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Morte ao Príncipe Encantado

Fui hoje alertado para uma qualquer disfunção nos arquivos. Corrigi-a e espero que o site tenha voltado a funcionar como deve ser. Aproveitei para dar mais uma vista de olhos pelo meu antigo material e encontrei este belo artigo que escrevi em 2004. Admito que foi produto de uma crise de ressabiamento, mas continuo contudo a achá-lo cheio de verdades. Continuarei a escrever acerca deste tema mais tarde, alimentado pelos episódios que vivi nos últimos cinco anos. Não haja dúvida, cá continuo com o meu fervor revolucionário, o desejo do sangue de Príncipes, Duques, Condes, Viscondes, Marqueses, Barões, Baronetes e aristocratas diversos. Sem um real e indispensável 25 de Abril do Amor as revoluções políticas serão sempre passageiras:

Já é tarde. Três finos na mesa. Três gajos conversam descontraídamente. Subitamente, entra no bar uma mulher bonita que interrompe essa conversa, e talvez outras conversas noutras mesas. Logo atrás, estendido como se segurasse uma trela, o braço de um azeiteiro de t-shirt justa, fio de ouro, cabelo bem puxado com gel, e uma fronha que não engana ninguém – um violento com quem não nos queremos cruzar na rua. Fala-se então de outra coisa, já não do passaporte falso do Mantorras, mas sim da hipocrisia inata às mulheres, que falam de umas coisas bonitas - sentimentoshomens sensíveis – mas acabam invariavelmente por se comprometer com broncos da pior espécie. Eu descobri o culpado deste fenómeno: o cabrão do Príncipe Encantado.

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Redes Anti-sociais

Basta uma espreitadela à barra lateral deste weblog para ver que eu, como qualquer outro cidadão exemplar da Internet, também aderi a umas quantas redes sociais, apesar das minhas paranóias acerca da construção cooperativa de pequenos Big Brothers em que não precisamos de ser vigiados por organizações secretas porque achamos giro abdicar da privacidade voluntariamente. Há também uma parte de irritação mais imediata relativamente às redes sociais, tema do meu artigo para o Cafeína de Junho do ano passado:

Estava eu a beber umas cervejas com uns amigos num bar algo escuro e com música ao vivo e reparámos em duas moças aos risinhos noutra mesa, meio escondidas atrás de uma maçã fluorescente. “É o Futuro”, pensei eu, “o petróleo está a preços de ficção científica e a malta sai à noite com o portátil”. Mas achei que valia a pena averiguar o porquê dos risinhos. Fui buscar uma rodada ao bar e espreitei o ecrã do computador. Vi o que temia: o Hi5. As moças estavam a passar a noite num bar, a micar os gaijos da Internet!

Eu confesso: tenho um perfil no Hi5 (e no Facebook, no LinkedIn, no Star Tracker, no MySpace – mas nunca tive paciência para este – no Vimeo, no YouTube, no Twitter, no Twine… bem percebem a ideia). Tenho um catálogo de amigos, amigas, algumas pessoas que não conheço de lado nenhum mas não quis ofender, e inclusivamente cães falantes. E o mais estranho é que não sei explicar porquê. Ou se calhar sei: somos tristes e sós. Esperamos que alguma amiga das nossas 276 amizades no Hi5 seja a mulher da nossa vida, além de gira e boa. Esperamos que algum contacto de um dos nossos 353 contactos no LinkedIn tenha de alguma forma a responsabilidade de gastar o dinheiro do Joe Berardo num jovem licenciado com pouca experiência.

As redes sociais são um pouco como jogar no Euromilhões. Todos queremos alguma coisa de alguém, por vezes precisamos é de descobrir de quem.

São também óptimas ferramentas para reencontrar pessoas. Por exemplo: há uns tempos vi num café uma Miúda Gira que andou na mesma escola que eu, e que na altura nunca tive coragem de abordar. O que é que faço? Ajo como Um Homem e vou lá meter conversa? Ou chego a casa, entro no Hi5 e procuro o grupo da nossa antiga escola? Eu fui pela segunda hipótese. Ali está uma rapariga que costumava dar-se com a Miúda Gira, deixa ver que amigas ela tem… e ali está, a Miúda Gira. Carrego ou não carrego? Carrego. Logo para começar, o perfil tem um fundo arco-íris que o torna quase ilegível. E depois ali está, o inevitável favourite book, “O Alquimista” de Paulo Coelho.

Miúda Gira, estou contente por não ter metido conversa contigo.

É evidente que isto é um pouco alienante, creepy e um pouco alienante e creepy. Também já se deu o caso de eu conhecer Miúdas Giras que não saem para tomar café porque estão ocupadas, ocupadas a juntar mais 27 amigos à colecção, a atirar almofadas a Fulano, a fazer cócegas a Cicrano, a escolher os seus dez signos astrológicos preferidos e a enviar videos do Enrique Iglesias a toda a gente. Sim, sou um ressabiado. Mas depois ainda tenho as amigas e amigos que ficam magoados por não serem top friends. Onde é que isto acaba?

