Eduardos

Há uns tempos recebi mensagens felicitando-me pelo destaque dado no Ípsilon a um dos ‘meus’ documentários. Não sabia a que se referiam, de certeza que seria um equívoco, já há anos que não fazia nada que pudesse ser classificado como documentário. Perguntaram-me se eu não tinha feito um documentário sobre o rock alternativo em Portugal. Mais uma vez bloqueei: bem, trabalhei num documentário do Miguel Vasconcelos sobre um curso de formadores musicais da Casa da Música, e havia partes com entrevistas a tipos em bandas de rock & etc. Mas o meu papel nesse trabalho tinha sido o grafismo e a etalonagem – muitos furos abaixo do que classificaria como ‘fazer’ o que quer que seja.

Pedi que me explicassem melhor. E assim soube que o artigo diz que o Eduardo Morais realizou um documentário sobre o rock alternativo em Portugal chamado Meio Metro de Pedra:

Um Eduardo Morais.

Raios. Quando acabei o curso de cinema decidi que deixaria de assinar com três nomes. Afinal soava-me pomposo, burguês e a nome de pivot de Telejornal. Também não queria contudo usar o primeiro e último nome, por me soar estranho e a futuro número 6 do Benfica (aqui estão alguns candidatos possíveis). Optei portanto por assinar com o primeiro e o penúltimo: um nome que me soa bem e não me parece nem demasiado popular nem burguês. Um nome sério de classe média.

Que fazer? Evidentemente, nada. Isto gerará alguns equívocos, como quando algum tempo depois da notícia incial me ligaram a convidar para apresentar o Meio Metro de Pedra e pôr música num bar uma sexta à noite. Expliquei que não era eu, ao que se seguiram mil desculpas e um convite para apresentar o Damião numa videoteca municipal uma segunda-feira à tarde. Evidentemente, arranjei forma de passar tal espécie de prémio de consolação – posso realizar filmes diferentes mas acho que também tenho bom gosto para passar música!

Equívoco por equívoco, ao menos não me chamo Aníbal Silva.

Foi apesar de tudo estranho acordar hoje, pôr-me a fazer zapping, e ao passar pela SIC Radical a box me indicar “um filme de Eduardo Morais” com o qual eu nada tive a ver. É um pouco como ir na rua e ouvir alguém a chamar “Ó Eduardo!”, olhar à minha volta e ver que quem estava a ser chamado era um miúdo de 5 anos. Ou um idoso. Ou o mecânico ou o carteiro. Calculo que os Joões, os Zés e os Manéis (e mesmo os Zés Manéis) já estejam mais insensíveis a este fenómeno (que será, contudo, uma história para a vida para os Inocêncios e os Olegários).

Gostei do Meio Metro de Pedra. Qualquer documentário com uma edição conivente com um dos entrevistados quando este diz algo como “Que se fodam os Deolinda! São a maior bosta que aí anda!” contará com toda a minha simpatia. Foi no entanto estranho sentir aquela voz interior crítica a tudo o que faz o Eduardo Morais: aquele plano em que um dos entrevistados tem a testa cortada; o preto e branco que me parece mais um desaturate que um verdadeiro preto e branco; porque é que estes tipos se vestem todos como cidadãos da Brooklyn global; & etc. Como se eu tivesse de facto alguma responsabilidade, pudesse ligar o meu computador, abrir o Premiere e mudar estas coisas. Não costumo ser tão crítico com as coisas que escolho ver na TV, mas aqui senti-me como se eu tivesse dupla personalidade e andasse a entrevistar roqueiros enquanto julgo que estou a dormir. Ou serei eu aqui essa segunda personalidade?

Seja como for. Gostei do documentário. Nunca fui muito dado ao rock, mas senti-me de volta ao liceu, a ouvir falar das mesmas bandas de que falavam alguns dos meus colegas mais ‘fixes’. E pelos vistos até dá para ver todo no YouTube. Está visto que ‘Eduardo Morais’ é uma boa marca.