Dia dos Namorados

Imagem retirada daqui.

Há muita gente que hoje vem dizer que o Dia de S. Valentim não existe. Afirmam que é um dia como outro qualquer, uma mera Terça-feira. Reclamam que este ‘dia dos namorados’ é apenas uma mera invenção dos mercados capitalistas com a finalidade de aumentar as vendas de cartões, flores, chocolates, pacotes de compotas e outra doçaria, relógios, gadgets em cinza, vermelho ou rosa; perfumes, boxers, cuecas e soutiens, pacotes de ‘experiências’ como massagens, fins de semana no Bussaco ou saltos de ravinas; dizem que é uma conspiração que visa beneficiar a hotelaria e a restauração, assim como as agências de publicidade e todos os que trabalham nas suas campanhas – equipas de produção vídeo, designers, ilustradores & etc.

Mesmo que neguemos a realidade tangível das coisas que enumerei continua a ser difícil ignorar a efeméride. Há uma série de actividades que estão simplesmente vedadas a quem tenta passar a data de forma indiferente. Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012 seria um bom dia para ir com uma amiga (e a data obriga-me a frisar isso – que é apenas uma amiga) experimentar o sushi de um novo restaurante na Boavista, mas o Dia de S. Valentim é um péssimo dia: já não são aceites reservas, mas mesmo que fosse possível arranjar uma mesa o ambiente seria o de um romantismo imposto – e no nosso caso indesejado – pela luz de vela e por coraçõzinhos vermelhos na decoração, e a sonoridade opressora dos cochichos cautelosos das outras mesas embargaria a nossa animação e uma ou outra gargalhada mais sonora. O S. Valentim é tão real como um Sábado, um Carnaval ou um dia de ponte em Junho. Obriga-nos a fazer planos, sejam concordantes com a tradição, sejam para fugir das festividades associadas.

Se para um solteiro o Dia de S. Valentim é um dia opressor onde nos sentimos cidadãos de segunda nas nossas interacções com os negócios dos sectores da hotelaria, da restauração e do entretenimento, é necessário reconhecer que o dia é democrático nas ansiedades que provoca. Para quem está numa relação afectiva, o dia pode obrigar a cuidados especiais relativamente às questões das prendas, refeições, e outras actividades. É paradoxal e inoportuno que o calendário dite a obrigação de ter um dia especial, e mesmo para quem está quase certo de estar numa relação pautada pelo pragmatismo (e/ou pela negação da lógica capitalista liberal) a data não deixa de nos fazer explorar essa réstia de incerteza relativamente aos verdadeiros desejos da parceira. Este pânico apenas poupa o Casalinho – essa criatura mítica resultante da união de dois corpos e da intersecção de duas cabeças, e que nem os outros casalinhos estimam.

Quanto a nós, os solteiros, àparte as já referidas dificuldades em encontrar uma atmosfera acolhedora nos restaurantes, a tradição traz-nos também um agudizar das ansiedades relativas aos afectos emergentes que possamos sentir. Basta vermos um postal de S. Valentim bem foleiro, para nos interrogarmos se não o poderíamos enviar à pessoa querida, como gesto de uma ironia confortável. Mas o considerar dessa ideia revela-nos que esse seria na realidade um gesto honesto mas desconfortável (e o postal continuaria foleiro). O Dia de S. Valentim também é um dia passado na galeria de espelhos do dilema.

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