Há uns tempos uma amiga com quem fui tomar café contou-me como um relacionamento seu tinha terminado devido à sua incapacidade em ser percepcionada como sendo de boas famílias por um parceiro que, depreendo eu, seria então de boas famílias. Embora nunca tenha estado numa posição em que a ausência de bondade na minha família fosse determinante no final de uma relação (embora possa ter, porventura, impedido inícios), não deixo de partilhar a indignação e a decepção da minha amiga. Conheço pessoas de boas famílias. Até podemos beber copos juntos, podemos rir-nos juntos, ocasionalmente até dormir juntos. Mas em Portugal, diz-me com quem andas no Natal e na Páscoa e dir-te-ei quem és.
Presumo que tanto eu como a minha amiga sejamos de más famílias. Daquelas em que o pai é um mecânico de automóveis e a mãe angaria gente para esquemas em pirâmide. Ou pior, seremos do povo, aquela massa humana amorfa que nem sequer tem direito a integrar uma dicotomia: os rafeiros numa espécie que afinal é de cães. Ou cavalos.
Estou indignado com muita coisa. Indignado com a nossa sociedade, a nossa cultura, a nossa política; com os media e a opinião pública, tanto a pop como a alternativa. Estou indignado com a minha inércia e os meus vícios. Estou indignado com os ricos, indignado com os pobres, indignado com os intelectuais e com as pessoas que acham que os dinossauros eram mamíferos ou que África é o nome de um país na América austral.
Mas não admito que uns quaisquer aspirantes a publicitários, que ainda por cima não elegi, se julguem representantes da minha indignação. A minha indignação não requer relações públicas ou qualquer outro tipo de representação. E é orgulhosamente amadora.
Serei profissional noutras coisas – no ensino e nos biscates multimédia pelos quais sou pago habitualmente, na ajuda que ofereço a quem ma merece, ou na procrastinação que pratico com fervor e cuidado -, coisas com as quais espero contribuir de forma concreta para melhorar a minha vida e a das pessoas que se cruzem comigo. Mas jamais terei qualquer aspiração profissional baseada na minha indignação, e repudio quem a tenha.
Os 1% de indignados profissionais, que esperam salivando por tempos ainda mais difíceis que os vinguem, não me merecem mais simpatia que os 1% da elite económica que crackaram todo o sistema socio-económico e que ninguém parece entender que terá que ser reparado para nos pôr a salvo dessa predação. Compreende-se que os predadores e parasitas que exploram a nossa estrutura social não o queiram fazer, mas jamais estarei ao lado dos que querem resolver a questão dinamitando tudo conosco no interior (na versão new-age da crença de que iremos todos para o Céu); ou de umbiguistas a quem apenas interessa o engate retro-revolucionário via Facebook (que alguém por favor abra um resort Maio’68 ou PREC para esta gente!). Não admito que a minha indiganção seja explorada por quem revela, na sua arrogância naif, estar-se cagando para a complexidade do mundo e dos seus 7000 milhões de seres humanos – 7000 milhões de bocas e de sonhos, 7000 milhões de interesses e opiniões altamente contraditórios que é necessário respeitar e gerir sem que nos matemos a todos.
O apolítico é o melhor amigo das elites, o seu agente-duplo que nem necessita de remuneração. É de verdadeira agenda política (Polis – cidade – cidadania) que precisamos: no dia em que vir palavras de ordem de consequência construtiva para os 98% sairei à rua. Receio ter que esperar sentado.
O meu entusiasmo pela demissão do Governo e pelas eleições que aí vêm é tão grande como o meu entusiasmo em torcer pela selecção do Canadá em curling. Tivemos e continuaremos a ter os governos que merecemos, que de qualquer modo se limitarão a administrar as prescrições de gente que não elegemos.
A situação de Portugal lembra a seguinte parábola budista:
A man traveling across a field encountered a tiger. He fled, the tiger after him. Coming to a precipice, he caught hold of the root of a wild vine and swung himself down over the edge. The tiger sniffed at him from above. Trembling, the man looked down to where, far below, another tiger was waiting to eat him. Only the vine sustained him.
Two mice, one white and one black, little by little started to gnaw away the vine. The man saw a luscious strawberry near him. Grasping the vine with one hand, he plucked the strawberry with the other. How sweet it tasted!
