Private jokes e discursos íntimos

Existe um deus chamado Bruce. Não é um deus bondoso, nem maligno. É apenas Bruce, uma trindade: Nauman é a Luz (fluorescente). Mau é o design, o planeamento, e de certo modo a ACME das nossas vidas. E Lee, Bruce Lee, é a porrada que a vida nos dá. Existe ainda um semideus, Bud, o humor com que devemos encarar as coisas, sobretudo essa porrada que a vida nos dá.

Tal é a religião, estilo Spaghetti Monster, desenvolvida com uma amiga ao longo de muitas tardes de preguiça. Um de nós dirá “hoje Lee presidiu” e o outro dará o ombro, perguntará o que aconteceu. Bruce é um fragmento de uma linguagem íntima de que nós somos os únicos faladores. Surgiu espontaneamente, nunca nos sentámos e dissemos “vamos inventar uma religião parva”. São apenas metáforas que surgiram naturalmente no nosso discurso, evidências de entendimento e intimidade, tais como são as referências a Seinfeld ou a Smiths (“foi um plano à George”; “ainda levo com o double-decker”). Nunca teriam feito sentido se não conhecessemos e admirássemos Nauman e Mau; se não tivessemos crescido com os filmes de Lee, e com os de Bud e Terence Hill.

A linguagem da intimidade é construída. Pelas experiências e conversas comuns; e sobretudo pelos Momentos. Não é criada, não é partilhável, não é passível de ter qualquer significado quando citada. Com M. falo de Bruce Lee, com A. falo de pêras; referências diferentes para conversar sobre as mesmas coisas. Quer as private jokes, quer os discursos íntimos, são exactamente isso: privados e íntimos.