Trinta

Faço trinta anos hoje. Trinta, idade assustadora. Até agora, apesar de dar umas aulas num estabelecimento de ensino superior a miúdos nascidos depois da queda do muro de Berlim, do Itália’90 e da execução do Ceausescu, eu pensava para mim mesmo “bem, mas eu só tenho vinte e tal anos, só sou um bocadinho mais velho”. O prazo de validade desse mantra acabou ontem, e de repente vejo-me a enumerar mentalmente os casos que conheço de pessoas mais velhas que ainda não fizeram nada na vida. Mudamos do facto para a desculpa, da garra para a schadenfreude, e é assim que se entorna o caldo psíquico.

Por outro lado, onde estava eu há dez anos atrás? Um puto, com uma predisposição enorme para ser foleiro e autocomiserante, com uns flashes de algum jeitinho para certas coisas pelo meio. Continuo a ter jeitinho para certas coisas por flashes, mas aprendi a combater a foleirice através da pura procrastinação, e quanto à autocomiseração, entretanto desenvolvi uma carapaça emocional.

De tartaruga.