Morte ao PrÃncipe Encantado
Fui hoje alertado para uma qualquer disfunção nos arquivos. Corrigi-a e espero que o site tenha voltado a funcionar como deve ser. Aproveitei para dar mais uma vista de olhos pelo meu antigo material e encontrei este belo artigo que escrevi em 2004. Admito que foi produto de uma crise de ressabiamento, mas continuo contudo a achá-lo cheio de verdades. Continuarei a escrever acerca deste tema mais tarde, alimentado pelos episódios que vivi nos últimos cinco anos. Não haja dúvida, cá continuo com o meu fervor revolucionário, o desejo do sangue de PrÃncipes, Duques, Condes, Viscondes, Marqueses, Barões, Baronetes e aristocratas diversos. Sem um real e indispensável 25 de Abril do Amor as revoluções polÃticas serão sempre passageiras:
Já é tarde. Três finos na mesa. Três gajos conversam descontraÃdamente. Subitamente, entra no bar uma mulher bonita que interrompe essa conversa, e talvez outras conversas noutras mesas. Logo atrás, estendido como se segurasse uma trela, o braço de um azeiteiro de t-shirt justa, fio de ouro, cabelo bem puxado com gel, e uma fronha que não engana ninguém – um violento com quem não nos queremos cruzar na rua. Fala-se então de outra coisa, já não do passaporte falso do Mantorras, mas sim da hipocrisia inata à s mulheres, que falam de umas coisas bonitas - sentimentos, homens sensÃveis – mas acabam invariavelmente por se comprometer com broncos da pior espécie. Eu descobri o culpado deste fenómeno: o cabrão do PrÃncipe Encantado.
Infelizmente já ouvi a história do “Não é engraçado? Eu e o Fulano não temos mesmo nada a ver…” demasiadas vezes na vida. A traição que as mulheres fazem aos seus supostos ideais de masculinidade é certamente uma regra e não uma excepção. É tiro e queda: podem ser as mulheres mais cultas e mais selectivas, mas mal apareça um bronco qualquer armado em Cavaleiro de Armadura Prateada (Mercedes, BMW, etc) com umas ténues promessas de uma vida de lazer (aquela parte dos felizes para sempre logo se vê), mesmo que o gajo tenha as palavras ‘violência doméstica’ tatuadas na testa elas ficam possuÃdas pela programação a que foram sujeitas, vendo no putativo Azeiteiro os sÃmbolos de um Homem Bom que trazem da infância – seja o boi do PrÃncipe, o cabrão do Cavaleiro ou o filho da puta do Ken que, pensam, lhes vai trazer todos os brinquedos da Barbie à escala 1:1.
É óbvio que isto não funciona. Anos mais tarde este Ken é daqueles que espanca a esposa com toalhas húmidas para não deixar marca, para que não pareça tão mal naquela marisqueira onde costumam ir todos os Sábados, reconhecidos pelos três gajos que mais tarde foram ao bar como “aquele casal de zombies”. E por mais trágicos que sejam estes fenómenos, por maior sofrimento que isto cause à s mulheres, existe sempre da parte dos espectadores uma sensação de alguma justiça, a pena a ser cumprida por essa traição dos princÃpios professados, essa submissão fútil a mitos infantis.
O amor é, nas palavras de Miguel Esteves Cardoso, fodido. Também o é o poder. Logo, amor e poder não são uma boa combinação. Numa relação assimétrica (por exemplo, entre uma filósofa e um picheleiro) o poder é exercido pela pessoa que se sente inferior, com efeitos desastrosos. Quantas grandes mentes não se terão perdido em relações medÃocres, incapazes de recuperar depois da inevitável ruptura? E é tão simples de entender isto – o picheleiro irá sempre ter inveja e ciúme dos amigos da filósofa, com os quais ela fala uma linguagem que ele não entende, levando-o a impedi-la de estar com esses amigos, exercendo assim poder. A filósofa pode sonhar em fazer o picheleiro tornar-se filósofo, mas isso não acontece – o complexo de inferioridade do picheleiro funciona sempre de forma destrutiva. Ou seja, no final é a filósofa que sai prejudicada, objecto constante de poder, de posse, simbolizado muito bem pelo braço que a segura na presença dos amigos filósofos, não vá ela fugir para junto dos seus.
Não há poder entre iguais. Não há um elemento mais fraco a tentar dominar o mais forte. Não é de admirar que as relações mais estáveis sejam entre pessoas que podem cooperar. Casais de advogados, de médicos, de professores, artistas, ou artistas e cientistas com interesses recÃprocos. A burocrata e o arquitecto – não. O fiscal e a pintora – não. É óbvio que há lugar para excepções – pessoas com capacidade de se interessarem pelos gostos da parceira ou de a apoiar nas suas actividades – mas regra geral as assimetrias, quando visÃveis aos olhos exteriores, são o ponto de partida para o veneno dos jogos de dominância.
Portanto abaixo a Barbie! Urge decapitar o Ken! Em suma, é preciso parar a lavagem cerebral, essa programação do subconsciente, feita para colocar a aristocracia em vantagem! Sim, PrÃncipes Encantados, Cavaleiros de Armadura, o Ken! Os betos, aristocratas! Os que tentam matar dois coelhos de uma só vez: ficar com as mulheres mais belas no seu mapa genético enquanto destroem grandes mentes que poderiam ameaçar a ordem patriarcal. Adicione-se uma dose de engenharia genética, e concretizar-se-à o grande sonho de muito fascista: a separação efectiva de duas raças humanas, o homo sapiens rex, rico, poderoso e belo (graças ao material genético adquirido); e o homo sapiens servilis, pobre e Neanderthal.
E tudo culpa do cabrão do PrÃncipe Encantado.
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