Filtrar por categoria: Ed

XXXVI

chocolate-fighting

Aparentemente dei a minha 36ª volta completa à volta do Sol num certo dia da semana passada, o que me fez merecer as mais diversas felicitações. Por existir, aparentemente. Uma vez que a maioria dos dias a minha existência nem sequer merece repúdio, sendo simplesmente ignorada, não desdenho essas felicitações à minha existência e a mais uma involuntária circumnavegação do sistema solar. Além disto, a ocasião permite que se organizem uns jantares e beberetes onde posso reencontrar pessoas que não via há algum tempo – desde a última celebração idêntica, por vezes.

Apesar da gravidade com que se iniciam os 36 anos – com aquele efemérico acordar em que mais uma vez me ponho a reflectir nas coisas que tanta gente alcançou em menos tempo; isto é, a invejar o que desconheço – não finjo que não aprecio fazer anos. Gosto dos aniversários alheios mas sobretudo dos meus: dias em que não fica mal reclamar – ou exigir até – a atenção dos outros, tal fedelho mimado. Com 36 anos, perdemos a vergonha do mimo e da necessidade de afecto. Podemos tê-la andado a esconder, armados em jovens adultos, armados em jogadores com os afectos, invulneráveis. Pelo contrário, queremos aquilo a que todo o ser humano tem direito e que só por teimosia e mania desdenha. Abrace-se o mimo, e comam-se chocolates. Todos gostam de chocolates.

Eduardos

Há uns tempos recebi mensagens felicitando-me pelo destaque dado no Ípsilon a um dos ‘meus’ documentários. Não sabia a que se referiam, de certeza que seria um equívoco, já há anos que não fazia nada que pudesse ser classificado como documentário. Perguntaram-me se eu não tinha feito um documentário sobre o rock alternativo em Portugal. Mais uma vez bloqueei: bem, trabalhei num documentário do Miguel Vasconcelos sobre um curso de formadores musicais da Casa da Música, e havia partes com entrevistas a tipos em bandas de rock & etc. Mas o meu papel nesse trabalho tinha sido o grafismo e a etalonagem – muitos furos abaixo do que classificaria como ‘fazer’ o que quer que seja.

Pedi que me explicassem melhor. E assim soube que o artigo diz que o Eduardo Morais realizou um documentário sobre o rock alternativo em Portugal chamado Meio Metro de Pedra:

Um Eduardo Morais.

Raios. Quando acabei o curso de cinema decidi que deixaria de assinar com três nomes. Afinal soava-me pomposo, burguês e a nome de pivot de Telejornal. Também não queria contudo usar o primeiro e último nome, por me soar estranho e a futuro número 6 do Benfica (aqui estão alguns candidatos possíveis). Optei portanto por assinar com o primeiro e o penúltimo: um nome que me soa bem e não me parece nem demasiado popular nem burguês. Um nome sério de classe média.

Que fazer? Evidentemente, nada. Isto gerará alguns equívocos, como quando algum tempo depois da notícia incial me ligaram a convidar para apresentar o Meio Metro de Pedra e pôr música num bar uma sexta à noite. Expliquei que não era eu, ao que se seguiram mil desculpas e um convite para apresentar o Damião numa videoteca municipal uma segunda-feira à tarde. Evidentemente, arranjei forma de passar tal espécie de prémio de consolação – posso realizar filmes diferentes mas acho que também tenho bom gosto para passar música!

Equívoco por equívoco, ao menos não me chamo Aníbal Silva.

Foi apesar de tudo estranho acordar hoje, pôr-me a fazer zapping, e ao passar pela SIC Radical a box me indicar “um filme de Eduardo Morais” com o qual eu nada tive a ver. É um pouco como ir na rua e ouvir alguém a chamar “Ó Eduardo!”, olhar à minha volta e ver que quem estava a ser chamado era um miúdo de 5 anos. Ou um idoso. Ou o mecânico ou o carteiro. Calculo que os Joões, os Zés e os Manéis (e mesmo os Zés Manéis) já estejam mais insensíveis a este fenómeno (que será, contudo, uma história para a vida para os Inocêncios e os Olegários).

