Terra queimada

Tropas preparam a destruição de uma casa com dinamite, durante a Guerra dos Boers.

Numa demonstração sucinta que o 25 de Abril é um work in progress, a Câmara Municipal do Porto voltou a despejar a Escola da Fontinha ao amanhecer do dia 26, depois da entusiástica reocupação levada a cabo no dia anterior. Desta vez tentam garantir que a Escola ficará imprópria para reocupação, destruindo a canalização, as casas de banho, e a instalaçao eléctrica. Isto só demonstra que o executivo de Rui Rio é como aqueles miúdos que preferem atirar com os seus carrinhos (de WTCC?) para o esgoto a deixar que mais alguém brinque com eles.

Mas brincadeiras àparte, aquilo a que se assiste é à destruição de um espaço público às mãos dos eleitos para defender o interesse público. Pode-se argumentar a suposta ilegalidade da ocupação por parte de ‘activistas’ e moradores da zona, mas não estava de todo em causa a ocupação de uma propriedade privada. O que estava sim em causa era a dinamização de um espaço público devoluto. A ‘Es.col.a’ (não sou grande fã dos pontinhos no nome) era uma verdadeira Escola. Vejam-se as actividades que estariam previstas para hoje, de acordo com o seu site:

– 14:00 – Laboratório de Fotografia;
– 17:00 – Apoio Educativo Geral (explicações);
– 18:30 – Aulas de Capoeira;
– 18:30 – Hacklaviva (clube de Informática);
– 18:30 – Oficina de música.

Além disto a Escola tinha uma cantina e várias instalações (ex. sala de computadores) para uso geral da comunidade. Como é que a Câmara pode argumentar (e terá que o fazer forçosamente, sob pena de a destruição de hoje configurar uma actividade criminal) que ao emparedar e destruir uma verdadeira Escola e Centro de Comunidade está a defender o interesse público? Na Escola da Fontinha morreram uma série de chavões do discurso oficial – o empreendedorismo social, o dar à comunidade, a iniciativa, o dinamismo, e a generalização venenosa em que os mais jovens e os mais pobres são uns parasitas que vivem de subsídios e nada fazem. Percebe-se que empreendedorismo e iniciativa são exclusivos de um certo tipo de gente, que não partilha.

Penso que existirão algumas culpas no lado de cá da barricada, na forma como o discurso sobre a Escola da Fontinha foi politizado (não venham dizer que a ocupação era ‘apolítica’, que isso mesmo é política), na forma como se construiu toda uma publicidade em torno de uma ocupação ‘especial’, quando porventura dever-se-ia ter realçado a decência elementar de um projecto como a Escola (que tal cartazes com calendários em vez de slogans?) uma vez que, mais que demonstrar uma qualquer ‘diferença’, um projecto destes deveria ambicionar ser a normalidade das comunidades locais.

Todavia, por mais importante que seja ter em atenção as percepções das pessoas não familiarizadas com o projecto de ocupação da Escola da Fontinha e desmontar a forma redutora como alguma comunicação social o apresenta (‘okupas’, com aquele K nojentinho), o essencial hoje é o erro e a indecência básica do executivo de Rui Rio: no Porto, as comunidades não têm o direito de se organizar e de construir algo, o público não tem direito a utilizar positivamente o espaço público. Reenvindicando para si e para as Caridades escolhidas a dedo o exclusivo da ‘intervenção social’, a Câmara Municipal do Porto faz terra queimada daquilo que possa pôr em causa o dogma liberal. Faria um Rui Rio primeiro-ministro como Bashar Al-Assad e Muammar Khadafi, bombardeando as ‘suas’ cidades quando estas não fossem do seu agrado? Que a carreira política deste senhor acabe depressa.

  1. Fátima São Simão

    Bravo, Eduardo! 🙂
    E sim, concordo com a Marta, traz essas propostas à discussão.
    São importantes e muito pertinentes. Muito mais do que os pontinhos, os conceitos e demais adereços retóricos dos quais já estamos todos tão fartinhos…
    O que está em causa é muito grave. Não pode ficar pela mera argumentação cibernética, perdida entre 0 e 1. Tem que vir para onde pertence: para a praça pública! Porque, afinal, é disso que estamos a tratar, do Direito Público (cada vez mais confundido com o privado…). Andam a tentar rasgar o Contrato Social nas nossas barbas. Não, não deixamos.
    Anda pra Fontinha, pá! Beijinho :*

  2. Marta Lopes Tormenta

    Olá! Só para dizer que penso que o termo “apolítico” é usado pelo Es.col.a no sentido de “sem partidos políticos”, e que já se sabe que fazer política é algo muito mais abrangente que aquela que se faz dentro de partidos. Por outro lado, acho que as propostas que apresentas aqui deveriam ser apresentadas numa das assembleias do Es.col.a . Porque não? Aparece! É importante a opinião de todos e de quem vê de fora! E os pontinhos existem porque o Es.col.a não é uma escola comum, é um Espaço Coletivo Autogestionado, e acho que é muito importante fazer a diferença! Antes fosse uma escola comum! 😉 Aparece, Eduardo! Vem fazer comentários não preguiçosos! 😉