Não sejas burro!

Talvez um dos mais anacrónicos dos artigos que escrevi no Cafeína, a 5 de Outubro de 2002:

“Não sejas burro!” Quantas, quantas vezes é que esta frase não nos ecoa na cabeça? Seja quando estamos a pensar oferecer o café a um amigo, seja quando passamos um recibo, seja quando estamos a tratar das partilhas relativamente à herança de um parente próximo (onde há sempre – sempre – uma cunhada que é a encarnação de Satanás), há que ter sempre em conta o ensinamento que os bons dos nossos pais e a boa da sociedade portuguesa nos deram desde que nascemos: “Não sejas burro!”

Porém, quem não se quer burro também se quer sério. Em Portugal há milhões de pessoas sérias, e alguns priveligiados: aqueles que fazem parte da classe política, futebolística, empresarial. São ministros, deputados, bastonários e autarcas. São pessoas seríssimas, que conseguem a proeza de atingir o superlativo da verdade, pois se homem sério é por definição aquele que diz a verdade, o que é um homem seríssimo? Há portanto em Portugal uma grande maioria séria e duas minorias: a seríssima e a honesta

As pessoas honestas são também conhecidas como anjinhos ou anjolas. São aquelas que se deixaram ser burras. São o descalabro. Uma família terá orgulho nos seus filhos sérios e sobretudo nos seríssimos, mas um filho honesto é uma fonte de problemas. É a ovelha negra. Se a família for da Província, um filho honesto é também muito provavelmente comunista e ateu.

Mas quais as diferenças? As pessoas sérias são dotadas de algo que as honestas nunca têm – ou pretendem vir a ter: o bom-nome. Se uma pessoa séria tem uma pequena quantidade, cuidadosamente mantida, de bom-nome, um homem seríssimo tem bom-nome para dar e vender: É o latifundiário do bom-nome, que protege a sua propriedade a todo o custo da calúnia. Demonstrar ter uma grande quantidade de bom-nome significa que se está enterrado até ao pescoço em algo, que deverá ser concerteza apenas e só a seriedade

Antigamente havia a cunha, que sugere uma peça triangular que é empurrada com um martelo e que serve para desencravar – ou desenrascar - algo. Contudo, nesta era da seriedade e do bom-nome o método arcaico da cunha desapareceu. Na era do telemóvel liga-se a um amigo que nos desenrasca. A cunha era um acto horrível de corrupção, mas ninguém poderá por em causa um simples favor a um amigo, uma pessoa seríssima que da última vez que vi me ofereceu uma garrafa de Chivas Regal. 

Contudo, é inexplicável que com tamanha abundância de homens sérios, os nossos pais (os mesmos que nos dizem para não sermos burros) nos falem constantemente na escassez de grandes homens como os de Antigamente. Um grande homem, segundo parece, conseguia a proeza absolutamente notável de ser seríssimo e honesto ao mesmo tempo. Eu cá julgo que a morte de um homem sério lhe confere o milagre da súbita honestidade.

Que futuro glorioso espera portanto os homens seríssimos do presente.