Entre uma rocha e um sÃtio duro
É o estágio não remunerado. É a experiência de seis meses. É o mostra o que vales, que a gente dá-te ajudas de custo. É o projecto jovem e inovador, que pagará logo que existam receitas. Oferecem equipas dinâmicas, equipas bem-dispostas, a oportunidade de trabalhar com os melhores clientes do mundo. A única coisa que não oferecem é um salário, quanto mais um salário  justo. Os anúncios do Carga de Trabalhos (que é apenas um exemplo) são das coisas mais deprimentes imagináveis. Nesse idÃlio empresarial não existe o dinheiro – raÃz de todo o mal. E também nunca é apresentada a realidade do patrão que obriga o estagiário a dividir fifty-fifty o subsÃdio estatal, nem do patrão que o promete, promete, e nunca chegou a meter os papéis.
Há que chamar ao estágio aquilo que realmente é: roubo e exploração, e denunciar os empresários que a ele recorrem. As implicações morais e éticas do trabalho não remunerado – violação flagrante dos Direitos Humanos – aparentemente não incomodam ninguém, portanto temos que reflectir também nas implicações económicas: Além de ser uma forma de concorrência desleal, pois quem não paga aos trabalhadores pratica preços (ligeiramente) mais baixos, o estágio implica evidentemente uma quebra brutal no poder de compra de uma geração. E ainda:
Senhor Cliente: está a ver aquelas facturas que discriminam os honorários de uma série de colaboradores pagos com uns 25 euros/hora (o que daria vontade de rir se não desse de chorar)? É pura mentira. Você está a ser roubado. Para a próxima, faça uma pesquisa pelos sites de oferta de emprego. Veja o que é que a empresa que contratou oferece aos trabalhadores.
É uma ideia simples. Uma vez que nenhum Governo tem tomates para criminalizar o trabalho não remunerado, incentive-se o boicote às empresas que o praticam e por arrasto enganam os respectivos clientes.
Evidentemente, isto dificilmente acabará enquanto existir gente disposta a trabalhar sem receber. Enquanto uns precisam de ganhar para o pão, há por aà muitos palermas a quem os pais pagam uma independenciazinha IKEA e se podem dar ao luxo de roubar empregos a quem realmente precisa.* Mas eu, se for um cliente que espera um trabalho bem feito em troca do dinheiro que vou pagar, não quererei certamente gente dessa a meter-lhe a pata.
Trabalho não remunerado é roubo – não só aos trabalhadores como também aos clientes e a todos nós.
* Uma palavrinha acerca dos grupos de protesto contra a precariedade: um grupo de agentes sabotadores enviados pelas confederações patronais dificilmente conseguiria vir com uma ideia mais contraproducente do que a marcação de protestos para o Piolho.
