Segundas escolhas

Já não me recordo se foi na altura do Campeonato da Europa de Futebol de 1988 (aquele do volley incrível do Marco van Basten na final entre a Holanda e a União Soviética) ou se já no Mundial de Itália ’90 (aquele do jogo para Spectrum e do Maradona a chorar depois da derrota na final contra a Alemanha, sentenciada por um penalty marcado pelo Lothar Matthaus). Não me lembro, portanto, se andava ainda na escola primária ou se já estava no ciclo preparatório, naquele que seria o último Verão antes da separação dos meus pais. Numa daquelas agradáveis tardes em que o final do ano escolar se aproximava, estava no recreio participando naquela tradição bienal da troca de cromos da Panini afectos aos grandes eventos futebolísticos internacionais. Alguém – talvez até tenha sido eu – se interrogou sobre quem seria aquele jogador que lhe tinha saído na carteira. O cromo seria parecido com este (não consegui encontrar uma imagem de uma das colecções em causa):

Stanley Menzo, guarda-redes do Ajax de Amesterdão entre 1984 e 2000. Eterno suplente na selecção holandesa.

Hoje em dia, graças à Internet, sei que Stanley Purl Menzo nasceu a 15 de Outubro de 1963 no Suriname – o que faz dele um guarda-redes de 24 ou 26 anos na altura do acontecimento -, e que salvo meia época no Haarlem tinha feito toda a carreira no Ajax de Amesterdão. Em 1988 e 1990 não tinha como saber essas coisas. Era necessário recorrer à mente colectiva dos colegas:

– “Esse é o Menzo, o eterno suplente.”

A resposta atingiu-me como uma revelação sobre a crueldade que a vida adulta pode reservar. Stanley Menzo era o guarda-redes suplente da grande selecção holandesa em que a titularidade indiscutível pertencia ao Hans van Breukelen. De facto, Menzo não teria grande hipótese de jogar, a menos que guarda-redes do PSV Eindhoven se lesionasse ou o Luiz Felipe Scolari retrocedesse década e meia para orientar a Holanda. Será no entanto um exagero descrever um jogador a meio da sua carreira como ‘eterno’ qualquer coisa. Menzo não era um amargo guarda-redes de 38 anos passados no banco e com mais equipas que jogos no currículo, nem um protagonista trágico de um filme do Wim Wenders. Hoje entendo que o meu colega da escola não estava dotado de uma visão sóbria e adulta sobre a vida. Provavelmente papagueou uma expressão produzida pelo jornalismo desportivo da época:

O eterno suplente.

Contudo, essa expressão ficou-me. Passando a adolescência como suplente dos jogos escolares, senti-me amaldiçoado por essas palavras. Se nos melhores momentos esperava para substituir um lateral direito ou um ponta-de-lança (assim eram os improváveis perfis tácticos do futebol juvenil), nos piores via-me relegado para uma atroz (mas justa) segunda escolha na defesa da baliza: sempre que chamado a jogar era daqueles guarda-redes que, de forma cobarde e imbecil, viravam as costas aos remates. Como resultado disso, evoluí bastante no purgatório do voleibol misto durante as aulas de educação física, enquanto esperava uma oportunidade de entrar no jogo de futebol que decorria ali ao lado. Escolhendo sempre o copo meio vazio, é evidente que não me quis aperceber que até era bastante bom jogador de voleibol.

As segundas escolhas são inevitáveis no desporto, na análise de currículos e de especificações; onde haja uma métrica. Poucas pessoas compreendem que fora estes casos, será inaceitável que se atribuam números às escolhas.

Os comentários estão encerrados.