Lâminas
Estou prestes a escrever acerca de um sonho. Um pesadelo que tive. Sei o quanto gosto que as outras pessoas me falem dos sonhos que tiveram na noite anterior, daà o aviso. Provavelmente aquilo que se seguirá é uma estupidez sem interesse. No entanto, estando eu habituado ao género vulgar de sonhos em que a mente faz um mashup de tudo aquilo que a ocupou antes de ir dormir (infelizmente com mais inclinação para tirar reportório ao Euronews do que às meninas dos concursos nocturnos), não consigo deixar de pensar na falta de subtileza deste sonho que tive há um par de noites atrás:
Estava naquele cinema que só conheço dos meus sonhos – aquele em que temos de subir meia dúzia de degraus para comprar as pipocas, debaixo dos néons púrpura, amarelo e azul. Julgo que é um multiplex localizado num shopping, mas na realidade não conheço nenhum cinema com tal arquitectura. É curioso como nos meus sonhos existem uma série de cenários que são reutilizados: Não é a primeira nem a segunda vez que me encontro naquele cinema. Sei que um dia ficarei assustado quando (e não se) o encontrar no mundo real.
Há detalhes que me escaparam, porque nunca tive o hábito de tirar notas quando acordo. Não sei se estava só ou acompanhado, não me rec0rdo do nome do filme – que sei que sabia. Mas recordo-me do terror. Entrei na sala, essa semelhante a várias salas Lusomundo que conheço, com secções de cadeiras separadas por corrimões azul-claro, quando o filme já tinha começado. Um slasher-movie, terror gore série B. No filme, toda a gente tinha tido os braços e as mãos substituÃdos por espadas, talvez por um deus sádico. Estas não eram bem espadas medievais, nem sabres, nem floretes, nem cimitarras. Eram mais uma espécie de lâmina extremamente afiada, em forma de cunha alongada, com o comprimento de um braço. Qualquer contacto fÃsico entre pessoas resultava consequentemente em mortes horrendas: cabeças cortadas, membros decepados, troncos impecavelmente cortados ao meio com um simples abraço. Qualquer toque implicava um derramamento generoso de sangue, como naquele sketch em que os Monty Python gozam com os filmes de Sam Peckinpah.
A crueza da metáfora aterrorizou-me. Aterrorizou-nos aos dois, o eu que dormia e o eu sonhado, que assitia, numa sala cheia por um público aparentemente indiferente, a aquele gore todo. Vi-me a fazer aquilo que, apesar dos péssimos filmes que já vi, nunca fiz na vida real – abandonar a sala. Acordei.
Sendo um idiota um pouco narcisista, senti-me talvez um pouco aliviado quando me apercebi que o meu score de aguentar filmes maus até ao fim continuava intacto. E interroguei-me se teria também lugar no filme dentro do sonho, e se tendo, se seria decepador ou decepado, ou ambos. Mas algo persistiu, o terror sentido perante metáforas tão cruas, óbvias e, pior que tudo, verdadeiras.
