Hamburgers gourmet

Há uns tempos fui assistir a umas palestras sobre umas coisitas de informática e programação. Tinha chegado quase no final da segunda sessão da manhã, depois de ter ignorado o despertador que tocou a tempo de eu ir assistir à primeira. Andei pelos corredores vazios do local do evento até encontrar uma mesa com alguns crachás em branco e uma esferográfica. Preenchi o meu nome, o meu handle do Twitter, e coloquei o crachá ao peito. Entreabri a porta do auditório e reparei que para entrar teria que passar à frente do orador, o que estaria fora de questão. Decidi investigar umas escadas e encontrei um acesso às traseiras do auditório: perfeito. Caminhando ninja, sentei-me na última fila – num assento que rangia bastante. Senti-me como sempre neste tipo de eventos, como quem chega atrasado no 1º dia numa nova escola. Procurei ver conhecidos na assistência, sem sucesso. O auditório estava cheio. Entre os presentes, apenas meia dúzia eram do sexo feminino – uma proporção ainda pior que o esperado.

Coffeebreak. Hora de andar por ali perdido, a beber do Nespresso, esperando encontrar alguém conhecido que não tenha visto na sala. Hora de deambular entre grupos, esperando ouvir algo que me permita entrar numa conversa. Verifiquei a legibilidade do meu crachá, não muito boa. Hora de esperar que alguém me reconhecesse pelo nome, pelo handle do Twitter, que tivesse algo a dizer-me.

Alguém conhecido! Salvo! Salvo! Afinal não morri, não era um fantasma deambulando imperceptível entre os vivos. Existia. Reconhecem-me, logo existo.

Seguiu-se conversa de baixa intensidade sobre o que é que andava a fazer, o que é que a outra pessoa andava a fazer. O que seria feito de alguém que essa pessoa não via há algum tempo e que eu, pura felicidade, teria encontrado no dia anterior. O tempo. Planos sem envolvimento necessário: “Tens de aparecer  um dia destes.” Etecetera.

Uma das poucas mulheres presentes aproximou-se. O alguém conhecido apresentou-me:

– “Vou-vos apresentar. Este é o Eduardo.”

E vice-versa. Duplamente obrigado! Terrível a apresentar-me, a dirigir-me a estranhos, preciso destas apresentações mediadas como de pão para a boca. Foi especialmente simpático da parte da pessoa conhecida o ter-me apresentado de uma forma minimalista – nada de “este é o Eduardo. Ele é consultor de procrastinação.” Triplamente agradecido! Pôde ocorrer assim um diálogo nestes moldes entre a mulher e eu, após o alguém conhecido se ter retirado, para praticar outras boas acções:

– “Então o que te traz aqui?”

– “Sou consultor de procrastinação.”

Falámos sobre o que eu andava a fazer, o que ela andava a fazer. Descobrimos alguns conhecimentos comuns. Perguntou-me o que seria feito de alguém que não via há algum tempo, e que eu, pura felicidade, até encontrara no dia anterior. O tempo. Etecetera. Às tantas senti-me carente, a colar-me: agora que conhecia alguém ali não queria voltar à deambulação invisível pelos corredores onde ainda se bebia café. Esperava que também esta pessoa me apresentasse a alguém, que se constituísse um ciclo, uma cadeia de conhecimentos. Conhecem-me, logo existo. Hora de uma nova palestra. Entrámos juntos na sala, sentámo-nos em lugares afastados. Não voltámos a falar.

Um apresentador entusiasta mostrou slides sobre empreendedorismo e iniciativa. Enumerou as Seis (ou seriam Oito, ou Quarenta e Duas?) Características do Bom Empreendedor. Eu fui colocando vistos mentais nos bullet points apresentados, com excepção das cruzes que coloquei em “Hardworking” e “Networker”  – eu prefiro trabalhar soft e não domino o networking.

Almoço. Fui até um shopping junto do local das palestras, subi ao piso da alimentação. Aqueles hamburgers ditos ‘gourmet’ já foram melhores, mas todas as outras lojas tinham filas grandes. O Menu Benedict inclui um acompanhamento de espinafres, dispensando-me de pedir uma salada para me iludir quanto à saúde da refeição. Esperei um pouco na fila, até chegar ao momento de pegar no tabuleiro. Aí reparei que se aproximava um grupo, quatro tipos que também estavam nas palestras, todos aparentando mais ou menos a minha idade. Nenhum tinha o crachá, mas um deles até era o gajo que tinha começado a seguir-me no Twitter vinte minutos antes, reconheci-o pela foto de perfil da notificação que recebi no mail. Olhei para estas pessoas, tentei cruzar o olhar, mas estavam absortos em conversa entre si. Era como se não estivesse lá, não existisse. Pedi o meu Menu Benedict, Médio, um Pouco de Arroz e um Pouco de Batata Frita, Coca-Cola sem Gelo, Aceita Multibanco? Palavras vincadas, com Boa Dicção, esperançosas de atrair atenção, infrutíferas. Ao receber o talão, com o tabuleiro nas mãos, apercebi-me com uma pequena dose de horror que a única mesa disponível no meu campo de visão, e por sinal ali mesmo ao lado, estava ocupada com as mochilas do grupo. Teria que ser eu a efectuar a abordagem. Coragem! Frequentámos as mesmas palestras, iríamos ingerir almoços semelhantes. Tinha todo o direito de os interromper:

– “Desculpem, posso sentar-me junto de vocês?”

