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Arqueologia Unificada

Volta e meia, quando estou numa de procrastinar em relação a alguma coisa – porque eu só trabalho quando isso implica que existe uma outra tarefa mais importante que estou alegremente a ignorar – vou desenvolvendo uma nova versão do meu portfolio (veja-se ao tempo que ando nisso).

O outro dia, enquanto passeava por todo o meu arquivo de criações web (cerca de 110 sites/versões desde 1997, o que não é assim tanto), à procura de sites portfolio-worthy, encontrei uma discreta criação minha que se me tinha varrido completamente da memória, chamada Teoria Unificada. Foi uma primeira tentativa de ter um weblog pessoal em Português que coexistisse com a Cafeína, e que durou de Julho a Outubro de 2003. E foi chocante encontrá-lo por dois motivos. O primeiro, porque me esqueci completamente da sua existência: senilidade precoce, ou sintoma de uma fraca qualidade que decidi reprimir? O segundo, porque ao lê-lo descobri a) até que ponto o Cafeína impunha uma marca à minha escrita e b) seis anos volvidos continuo a falar das mesmas coisas. O meu recente artigo sobre Aliens, por exemplo, é um auto-plágio inconsciente a algo que escrevi no T. U..

Apesar de tudo, o Teoria tinha uma aura depressiva-teenage que espero ter ultrapassado. Um copy-paste aleatório:

Quinta, 10 de Julho de 2003

A ideia: durante um ano coleccionar pacotes de açúcar vazios, e escrever neles a data de quando foram abertos com o fim de adoçar um café. Ver assim uma crescente representação material de um hábito repetido dia após dia, em cada um duas ou três vezes. Em alternativa, os fumadores podem coleccionar as pontas, o que julgo ser uma colecção ainda mais terrível. - 15:45

Quero que a ‘blogoesfera’ se foda. - 12:49

As médias são perversas. As médias escondem os extremos e a distribuição. E pior que tudo, há médias sem números, é a normalidade. É o que esperamos das pessoas, quando muito provavelmente raras são as que estão sobre a média. É estranho, mas é um pensamento confortável. - 2:33

Quatro meses de coisas neste registo. Bem fraquinho. Por isso já sei onde vou buscar artigos quando estiver sem ideias…

Teoria Unificada

Se faltam novas ideias, recicle-se material antigo. Ao repor este artigo de há seis anos atrás, que inclui a famosa referência ao tal pinguim de bronze que se viria a tornar desde em então numa private joke, provo que a minha opinião acerca da vida não mudou – é uma sucessão trágica de acontecimentos aleatórios sobre os quais a nossa capacidade de intervenção é mínima. Resta-nos o amor, e o humor:

Imagina que estás a preparar-te para saires de casa rumo a mais um dia de trabalho. Estás a lavar os dentes e reparas no bocado de bacalhau que está entre dois molares desde o jantar de ontem. A escova é ineficiente e tens que usar fio dental. Como não há fio dental, tentas utilizar um bocado de fio que está pendurado da toalha. Com tudo isto perdeste um minuto a mais, e consequentemente vais perder o autocarro, esperar pelo seguinte que só chega passado meia hora, e assim acabas por ser despedido porque este mês ainda não chegaste a horas uma única vez. Assim, talvez fosse melhor não lavares os dentes de todo, mas assim irias ser atropelado ao atravessar a rua. Não, o melhor mesmo era ter comido só sopa no jantar de ontem – assim não és nem despedido nem atropelado. Mas tem o cuidado de sair mais cedo daqui a 15 dias, senão vai-te cair um pinguim de bronze em cima.

É um inegável que todos os pequenos pormenores das nossas vida podem ter uma influência directa no nosso futuro. Quando começamos a considerar todos os ‘ses’, começamos a ver como temos tido sorte. Como diz o meu amigo Alexander Russell, “se a Terra fosse amarela era uma bugiganga gigante” [ou, parafraseando Millôr Fernandes, se o Mohammed Ali não tivesse ganho os combates não teria sido campeão - Ed]. Tenho aliás que acrescentar que a Terra seria uma bugiganga gigante muito inferior a Titã, que sempre é um bonito cor de laranja. De qualquer modo, se a Terra fosse amarela, provavelmente não teria vida (excepto no Médio Oriente onde já estão habituados), pelo que não nos andaríamos aqui a preocupar. Assim, o melhor mesmo é não pensarmos nos ‘ses’. Olhar para trás não é uma boa ideia, especialmente quando podemos olhar pelo retrovisor.

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