Da Incompletude
Não sou uma pessoa completa. Ou sequer, um homem completo. Durante a maior parte da minha existência, desde que me lembro, sinto-me como se padecesse de uma estranha condição que faz de mim 90% opaco. Se do outro lado a luz for suficientemente forte, será possível ver através de mim. Se assim for desejado por quem me vê, torno-me numa percepção fantasma – desapareço, vá.
Existem outras metáforas que poderia utilizar para descrever este sentimento, mas esta será a melhor. Para lá deste persistente estado de alma, os diversos indicadores indicam incompletude aos mais variados níveis: fraco capital económico, apesar de nada dever; fraco capital político; fraco capital erótico; talvez algum capital cultural, mas por esse ninguém se interessa realmente. Falta-me dinheiro, falta-me poder, falta-me companhia (de diversos géneros), e portanto tenho tempo de sobra para ler. Onde quero chegar é: incompletude. No que toca a ser um self-made man, ainda estou a desdobrar as instruções do kit.
Mas chega de auto-comiseração: não acredito que alguma vez algum ser humano tenha sido completo no sentido ocidental-comercial da palavra. Buda atingiu o Nirvana, mas arruinou as finanças familiares. Atingir a Fachada, no entanto, parece que será tudo o que basta hoje em dia.
Assumo portanto, que nada tenho mais para oferecer que um Kit de pessoa ou uma personalidade liofilizada (como o seu quê de produto ACME). Terei de ser levado ao alfaiate para ajustes. Se uma mulher me demonstra acreditar – esperar – um parceiro completo (ou talvez, uma solução integrada, um pack, um pronto-a-vestir), desilude-me. Deixar-me-à em breve, porque haverá sempre alguém a parecer mais completo do que eu, dependendo da luz: as fachadas, regra geral, parecem opacas.
Mais construtivismo, abaixo os capitalismos!
