Da ignorância
Anda a circular por aà um vÃdeo que nos apresenta a “ignorância dos nossos estudantes universitários”. Vemos pessoas que, por total desconhecimento ou devido à pressão da súbita entrevista, são incapazes de dizer qual é a capital de Itália ou quem escreveu Os Maias. Divertimo-nos a ver este vÃdeo e damos-lhe ‘likes’ ao mesmo tempo que lamentamos a existência de pessoas tão burras. Culpamos o sistema educativo, os pais e os professores. E achamos que aqui está a prova de que temos razão: as novas gerações são incultas, estupidificadas e vão destruir o pouco que resta da nossa civilização. Porque nós sabemos que Roma é a capital de Itália, que o Eça de Queiroz escreveu Os Maias, e que o sÃmbolo (sic) quÃmico da água é H2O.
Pois bem. Se o estimado leitor reagiu com um “muito bem” ao parágrafo anterior, tenho o dever de o informar que o estimado leitor é na realidade o maior ignorante nesta história. Porque esta não é uma história da ignorância de alguns universitários que nunca jogaram muito Trivial Pursuit. Afinal, para que serve realmente saber que Roma é a capital de Itália? Sabe quais as capitais do Gabão e do Botswana? E se não sabe, é porque serão paÃses menos importantes que Itália? Quem diz?
Caro leitor, esta é uma história sobre a ignorância dos licenciados (presumivelmente em jornalismo ou comunicação social) que terão sido responsáveis pelo vÃdeo. E uma história também sobre a ignorância dos muitos licenciados, mestres e doutores que terão acolhido tal ‘reportagem’, partilhado o vÃdeo nas redes sociais com vigor e aplauso apenas porque servia de prova dos seus preconceitos. É uma história sobre a vontade de generalizar anedotas e calinadas, e sobre a vontade de manipular e ser manipulado. Independentemente do motivo ser polÃtico ou apenas dar umas risadas.
Na letra pequena abaixo do tal vÃdeo lê-se que foram entrevistados 100 alunos, e a cada um foram colocadas vinte questões. Em lado algum nos é dado um número – quantas respostas foram erradas? Dez porcento? Vinte? Ou oitenta? Apenas nos é dada “a ignorância dos universitários” e um ‘best-of’ de respostas escolhidas pelo seu potencial cómico. Constata-se que os responsáveis pelo vÃdeo não foram medir o nivel de cultura geral dos universitários (e com uma falta de rigor estatÃstico aterrador): Foram sim arranjar umas quantas calinadas para poderem montar este vÃdeo. A isto não se chama jornalismo, chama-se propaganda. E para prova da total falta de ética destes senhores veja-se o intertÃtulo “qual é a fórmula quÃmica da água?”, que numa primeira versão se lia “qual o sÃmbolo quÃmico”. Pois com total despudor seguem-se imagens de jovens a meter os pés pelas mãos a uma pergunta mal formulada, como se a pergunta certa tivesse sido colocada.
Isto não é jornalismo. É uma merda. Gostar de chafurdar nela é bem pior que a falta de cultura geral.