Pirâmides
Mal sabia eu o que viria aí quando, a 4 de Julho do ano passado, escrevi o artigo que reponho mais abaixo. Lembro-me que nesse dia tinha ido ao Banco ‘trocar as fichas’ depois de a Bolsa ter tido mais um crashzito fatela de uns três porcento. No balcão juraram que a Bolsa tinha batido no fundo, que a recuperação começava no dia seguinte, que a seguir ao Verão estaria rico. Mesmo estando em causa um ‘fundo de investimento’ e uma quantia pequena (basicamente era um depósito dos restos não-esmifrados de prendas de Natal e de aniversário), sinto-me hoje orgulhoso dos meus ouvidos de mercador. Mas em relação ao artigo, não tive tomates para colocar por escrito a conclusão lógica do meu raciocínio – que a Economia mundial é um colossal esquema em Pirâmide, tal como Douglas Ruskoff descreve eloquentemente neste artigo. Fica o meu artigozinho ligeiro:
Há uns dias recebi um e-mail de um senhor que se apresentou como Ministro dos Transportes da Gâmbia em que me era pedida ajuda financeira. Sim, a mim!, um portuguesito com uma conta bancária igualmente diminutiva.
Continuando. O Ministro dos Transportes da Gâmbia necessitava de dez mil euros para pagar uma taxa qualquer para fazer qualquer coisa envolvendo muito milhões de dólares que estão num offshore na Suíça. Mais tarde eu receberia os meus dez mil euros de volta, mais um milhão de dólares. Ou seja, tendo em conta a cotação do dólar, pagar-me-ia mais uns 10% de juros. Não é um negócio lá muito atractivo, mas em tempo de crise [mal sabia eu - Ed], porque não?
Acabei no entanto por ignorar o pedido. Pensei, é para este tipo de situações que existem as Cofidis e as Crediais. Levam um juro um bocadinho maior, mas acho que quem tem muitos milhares numa conta na Suíça pode dar conta do recado (a menos que já tenha andado a comprar uns sofás e uns plasmas). Eu cá vou mais pelo velho ditado: “Ninguém dá nada a ninguém”, ou mais exactamente pela versão Wall Street - “Não há almoços grátis” (curiosamente, a malta de Wall Street rege-se pela versão Tony Soprano - “What’in it for me?”).
“Ninguém dá nada a ninguém” e pior, em tempos de crise (entre outros) “todos nos querem vir ao bolso”. No entanto hoje vi uma reportagem no Telejornal e achei engraçado que enquanto “todos nos querem vir ao bolso” há quem acredite que há por aí umas ‘oportunidades’ para fazer um monte de dinheiro, entrando no ‘jogo da roda’. Só precisamos de ‘investir’ uns milhares de euros!
Eu não entro nesses esquemas. Se quiser perder uns milhares de euros, faço-o como deve ser: no Casino. Aí há profissionais que nos garantem que a nossa experiência de perder dinheiro foi pensada por quem realmente sabe fazer os outros perder dinheiro. É como aquela questão de não haver pior forma de morrer que assassinado por quem não tem lá muito a certeza do que está a fazer. No Casino bebem-se uns copos de whisky de qualidade, vê-se um show de miúdas de plumas e mamilo ao léu, e pelo meio escolhemos a velocidade com que nos queremos desgraçar – mais lento nas slots e máquinas de póquer, mais rápido a fazer apostas abstuntas na roleta. Estar num café com (futuros ex-) amigos a desenhar em guardanapos umas bolhas que afinal são círculos que afinal são cones vistos de cima é que não tem lá muita piada.
Um cone é parecido com uma Pirâmide depois de desbastada e polida. Os novos burlões chegaram à mesma conclusão que alguns concursos televisivos: uns gráficos fixes ajudam. No entanto nem toda a gente cai nisto, pelo que alguns recorrem a outros métodos. Há quem meta no jogo uns selos ou uns cremes para as rugas muito caros. E há os que tentam enganar a malta com espetáculos mal coreografados em hotéis de três estrelas, em que toxicodependentes excitados testemunham como enriqueceram e o esquema é do bom e do melhor. Se há sítio onde nunca me apanharão se eu enriquecer é precisamente numa cave fluorescente a dizer a donas de casa desesperadas e a ex-presidiários o rico que sou.
A essa hora estaria era a desgraçar-me no Casino.
