Caro André
Não será nem a primeira nem a segunda vez que aqui me refiro ao assunto. Será a terceira vez, o que me aborrece, porque escrevo sobre algo que para mim é tão evidente que se eu estiver tão incorrecto como transparece pelos comportamentos que observo e as opiniões que oiço mais vale que me submeta ao cativeiro de uma instituição que trate quimicamente os delírios e as visões. É que do meu ponto de vista, não só é errado aceitar trabalhar gratuitamente (excepção feita ao serviço de causas não lucrativas), como também é profundamente imoral.
Daí, André, que tenha que te confessar algo terrível, usando covardemente o meu blog para te dizer sem rodeios aquilo que, caso nos encontrássemos cara-a-cara, abordaria com cuidado para não provocar desacatos: não tenho pena de ti. Não simpatizo com a tua situação, e tenho de facto um pouco de desprezo pelas tuas acções. Porque por mais brilhantismo e dedicação que tenhas demonstrado ao teu rico ‘empregador’ durante os seis meses de trabalho não-remunerado, tu não és nenhuma vítima de exploração, não és nenhum oprimido. Pelo contrário André: és tão opressor como aquele que lucrou com o teu trabalho.
Roubaste, André. Seis meses de salário a alguém que teria o teu trabalho se este tivesse que ser pago. Deves isso a alguém que perdeu o emprego pela tua disponibilidade sacana em trabalhar gratuitamente. Deves isso aos teus colegas de curso sem emprego nem subsídio, futilmente fazendo refresh ao Carga de Trabalhos em casa dos pais, desesperando quando as palavras ‘estágio’ e ‘não-remunerado’ encerram a maioria dos anúncios promissores. André, deves esses seis meses a todos aqueles que na tua área se viram obrigados a emigrar ou estão nos call centers a tentar a explicar a alguém muito idiota que não têm maneira de saber qual o nome do restaurante que tem azulejos azuis em Águas Santas, que a Vodafone não é omnisciente. Fazem-no porque têm que pagar uma renda, porque têm filhos para cuidar, porque têm a dignidade de saber que o seu saber tem um preço.
Põe-te na pele do maldito patrão. Sim, eu também não o tenho em grande conta, sei bem que será provavelmente um seboso, um ganancioso. Imagino-o um decadente da era Maio ’68 – 25 de Abril e tão obcecado em rapar o fundo do tacho da sua virilidade que só pensa em foder alguém, nas mais diversas formas. Ou então imagino-o um dos tais rebeldes ‘rascas’, que passou do cu-ao-léu para a Manuela Ferreira Leite para o fascismo pessoal dos meritocratas sem mérito. Seja como for, esse patrão tem dois objectivos – conquistar clientes para o que quer que ele faça, e aumentar a sua margem de lucro. Para conquistar clientes, especialmente num país onde estes se cagam na qualidade das coisas, o patrão precisa de praticar preços baixos. Para aumentar o lucro, o patrão quer ter as menores despesas possíveis. Daí não ser possível censurá-lo de todo, por mais repugnante que seja a pessoa em questão, se o patrão vai ao mercado e te encontra a ti, e a todos os outros Andrés – demasiado preguiçosos para se dedicarem a projectos próprios, demasiado interesseiros para participar em causas não-lucrativas -, a oferecerem gratuitamente os seus serviços.
Mas continuas a achar que a tua situação actual, sem futuro depois de chutado sem cerimónia no final de seis submissos meses a gerar lucros, não é culpa tua. Que o único problema é que os sacanas dos patrões não te pagam. Pois bem, a EDP não diz aos teus patrões que a electricidade será gratuita. A Galp não oferece gasolina gratuita para os carros da empresa. Mas tu nem uma mísera comissão exigiste, André!
A culpa é toda tua André, tua e dos restantes Andrés, os que vieram antes e os que saltaram para o teu lugar no dia seguinte à tua saída. Sustentado pelos teus pais, jogaste sujo e deste cabo da carreira aos teus colegas de curso que realmente precisam de trabalho. Jogaste sujo e fizeste que colegas de profissão mais velhos perdessem os seus empregos, com poucas perspectivas de os recuperarem. E ainda achas tudo isto bem; que os medíocres devem ceder o lugar aos capazes, que com a tua energia, juventude e mérito o sector onde trabalhas será purificado.
Pois, o ‘mérito’. Medido por quem? Por ti, que vendeste a tua espetacularidade a zero euros mensais? Ou pelos gestores inaptos ou maliciosos que desmotivaram trabalhadores capazes, que lhes colocaram objectivos impossíveis ou em áreas fora das suas capacidades, empurrando-os para o demérito? Achas que não te poderá acontecer a ti, ser levado numa purga? É que se estás sem trabalho depois de seis meses não remunerados, já te aconteceu. O teu ‘mérito’ foi teres saído barato.
Diz-me uma coisa, André: trabalharias a troco de nada noutro país? Trabalharias a troco de nada na caixa de um supermercado, a atender telefonemas de idiotas, a apanhar fruta num cu-de-judas qualquer desde manhãzinha até ao sol se pôr? A fazer tarefas que consideras abaixo das tuas capacidades e qualificações?
Ai não?
I actually found this more etneratining than James Joyce.