca de Babel. A Internet é a Cidade, para não dizer o Mundo inteiro. Onde existem pequenas bibliotecas, teatros e emissoras de televisão, jornais, restaurantes, criminosos, jipes estacionados em cima do passeio, betos e gunas. Na Internet abunda a inteligência e a estupidez. Há quem se apaixone por certos locais e persiga os habitantes de outros num ódio obsessivo. Cada site, servidor FTP, ou sala de chat é uma estrutura arquitectónica que pode albergar um conservatório de música ou, muito provavelmente, um armazém de pornografia. Na web, existe uma tendência natural para os sites existirem em aglomerações, fortemente linkados entre si e com poucos links para aglomerações exteriores. Existe também o empreiteiro mediático que coloca mamarrachos sobre esta cidade virtual, o cidadão que arranja uma barraca no bairro Blogspot ou no bairro Geocities, os grupos que encomendam um edifício a um bom arquitecto.

A cultura do exterior aproxima-se da cultura da Internet, e estranhamente poucos se aperecebem disso. Os pais deviam ensinar às crianças a não falar com estranhos – do mesmo modo que ensinam no espaço real -, o que evitava medidas parvas e demagógicas como o encerramento dos chats operados pela Microsoft, algo comparável a encerrar as estradas para acabar com os acidentes. A ostentação, o desperdício também são reproduzidos. Durante a época louca das ‘dot-coms’, do ‘e-business’ e do ‘e-commerce’, quando milhares de Portugueses viam a esperança de um futuro glorioso reflectido em acções da PT Multimédia a 140 euros, fui abordado – e isto é totalmente verídico! – por alguém interessado em instalar uma loja electrónica de máquinas de lavagem automática de automóveis - daquelas que são instaladas nas bombas de gasolina!

Perante a loucura, como havia de deixar de ser inevitável o fracasso? Do mesmo modo, a actual febre (a esfriar) dos weblogs tem muito de semelhante, um fenómeno cultural que tem a ver com algo mais que a Internet, e que entra em colapso quando a realidade da web o atinge. Veja-se a quantidade de weblogs a apodrecer, não actualizados há meses, atingidos mortalmente por uma má nutrição informativa, uma vez que os seus autores não compreenderam que um weblog necessita de alimento, que após alguns artigos deixa de haver assunto a menos que se cavalgue o ‘zeitgeist’, a actualidade, aquilo que há para comentar e recomendar. Veja-se ainda weblogs como o Gato Fedorento, que nada mais foram (e declaradamente diga-se!) que ‘gateways’ para actividades lucrativas fora da Internet.

Tudo isto é humano. Tudo isto é, conforme os casos, louvável, correcto, incorrecto ou criminoso. É assim a Internet, um espelho fiel dos criadores. 

Axioma: A Internet é uma merda.
Axioma: A Internet é um reflexo dos seus criadores e participantes.
Corolário: Os criadores da Internet e seus participantes são uma merda.