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Private jokes e discursos íntimos

Existe um deus chamado Bruce. Não é um deus bondoso, nem maligno. É apenas Bruce, uma trindade: Nauman é a Luz (fluorescente). Mau é o design, o planeamento, e de certo modo a ACME das nossas vidas. E Lee, Bruce Lee, é a porrada que a vida nos dá. Existe ainda um semideus, Bud, o humor com que devemos encarar as coisas, sobretudo essa porrada que a vida nos dá.

Tal é a religião, estilo Spaghetti Monster, desenvolvida com uma amiga ao longo de muitas tardes de preguiça. Um de nós dirá “hoje Lee presidiu” e o outro dará o ombro, perguntará o que aconteceu. Bruce é um fragmento de uma linguagem íntima de que nós somos os únicos faladores. Surgiu espontaneamente, nunca nos sentámos e dissemos “vamos inventar uma religião parva”. São apenas metáforas que surgiram naturalmente no nosso discurso, evidências de entendimento e intimidade, tais como são as referências a Seinfeld ou a Smiths (“foi um plano à George”; “ainda levo com o double-decker”). Nunca teriam feito sentido se não conhecessemos e admirássemos Nauman e Mau; se não tivessemos crescido com os filmes de Lee, e com os de Bud e Terence Hill.

A linguagem da intimidade é construída. Pelas experiências e conversas comuns; e sobretudo pelos Momentos. Não é criada, não é partilhável, não é passível de ter qualquer significado quando citada. Com M. falo de Bruce Lee, com A. falo de pêras; referências diferentes para conversar sobre as mesmas coisas. Quer as private jokes, quer os discursos íntimos, são exactamente isso: privados e íntimos.

Um estádio cheio de improbabilidades

Mais reciclagem, desta feita de um artigo que escrevi em Fevereiro de 2004 acerca do modo como as probabilidades nos confundem… Duvido que hoje, com a forte adopção das lâmpadas CFL, haja muitos ‘médiuns’ a fazer previsões acerca de lâmpadas fundidas em directo na televisão:

Pensem em coisas extremamente improváveis de acontecer. Digamos, algo com uma probabilidade de um em um milhão de acontecer na próxima hora. Como encontrar uma nota de duzentos euros na rua, ou de levar com um vaso na cabeça. Parecem hipóteses reduzidas, mas dizem-nos que na próxima hora haverão dez felizes contemplados em Portugal, e seis mil felizes contemplados com duzentos euros no mundo (e outros tantos infelizes, com uma rachadela na cabeça). Durante as próximas 24 horas, existirão 144 mil contemplados no mundo – isto é, os Estádios da Luz, Alvalade e Dragão cheios de gente a quem aconteceu a mesma coisinha específica cuja probabilidade era de um num milhão. Pensando melhor, a hipótese de encontrar duzentos euros na rua talvez seja de um em um bilião. Mas espero bem que a de levar com objectos em queda também ande por esses lados.

É um exercício interessante pensarmos um pouco nas probabilidades: tanto milagre desmistificado. Dá para ver que a esmagadora maioria das pessoas não pensa. Acreditam na Sorte, uma misteriosa aura verde presente em certos sítios em que terá sido usado o spray de Piço que me dizem estar à venda no Mundo Místico. Senão como podemos compreender os cafés e agências da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que colocam cartazes fazendo alarido dos bilhetes da lotaria premiados que aí venderam? Alguém que pense que a probabilidade de algo acontecer duas vezes seguidas no mesmo sítio é menor apenas pode fazer um entendimento desta publicidade: ir meter o Totoloto longe.

No livro Feiticeiros e Cientistas o autor Henri Broch refere um exemplo curioso: num qualquer ‘talk-show’ fatela em França, um homem apresentando-se como médium anunciou de forma solene, com uns ‘abracadabras’ pelo meio, que iria estoirar com as lâmpadas da sala de toda uma série de teleespectadores. Dali a momentos, começaram a chover os telefonemas, espectadores emocionados que testemunhavam o milagre e os poderes do médium. Henri Brosch demontra então através de simples matemática que, tendo em conta o tempo de vida de uma lâmpada e a audiência média do programa (em França), várias centenas de pessoas terão sido contempladas com esse milagre. E entre centenas de espectadores de telelixo há sempre meia-dúzia disposta a telefonar (ou a enviar um SMS para o rodapé) e a dar o seu testemunho emocionado.

Vejam-se os milagres das aparições de Cristo em manchas de humidade na parede. Quantos milhões de manchas de humidade existem nessas paredes pelo mundo fora? Durante a última semana, vi em diversas manchas de humidade o gato Sylvester, a mama da Janet Jackson e o Liedson a representar Hamlet (com o Beto Acosta no papel do fantasma). Mas basta que alguém com a inclinação certa imagine a Virgem Maria e está o caldo entornado! Os crentes acorrem ao local, e esperando ver uma aparição, vêm-na realmente, quando a Gestalt suprime a impressão inicial dos poucos desconfiados, secretamente com a impressão de que a mancha tinha bigode.

Curiosamente existe um local onde o entendimento das probabilidades é lúcido: é senso comum nos casinos esperar pelas máquinas que não dão prémios há mais tempo. Mas é precisamente nos casinos que as regras das probabilidades não se aplicam, devido à acção de misteriosas forças. Andamos todos trocados.

Procrastinar

Num verdadeiro exercício de ‘metaprocrastinação’, aqui fica um artigo que escrevi há quase um ano, o penúltimo da história do Cafeína. Definitivamente, o novo ano é tal como o anterior e até as minhas desculpas de 2010 são idênticas às de 2009:

Procrastinar: Deixar para depois o que podia fazer agora. Deixar para amanhã o que podia fazer hoje. Ou já agora para a próxima semana. Ou para quando for oportuno. Ou seja, protelar, coçar os tomates, coçar o escroto, coçar a micose.

A Procrastinação é tramada, não admira que a Preguiça seja um pecado mortal. Arranja sempre uma desculpa:

Vou só acabar de ver isto que comecei ainda agora a ver na televisão. Vou buscar um iogurte ao frigorífico. Vou só espreitar o mail. E já que estou online, o meu blog. E os meus feeds. E se a mulher da minha vida não estará entre os recommended friends do Facebook.

Pronto. Vou trabalhar. É cuspir qualquer coisa para o Twitter e estarei pronto.

Trinta segundos depois:

Lá está a besta do vizinho a bater com a porta da rua e a falar alto nos corredores. A rua está pavimentada a ‘paralelo’, não tenho vidros duplos e ouvem-se muito os carros que passam. O computador também faz barulho. Vou pôr música.

Descubro que muitos dos álbuns da minha biblioteca não têm capa. Sinto uma necessidade imensa de corrigir este problema.

Duas horas depois:

Tenho que escrever isto no Twitter. Já agora deixa ir ao Facebook. E ao blog. Pois é, falo muito mas devia saber algo mais sobre o John Coltrane. Wikipedia.

Quatro horas depois:

Vou definitivamente trabalhar. Maldita procrastinação! Que, pensando bem, é a mãe de todas as invenções. O tipo que inventou a fotocopiadora perdeu várias décadas da sua vida a tentar não ter que copiar coisas à mão.

Boa frase: vou escrevê-la no meu blog. O trabalho pode ficar para depois.

… dos Simpsons, do jantar, e do Bruno Aleixo…


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