Gostei do Meio Metro de Pedra. Qualquer documentário com uma edição conivente com um dos entrevistados quando este diz algo como “Que se fodam os Deolinda! São a maior bosta que aí anda!” contará com toda a minha simpatia. Foi no entanto estranho sentir aquela voz interior crítica a tudo o que faz o Eduardo Morais: aquele plano em que um dos entrevistados tem a testa cortada; o preto e branco que me parece mais um desaturate que um verdadeiro preto e branco; porque é que estes tipos se vestem todos como cidadãos da Brooklyn global; & etc. Como se eu tivesse de facto alguma responsabilidade, pudesse ligar o meu computador, abrir o Premiere e mudar estas coisas. Não costumo ser tão crítico com as coisas que escolho ver na TV, mas aqui senti-me como se eu tivesse dupla personalidade e andasse a entrevistar roqueiros enquanto julgo que estou a dormir. Ou serei eu aqui essa segunda personalidade?

Seja como for. Gostei do documentário. Nunca fui muito dado ao rock, mas senti-me de volta ao liceu, a ouvir falar das mesmas bandas de que falavam alguns dos meus colegas mais ‘fixes’. E pelos vistos até dá para ver todo no YouTube. Está visto que ‘Eduardo Morais’ é uma boa marca.

Domínio Público, toma!

Não é comum eu colocar aqui no Procrastinador artigos acompanhados de imagens ou vídeos a cores. Digamos que na minha opinião o preto e branco compõe o design da coisa. Mas acho que hoje o motivo não é para menos: decidi colocar dois dos meus trabalhos no Domínio Público. Não me refiro a aquela coisa meia estranha do Creative Commons ‘normal’, que é como quem diz “usa à vontade mas como eu te mando”, mantendo-se o meu copyright sobre as obras até 70 anos depois da minha morte – ou seja, o copyright manter-se ia até uma data hipotética que a título pessoal espero bem dentro do século XXII.

Questionando a Inspecção Geral das Actividades Culturais sobre como poderia colocar estes meus trabalhos no Domínio Público, propuseram-me uma doação à Secretaria de Estado da Cultura.

Pois, não, obrigado.

Felizmente consegui livrar-me do copyright através da Dedicação Universal da pouco publicitada versão zero da Creative Commons. Antes havia feito alterações nos vídeos, corrigindo erros e retirando todo o material que não tinha licença por escrito para utilizar – até tive o cuidado de usar tipos de letra com licenças livres. Pedi à Joana, responsável pela locução e todo o tipo de ajudas diversas (obrigado Joana!), uma declaração cedendo-me todos os direitos, de modo a poder atirar com os trabalhos: agora o Words and Thoughts in RGB e o Life is Change são vossos, são de todos. Os downloads estão aqui e aqui, respectivamente.

Usem-nos como entenderem. Cobrem bilhetes, remisturem, editem-nos em DVD e Blu-Ray, metam-lhe o logotipo do Continente ou da Galp no final. Não tenho nada a ver com isso. Apenas não lhes mudem os créditos – não o fariam com Os Lusíadas, pois não?

São coisas que acontecem

O outro dia fiz trinta e três anos. Chegou-se a isto. Os trinta e três, tal como os vinte e sete, é uma daquelas idades com carga simbólica, e sendo infeliz portador de uma destas idades em 2012 terei que ser bastante cuidadoso, verificando os piscas do carro, evitando descer escadas de mãos nos bolsos, adiando para 2013 o curso de desactivação de minas anti-tanque. Isto porque seria aborrecido magoar-me gravemente e morrer, mas ser-me-ia sobretudo motivo de vergonha intolerável ter dado qualquer satisfação a pessoas supersticiosas.

Fazer trinta e três anos significa também que faz dez anos que fiz vinte e três anos. Por há muitos anos escrever este tipo de futilidades consigo agora recuperar a vaga memória de uma noite de aniversário a ver sozinho o Amores Perros em DVD, uma tecnologia então novidade para mim. Verifico que tal data foi um sábado, e interrogo-me porque é que não comemorei esse aniversário com ninguém. Ou será que saí com amigos e, não tendo registado esse facto nem em papel nem em weblog, não me recordo? De qualquer forma, persiste a sensação de que, apesar de não me lembrar do que fiz em 2002, tal dia foi ontem: uma falta de progresso.

Forço-me assim a quantificar aquilo que fiz nos últimos dez anos, aquilo que consegui, aquilo que aprendi e que experimentei, as histórias que vivi. A lista é longa e talvez seja, com excepção de algumas histórias, maçadora para qualquer outra pessoa. E ainda bem. Há progresso afinal.

Adolescente nos trintas

Perguntei à minha mãe se não teria “um prato ou coisa do género” que me pudesse ceder, de modo a eu ter um sítio fixo onde pousar a carteira e as chaves quando chego a casa. Deu-me um bonito cinzeiro em cobre, mas com uma advertência: “Não é para começares a fumar”.