Passar a mão pelo pêlo

Escrevo este artigo um sábado à noite. Devia ter saído e estar neste momento a beber uns copos na fria e agorafóbica noite do Porto, mas decidi-me ficar em casa devido a um certo sentido de dever; nomeadamente, a execução de um certo trabalho de cariz informático para o qual existe uma certa urgência. No entanto dou por mim a escrever este artigo, e a decidir-me a deixar para amanhã, e se nada melhor houver para fazer, aquilo que teria que ter feito hoje. Isto porque não gosto que me passem a mão pelo pêlo.

Abomino, aliás. Se não quero saber o quão bom é o meu trabalho antes de estar concluído, como encaixar os elogios que precedem os primeiros bits? Ninguém dá nada a ninguém, e mesmo que as palavras sejam gratuitas não deixo de associar uma mão no pêlo a água no bico.

Entendo que muitos se deixam levar por uma figurativa festa no couro cabeludo. A lisonja é um bom lubrificante social, o Redex Bala da micro e pequena política. Queremos ouvir palavras simpáticas acerca de nós; em troca de uma pequena massagem na auto-estima fazemos favores, confiamos. No entanto, alguns de nós têm a pele calejada – ou um cabelo estilo palha-de-aço, que dói quando lhe fazem festas com pouco jeito. A minha auto-estima depende de mim, como indica o prefixo auto-. Depende da minha auto-crítica relativamente às minhas acções; se falamos de trabalho, relativamente à obra feita. Uma mão pelo pêlo retira-me qualquer autonomia.

Uma vez dei por mim a passar a mão pelo pêlo a uma colega que achava atraente, cheio de água no bico. Respondeu-me que eu era livre de elogiar obras concretas, mas não me permitia que generalizasse tais elogios à pessoa. Em retrospectiva, fui foleiro e tive a resposta merecida.

Quando gostamos do que fazemos, não precisamos de ouvir certas merdas.

Os comentários estão encerrados.