Sobre a abertura de garrafas de cerveja com um isqueiro

Ambiciono vir a tornar-me no género de pessoa que não necessita de nada nos bolsos. O facto de que carrego uma mochila no meu dia-a-dia demonstra o quão longe estou deste meu objectivo. Contudo, sempre achei que fumar me afastaria ainda mais, pelo que apesar de ter experimentado o ocasional tabaco festivo, nunca comprei um maço de cigarros. Conheço-me: um maço qualquer e um isqueiro de plástico não me satisfariam. Adoptaria o tabaco de enrolar e quereria ter toda a parafernália associada – uma boa máquina de enrolar, uma bonita mas discreta cigarreira, um bom isqueiro Zippo, um cinzeiro portátil. Mais tralha para os meus bolsos e para a minha mochila, onde já não me contento com um caderno e uma esferográfica, mas carrego diferentes cadernos para diferentes fins, esferográficas de várias cores, uma lapiseira e respectivas minas, etiquetas coloridas para me lembrar das páginas dos cadernos que clamam por uma acção.

Nas raras ocasiões em que tive isqueiros nos meus bolsos, trataram-se quase sempre de isqueiros perdidos ou esquecidos. Apesar dos meus amigos me aconselharem a ter sempre um isqueiro comigo de forma a poder assentir a solicitações femininas por lume, rapidamente devolvi, ofereci ou perdi tais isqueiros. Nunca desenvolvi assim grande perícia no manuseamento de tão elementar objecto, tendo falhado, na transição para a idade adulta, na aprendizagem da técnica de abertura de cápsulas de garrafas de cervejas.

Autor desconhecido.

Fui conhecendo desta forma múltiplas repetições da mesma milimétrica humilhação: Numa festa em casa de amigos, perguntando pelo abre-cápsulas para que pudesse abrir a mini Cristal que fora buscar ao frigorífico, alguém me estende o seu isqueiro Bic. Confesso a custo a minha falta de jeito, e que jamais fora capaz de abrir uma garrafa com um isqueiro. Asseguram-me, com uma certa dose de condescendência, que tal é um gesto simples. Tento então uma, tento duas vezes, e falho. A cápsula mantém-se imóvel enquanto o isqueiro me foge entre os dedos e apenas consigo estriar o plástico com a carica. Por vezes aleijo-me. Dizem-me que ainda lhes estrago o isqueiro, pedem-me a garrafa, abrem-ma com um gesto curto e eficiente. Durante o resto da noite, alguém me abre as cervejas enquanto me sinto alvo de pena, inferior.

Passei a seguir atentamente o posicionamento do abre-cápsulas nas festas a que ia, a sentir algum alívio perante frigoríficos atestados de minis SuperBock de abertura fácil ou de litrosas com tampa de enroscar. Considerei mesmo comprar um abre-cápsulas que andasse sempre comigo, sob disfarce de um porta-chaves conveniente. Apenas não o fiz por um imperativo moral, considerando que os meus bolsos, que ambiciono vazios, não deveriam carregar as minhas dificuldades com a abertura de garrafas de bebidas alcoólicas. Certas ocasiões, presumindo-me num ambiente acolhedor e simpático onde estaria rodeado de amigos, voltava a tentar a abertura de uma garrafa com um isqueiro. Falhei quase sempre; raras vezes consegui por fim soltar a cápsula através de força bruta e destruição. Gozei comigo próprio e proporcionei risos, risos comigo mas suspeitando que também de mim: um julgamento devido a um homem adulto que demonstra inépcia nas coisas simples. O homo erectus de uns paus fez o fogo, e aqui estava um sapiens sapiens que de um isqueiro não conseguia fazer uma alavanca.

Foi preciso pois chegar a dias do meu trigésimo quinto aniversário para que alguém me explicasse sucintamente que eu, sendo dextro, deveria segurar firme a garrafa com a mão direita e não com a esquerda. Consegui abrir a cápsula de uma Sagres média com um isqueiro Bic à primeira tentativa, e outras garrafas se seguiram.

Os comentários estão encerrados.