Ao que um deles respondeu com qualquer coisa afirmativa do género “Ya, força” mas com a sua própria linguagem (“Ya, força” é aquilo que eu diria).

Sentei-me. Dali a alguns segundos eu estaria acompanhado, e que faria então? Será que iriam falar comigo? Perguntar-me sobre um tweet qualquer que tinha escrito? Ou tomaria eu a iniciativa, estenderia a mão, perguntar-lhes-ia os nomes, o que fazem, quais as suas paixões? Ia comendo algumas batatas fritas enquanto ponderava isto. Quando os meus companheiros de refeição se sentassem, iria praticar a coisa de dominar o Networking: iria estender o braço, apertar firme a mão de cada um deles, dizer o meu nome e ouvir o deles, aliando as maneiras impecáveis do Bom Empreendedor ao tratamento por ‘tu’, transmitindo um puro espírito democrático e egualitário. Vieramos de uma sessão sobre empreendedorismo, eles compreenderiam. Talvez algum deles tomasse a iniciativa primeiro, e eu exporia os meus projectos, descreveria as minhas aspirações, as minhas paixões. Talvez eu fosse a peça que lhes faltava no puzzle, talvez o meu know-how lhes viesse a proporcionar o realizar das suas aspirações, e vice-versa.

Faríamos a coisa do cartão de visita e do LinkedIn. A coisa Profissional.

Pousaram os tabuleiros e sentaram-se a conversar animadamente, ignorando-me.

Entre garfadas e goles na Coca-cola, procuraria abertas para a minha apresentação. Procurei manter o nível de coragem para o fazer, não cedendo à timidez. Aquilo que tinha que fazer estava decidido: não me levantaria da mesa sem saber algumas coisas acerca destas pessoas. Escutaria a conversa, interessadamente. Tinha pedido para ali estar e autorizaram-me: não lhes reconheceria direito à privacidade durante o repasto.

A conversa era irremediavalmente nerd, nerd de baixa intensidade, fácil de acompanhar, banal e desinteressante.  Trocaram alguns comentários sobre as raparigas atraentes que estavam na assistência das palestras. Nerds da merda, não admira que estes eventos sejam sempre umas festas da salsicha. Os gajos não sabem nada sobre mim, não receavam que eu conhecesse alguma das pessoas a quem se referiam? Que alguma delas fosse minha namorada, apenas ausente agora por ter almoço marcado em casa dos pais? Minha irmã, minha prima, a colega da faculdade por quem eu tinha uma paixoneta? A minha própria mãe foi programadora em COBOL e SQL. Que raio de cultura machista é que se desenvolveu entretanto?

Pensei, provavelmente estes gajos até têm namoradas, esposas. Pensei em ver se algum deles teria aliança, perdi-me a reflectir qual das opções me faria sentir melhor com a minha condição de solteiro.

O almoço foi decorrendo. Um dos tipos gabava-se da resistência à queda em altura do seu telemóvel. Uma aberta! Pousei os talheres, virei-me para ele. Começaria com uma boa piada para quebrar o gelo, seguir-se-ia um impecável Networking:

– “Mas nos telemóveis o dano é inversamente proporcional à altura da queda.”

Ninguém se riu. Continuaram a conversar, como se houvesse um embaraço a poupar-me. O tema não mudava, pelo que voltei à carga pouco depois:

– “Pois, mas pela minha experiência quanto menor a altura de que cai mais provável é que não volte a trabalhar.”

Ha. Ha.

Idiota que gosta de contrariar: visto. Idiota sarcástico: visto. Idiota convencido que achou que não tinham percebido a piada à primeira: visto. Networker: cruz.

O tipo que estava a falar murmurou qualquer coisa do género “o meu telemóvel é resistente” e mudou o assunto. Fiquei calado a ouvir, algum tempo depois voltei a tentar entrar na conversa com outro tipo de abordagem, com perguntas simples e utilitárias. Não tinha percebido o nome da empresa de que estavam a falar, não tinha percebido qual era a loja, etc. E volta e meia interrogava-me: quem é que tece considerações sobre terceiros junto de desconhecidos? Decidi que não queria conhecer estas pessoas. Demonstraram não ter qualquer interesse.

Ocorreu uma pausa na conversa.

– “Então, como é que vocês se chamam?”

Gajo, Gajo, Gajo que me tinha seguido no Twitter, Gajo. Missão cumprida, ufa! Provavelmente nunca mais voltarei a falar com estas pessoas, nunca mais as voltarei a encontrar. Duvido sequer que as reconheça. Mas missão cumprida: passara o primeiro nível do jogo de networking que eu próprio concebera, mesmo tendo perdido a vontade de continuar. Achievement unlocked. Levantei-me, não ficaria para o café, que tomei a um balcão a poucos metros de distância. Chegaria cedo à palestra da tarde, à conquista de uma tomada onde ligar o portátil. Iria embora no final, evitando o coffeebreak. Que se lixe o networking.

Durante a palestra, dois amigos entraram na sala pela entrada inferior, atravessando à frente do orador. Acenei efusivamente, sentaram-se a meu lado. A minha existência durante o coffebreak ficava assim assegurada.

Decidi ficar mais um pouco.

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