A Fotografia é para punheteiros

Sendo eu um trabalhador intermitente com mais intermitência que trabalho, decidi que está na altura de refazer o meu portfolio. Comecei pela parte mais rasca – a minha ‘obra’ fotográfica – e passei assim a tarde de ontem a tentar escolher, entre uns milhares de fotografias, uma meia dúzia que, fruto de pura sorte, transmitissem de qualquer forma um talento bem acima das minhas reais capacidades, como é normal em qualquer portfolio. Tive no entanto sempre presente um artigo que li recentemente – Photography is for Jerkoffs. E pensei – “Amen”:

Uma fotografia sem interesse nenhum. Mas como "if you can't make it good, make it bigger", aposto que conseguia bom dinheiro com uma impressão de dois metros.

Uma fotografia sem interesse nenhum. Mas como "if you can't make it good, make it bigger", aposto que conseguia bom dinheiro com uma impressão de dois metros.

Tal como o artigo menciona, uma fotografia é apenas tão boa como aquilo que é fotografado. Ir à guerra para tirar umas fotos realmente requer tomates. Desenhar a iluminação e encenar adolescentes extremamente mimadas com o intuito de fazer delas estrelas da passerelle requer anos de prática e experiência. Mas o acto de fotografar em si é desprezível e nada vale. Recorrendo mais uma vez ao artigo, é uma questão de encontrar uma boa fonte de luz (tipo, o Sol), certificarmo-nos que ela ilumina o que queremos fotografar, e disparar – várias vezes porque uma boa foto é uma probabilidade estatística. Ou seja, tirar uma foto interessante na rua e julgarmo-nos bons fotógrafos é o mesmo que ganharmos o Euromilhões e acharmos que somos génios do mundo financeiro, apenas muito mais provável.

Talvez devido a isto, em vez de tirar cada vez mais fotos, tenho tirado cada vez menos. Além de ter uma certa fobia a andar de câmara na rua – porque não tenho nada a ver com os idiotas que andam de FMs e de Polaroids a tira-colo feitos marqueses abichanados da corte de Luís XIV com os seus berlicoques, e porque não gosto dos mirones e ‘especialistas instantâneos’ que estão no outro lado da rua com ar reprovador se me der na telha que quero fotografar uma tampa de saneamento. E sobretudo porque me estou a cagar para os ‘instantes decisivos’ e para as outras reais tretas que os punheteiros foram usando, ao longo da História da Fotografia, para legitimarem a sua forma estatística de talento.

Nenhuma foto alguma vez representou a verdade do que quer que fosse (é aliás por isto que aquilo do cinema verité, embora seja uma estética gira, é uma treta). Logo a começar, há o instante e o ângulo de visão. Quase nunca se vêm os prédios junto às pirâmides do Egipto, e nenhuma imagem de Veneza nos diz que por vezes aquela cidade cheira muito mal. Acreditar na verdade de uma fotografia, mesmo antes do Photoshop, era coisa para anjinhos. Portanto, se há arte na fotografia, esta será precisamente na encenação e no artifício – naquelas coisas em que existe o trabalho de colocar diante da câmara algo de fixe para esta capturar. E aí não interessa realmente se esta é uma Acer ou uma Hasselblad – a menos que façamos as tais mega-impressões -, já que fixe é fixe indepententemente da câmara. Quando não há real interesse na imagem, é aí que entra a objectofilia que enche as publicações da especialidade…