Um estádio cheio de improbabilidades

Mais reciclagem, desta feita de um artigo que escrevi em Fevereiro de 2004 acerca do modo como as probabilidades nos confundem… Duvido que hoje, com a forte adopção das lâmpadas CFL, haja muitos ‘médiuns’ a fazer previsões acerca de lâmpadas fundidas em directo na televisão:

Pensem em coisas extremamente improváveis de acontecer. Digamos, algo com uma probabilidade de um em um milhão de acontecer na próxima hora. Como encontrar uma nota de duzentos euros na rua, ou de levar com um vaso na cabeça. Parecem hipóteses reduzidas, mas dizem-nos que na próxima hora haverão dez felizes contemplados em Portugal, e seis mil felizes contemplados com duzentos euros no mundo (e outros tantos infelizes, com uma rachadela na cabeça). Durante as próximas 24 horas, existirão 144 mil contemplados no mundo – isto é, os Estádios da Luz, Alvalade e Dragão cheios de gente a quem aconteceu a mesma coisinha específica cuja probabilidade era de um num milhão. Pensando melhor, a hipótese de encontrar duzentos euros na rua talvez seja de um em um bilião. Mas espero bem que a de levar com objectos em queda também ande por esses lados.

É um exercício interessante pensarmos um pouco nas probabilidades: tanto milagre desmistificado. Dá para ver que a esmagadora maioria das pessoas não pensa. Acreditam na Sorte, uma misteriosa aura verde presente em certos sítios em que terá sido usado o spray de Piço que me dizem estar à venda no Mundo Místico. Senão como podemos compreender os cafés e agências da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que colocam cartazes fazendo alarido dos bilhetes da lotaria premiados que aí venderam? Alguém que pense que a probabilidade de algo acontecer duas vezes seguidas no mesmo sítio é menor apenas pode fazer um entendimento desta publicidade: ir meter o Totoloto longe.

No livro Feiticeiros e Cientistas o autor Henri Broch refere um exemplo curioso: num qualquer ‘talk-show’ fatela em França, um homem apresentando-se como médium anunciou de forma solene, com uns ‘abracadabras’ pelo meio, que iria estoirar com as lâmpadas da sala de toda uma série de teleespectadores. Dali a momentos, começaram a chover os telefonemas, espectadores emocionados que testemunhavam o milagre e os poderes do médium. Henri Brosch demontra então através de simples matemática que, tendo em conta o tempo de vida de uma lâmpada e a audiência média do programa (em França), várias centenas de pessoas terão sido contempladas com esse milagre. E entre centenas de espectadores de telelixo há sempre meia-dúzia disposta a telefonar (ou a enviar um SMS para o rodapé) e a dar o seu testemunho emocionado.

Vejam-se os milagres das aparições de Cristo em manchas de humidade na parede. Quantos milhões de manchas de humidade existem nessas paredes pelo mundo fora? Durante a última semana, vi em diversas manchas de humidade o gato Sylvester, a mama da Janet Jackson e o Liedson a representar Hamlet (com o Beto Acosta no papel do fantasma). Mas basta que alguém com a inclinação certa imagine a Virgem Maria e está o caldo entornado! Os crentes acorrem ao local, e esperando ver uma aparição, vêm-na realmente, quando a Gestalt suprime a impressão inicial dos poucos desconfiados, secretamente com a impressão de que a mancha tinha bigode.

Curiosamente existe um local onde o entendimento das probabilidades é lúcido: é senso comum nos casinos esperar pelas máquinas que não dão prémios há mais tempo. Mas é precisamente nos casinos que as regras das probabilidades não se aplicam, devido à acção de misteriosas forças. Andamos todos trocados.