Escrevo este artigo um sábado à noite. Devia ter saído e estar neste momento a beber uns copos na fria e agorafóbica noite do Porto, mas decidi-me ficar em casa devido a um certo sentido de dever; nomeadamente, a execução de um certo trabalho de cariz informático para o qual existe uma certa urgência. No entanto dou por mim a escrever este artigo, e a decidir-me a deixar para amanhã, e se nada melhor houver para fazer, aquilo que teria que ter feito hoje. Isto porque não gosto que me passem a mão pelo pêlo.
Abomino, aliás. Se não quero saber o quão bom é o meu trabalho antes de estar concluído, como encaixar os elogios que precedem os primeiros bits? Ninguém dá nada a ninguém, e mesmo que as palavras sejam gratuitas não deixo de associar uma mão no pêlo a água no bico.
Entendo que muitos se deixam levar por uma figurativa festa no couro cabeludo. A lisonja é um bom lubrificante social, o Redex Bala da micro e pequena política. Queremos ouvir palavras simpáticas acerca de nós; em troca de uma pequena massagem na auto-estima fazemos favores, confiamos. No entanto, alguns de nós têm a pele calejada – ou um cabelo estilo palha-de-aço, que dói quando lhe fazem festas com pouco jeito. A minha auto-estima depende de mim, como indica o prefixo auto-. Depende da minha auto-crítica relativamente às minhas acções; se falamos de trabalho, relativamente à obra feita. Uma mão pelo pêlo retira-me qualquer autonomia.
Uma vez dei por mim a passar a mão pelo pêlo a uma colega que achava atraente, cheio de água no bico. Respondeu-me que eu era livre de elogiar obras concretas, mas não me permitia que generalizasse tais elogios à pessoa. Em retrospectiva, fui foleiro e tive a resposta merecida.
Quando gostamos do que fazemos, não precisamos de ouvir certas merdas.
Estou quase a acabar de ler Generation A do Douglas Coupland. O livro não é extraordinário, estando bastante longe de algo como o Jpod, mas fala bastante de algo que me tem ocupado os pensamentos nos últimos tempos: é que acredito que a vida é uma sucessão probabilística de acontecimentos e de momentos, e qualquer coerência aparente apenas poderá ser
fruto das probabilidades (escassas) / sorte;
resultado de um esforço muito deliberado (e muito pouco compensador).
A vida não é, portanto, um filme. Ou qualquer outra forma narrativa. Uma verdadeira biografia será, na melhor das hipóteses, uma massa desinteressante pontuada por alguns momentos de interesse. As histórias da nossa vida que contamos (incluindo as que valem realmente a pena contar) são sempre relatos posteriores. Pequenas narrativas fruto de uma ordenação e reordenação do passado.
in 'Generation A' de Douglas Coupland
Ninguém me irrita mais, portanto, que as pessoas que querem fazer o contrário, vivendo momentos escritos e planificados. Dois exemplos muito diferentes:
A mulher que no meio de uma discussão não desfere um ataque verbal contra mim mas, pelo contrário, diz uma deixa (ex. “Eu não estou à procura de uma relação”) para ser apreciada por uma audiência invisível. Ouve: a nossa vida está aqui mesmo – não somos actores em nenhum filme francês.
O tipo que, enquanto eu esperava aflito no corredor do bar, snifava coca na casa de banho armado em Gordon Gekko, provavelmente usando um Andante (passe mensal dourado) para desenhar a linha na caixa do autoclismo. Enquanto me tentava abstrair das três SuperBocks na bexiga, reflecti em como ninguém estava a ver o gajo* - porque é que não se limita a enfiar aquela merda pelo nariz acima com o dedo?
Cinematografizar a vida, admito, é algo em que todos caímos. Se vou entrar num sítio, penso na forma como o George Clooney ou o Brad Pitt entram nos sítios nos Ocean’s. Mas parte de mim espera que no fundo ninguém repare – precisamente porque não sou nem o George Clooney nem o Brad Pitt nem, infelizmente, me pareço com algum deles. Mas existe algo de fundamentalmente nefasto neste comportamento: sinto que estou a lidar com pessoas que se referem a elas próprias na terceira pessoa, estilo “o Jardel tem treinado bem e acha que o mister confia nele”. Ou com alguém que, quando se lhe pede que desenhe o que viu, se inclui a ele próprio na desenho.
Os meus olhos estão aqui mesmo, na minha cabeça, e só vejo para fora.
* Muito bem, nem eu. Mas o gajo saiu da casa de banho raiado e a fungar e juro que ouvi o que presumo ser um cartão plastificado a raspar qualquer coisa em cerâmica – mas ahah! aí o indivíduo até tinha uma audiência! Ora bolas…