Eu sei onde acaba. Top friends é um conceito limitado. Acho que o Hi5 ou o Facebook para serem perfeitos dever-nos-iam permitir cotar os nossos amigos com estrelas: “Hm, a A. chega atrasada sempre que vamos sair: três estrelas”. “O B. está sempre a cravar boleia: duas estrelas”. Ficaríamos todos só com bons amigos. Muito poucos amigos, mas bons amigos.

A Fotografia é para punheteiros

Sendo eu um trabalhador intermitente com mais intermitência que trabalho, decidi que está na altura de refazer o meu portfolio. Comecei pela parte mais rasca – a minha ‘obra’ fotográfica – e passei assim a tarde de ontem a tentar escolher, entre uns milhares de fotografias, uma meia dúzia que, fruto de pura sorte, transmitissem de qualquer forma um talento bem acima das minhas reais capacidades, como é normal em qualquer portfolio. Tive no entanto sempre presente um artigo que li recentemente – Photography is for Jerkoffs. E pensei – “Amen”:

Uma fotografia sem interesse nenhum. Mas como "if you can't make it good, make it bigger", aposto que conseguia bom dinheiro com uma impressão de dois metros.

Uma fotografia sem interesse nenhum. Mas como "if you can't make it good, make it bigger", aposto que conseguia bom dinheiro com uma impressão de dois metros.

Tal como o artigo menciona, uma fotografia é apenas tão boa como aquilo que é fotografado. Ir à guerra para tirar umas fotos realmente requer tomates. Desenhar a iluminação e encenar adolescentes extremamente mimadas com o intuito de fazer delas estrelas da passerelle requer anos de prática e experiência. Mas o acto de fotografar em si é desprezível e nada vale. Recorrendo mais uma vez ao artigo, é uma questão de encontrar uma boa fonte de luz (tipo, o Sol), certificarmo-nos que ela ilumina o que queremos fotografar, e disparar – várias vezes porque uma boa foto é uma probabilidade estatística. Ou seja, tirar uma foto interessante na rua e julgarmo-nos bons fotógrafos é o mesmo que ganharmos o Euromilhões e acharmos que somos génios do mundo financeiro, apenas muito mais provável.

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Aliens

A crença em aliens é provavelmente a a prova final de que a Humanidade está entregue irremediavelmente à estupidez. Não estou com isto a negar a probabilidade de existência de vida extra-terrestre, que julgo elevadíssima. Quando falo da crença em aliens falo da crença no homem verde, no E.T., no Chewbacca, na crença de que de facto andou uma betoneira gigante a abduzir pessoas em Alfena, enquanto na estrada entre Alcochete e o Montijo apareceram umas luzes fortes que vieram de Andrómeda com o único propósito de efectuar uma colonoscopia a um especialista em caixilharias.

São mais idiotas que adolescentes que ainda acreditam no Pai Natal, ou que universitários que ainda acham que os livros só dizem a verdade, aqueles que acreditam em selenitas e marcianos. O Universo é tão vasto que, embora o julgue difícil de conceber sem vida inteligente fora da Terra, estamos para todos os efeitos sozinhos no espaço. As outras civilizações, estão muito, muito longe ( o que equivale a dizer: há muito, muito tempo). Mesmo a viajar quase à velocidade da luz, um alien demoraria imenso tempo – e gastaria imensa gota – a chegar ao Burger King da A28.

É preciso p0rtanto pensar um pouco nas motivações: Podemos acreditar que os habitantes do Planeta Zyx reuniram uma boa parte do combustível nuclear do respectivo sistema solar dentro de um grande disco voador habitado por 10 mil Zyxianos, que durante 400 gerações vividas a bordo da grande nave atravessaram os 400 anos-luz de espaço interestrelar que separam Zyx da Terra, com o objectivo de retirar a unha do dedo mindilho do pé esquerdo a uma cabeleireira que seguia cerca das 21:30 ao volante do seu Opel Corsa na estrada Arouca – Vale de Cambra? E falamos nós em obras faraónicas!

A exploração espacial é muito, muito difícil. Capazes da estupidez que implicitamente os relatos de OVNIs associam aos extra-terrestres, só mesmo nós, os terráqueos.

Trinta

Faço trinta anos hoje. Trinta, idade assustadora. Até agora, apesar de dar umas aulas num estabelecimento de ensino superior a miúdos nascidos depois da queda do muro de Berlim, do Itália’90 e da execução do Ceausescu, eu pensava para mim mesmo “bem, mas eu só tenho vinte e tal anos, só sou um bocadinho mais velho”. O prazo de validade desse mantra acabou ontem, e de repente vejo-me a enumerar mentalmente os casos que conheço de pessoas mais velhas que ainda não fizeram nada na vida. Mudamos do facto para a desculpa, da garra para a schadenfreude, e é assim que se entorna o caldo psíquico.

Por outro lado, onde estava eu há dez anos atrás? Um puto, com uma predisposição enorme para ser foleiro e autocomiserante, com uns flashes de algum jeitinho para certas coisas pelo meio. Continuo a ter jeitinho para certas coisas por flashes, mas aprendi a combater a foleirice através da pura procrastinação, e quanto à autocomiseração, entretanto desenvolvi uma carapaça emocional.

De tartaruga.


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