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Medo do acaso

Porque é que há tanta gente com tanto medo do acaso?

Há muita gente incapaz de aproveitar as oportunidades que encerra um encontro casual, no café ou no meio da rua. Oportunidades para dialogar, oportunidades para conhecer, oportunidades para o afecto e oportunidades para a acção – para fazer planos, para partilhar um momento, para alegrar um dia – são encaradas com negligência e com uma apatia assassina. As pessoas abreviam as conversas por pressas porventura imaginárias, desencravam os acasos com variações sobre um “então vá, depois diz coisas”, palavra-chave “depois”. Garantem que os encontros ocasionais não possam senão ser inconsquentes. Tentam que qualquer incidente proporcionado pelo acaso seja rapidamente esquecido.

Será que tais acasos lhes recordam a arbitrariedade da vida?

Como se o papel da sorte pudesse ser revogado pela indiferença. Como se apenas as acções deliberadas contassem. Pobres control freaks, incapazes de abraçar os felizes acasos como se tal implicasse admitir o infortúnio. Pois este não se preocupa com a nossa opinião. A felicidade, contudo, é evitável.

Segundas escolhas

Já não me recordo se foi na altura do Campeonato da Europa de Futebol de 1988 (aquele do volley incrível do Marco van Basten na final entre a Holanda e a União Soviética) ou se já no Mundial de Itália ’90 (aquele do jogo para Spectrum e do Maradona a chorar depois da derrota na final contra a Alemanha, sentenciada por um penalty marcado pelo Lothar Matthaus). Não me lembro, portanto, se andava ainda na escola primária ou se já estava no ciclo preparatório, naquele que seria o último Verão antes da separação dos meus pais. Numa daquelas agradáveis tardes em que o final do ano escolar se aproximava, estava no recreio participando naquela tradição bienal da troca de cromos da Panini afectos aos grandes eventos futebolísticos internacionais. Alguém – talvez até tenha sido eu – se interrogou sobre quem seria aquele jogador que lhe tinha saído na carteira. O cromo seria parecido com este (não consegui encontrar uma imagem de uma das colecções em causa):

Stanley Menzo, guarda-redes do Ajax de Amesterdão entre 1984 e 2000. Eterno suplente na selecção holandesa.

Hoje em dia, graças à Internet, sei que Stanley Purl Menzo nasceu a 15 de Outubro de 1963 no Suriname – o que faz dele um guarda-redes de 24 ou 26 anos na altura do acontecimento -, e que salvo meia época no Haarlem tinha feito toda a carreira no Ajax de Amesterdão. Em 1988 e 1990 não tinha como saber essas coisas. Era necessário recorrer à mente colectiva dos colegas:

– “Esse é o Menzo, o eterno suplente.”

A resposta atingiu-me como uma revelação sobre a crueldade que a vida adulta pode reservar. Stanley Menzo era o guarda-redes suplente da grande selecção holandesa em que a titularidade indiscutível pertencia ao Hans van Breukelen. De facto, Menzo não teria grande hipótese de jogar, a menos que guarda-redes do PSV Eindhoven se lesionasse ou o Luiz Felipe Scolari retrocedesse década e meia para orientar a Holanda. Será no entanto um exagero descrever um jogador a meio da sua carreira como ‘eterno’ qualquer coisa. Menzo não era um amargo guarda-redes de 38 anos passados no banco e com mais equipas que jogos no currículo, nem um protagonista trágico de um filme do Wim Wenders. Hoje entendo que o meu colega da escola não estava dotado de uma visão sóbria e adulta sobre a vida. Provavelmente papagueou uma expressão produzida pelo jornalismo desportivo da época:

O eterno suplente.

Contudo, essa expressão ficou-me. Passando a adolescência como suplente dos jogos escolares, senti-me amaldiçoado por essas palavras. Se nos melhores momentos esperava para substituir um lateral direito ou um ponta-de-lança (assim eram os improváveis perfis tácticos do futebol juvenil), nos piores via-me relegado para uma atroz (mas justa) segunda escolha na defesa da baliza: sempre que chamado a jogar era daqueles guarda-redes que, de forma cobarde e imbecil, viravam as costas aos remates. Como resultado disso, evoluí bastante no purgatório do voleibol misto durante as aulas de educação física, enquanto esperava uma oportunidade de entrar no jogo de futebol que decorria ali ao lado. Escolhendo sempre o copo meio vazio, é evidente que não me quis aperceber que até era bastante bom jogador de voleibol.

As segundas escolhas são inevitáveis no desporto, na análise de currículos e de especificações; onde haja uma métrica. Poucas pessoas compreendem que fora estes casos, será inaceitável que se atribuam números às escolhas.

São coisas que acontecem

O outro dia fiz trinta e três anos. Chegou-se a isto. Os trinta e três, tal como os vinte e sete, é uma daquelas idades com carga simbólica, e sendo infeliz portador de uma destas idades em 2012 terei que ser bastante cuidadoso, verificando os piscas do carro, evitando descer escadas de mãos nos bolsos, adiando para 2013 o curso de desactivação de minas anti-tanque. Isto porque seria aborrecido magoar-me gravemente e morrer, mas ser-me-ia sobretudo motivo de vergonha intolerável ter dado qualquer satisfação a pessoas supersticiosas.

Fazer trinta e três anos significa também que faz dez anos que fiz vinte e três anos. Por há muitos anos escrever este tipo de futilidades consigo agora recuperar a vaga memória de uma noite de aniversário a ver sozinho o Amores Perros em DVD, uma tecnologia então novidade para mim. Verifico que tal data foi um sábado, e interrogo-me porque é que não comemorei esse aniversário com ninguém. Ou será que saí com amigos e, não tendo registado esse facto nem em papel nem em weblog, não me recordo? De qualquer forma, persiste a sensação de que, apesar de não me lembrar do que fiz em 2002, tal dia foi ontem: uma falta de progresso.

Forço-me assim a quantificar aquilo que fiz nos últimos dez anos, aquilo que consegui, aquilo que aprendi e que experimentei, as histórias que vivi. A lista é longa e talvez seja, com excepção de algumas histórias, maçadora para qualquer outra pessoa. E ainda bem. Há progresso afinal.

Da cobardia

É fácil, agradável até, dizer-se que o comandante do Costa Concordia foi um cobarde. Olhamos afinal para esta patética personagem (por exemplo quando afirma que tropeçou e caiu acidentalmente no salva-vidas – racionalizando  assim que tenha sido um acidente, contra a sua vontade, que salvou a sua vida à frente da dos passageiros que tinha o dever de proteger) e não deixamos de sentir uma certa schadenfreüde, uma espécie de prazer na desgraça pública desta pessoa vil, cobarde e pequena. Os media internacionais não deixam de aproveitar esta amostra da suposta inferioridade moral dos italianos (e de certeza que os media italianos sediados em Milão também o fazem para demonstrar a fraqueza moral dos napolitanos), e mostram repetidamente este desgraçado encandeado pelas perguntas dos jornalistas. Vemos os seus cabelos encaracolados e com mullet, o comandante de um cruzeiro de luxo com ar de playboy, e julgamos com o cliché – este não é um homem, é um rato. Ou pior, é um Berlusconi apanhado em flagrante delito.

Ao mesmo tempo, olhamos para o comandante Schettino e pensamos, confortável e calorosamente, que não faríamos pior na mesma situação, de certeza que faríamos melhor, de certeza que permaneceríamos no navio até todos os passageiros estarem seguros, cientes do nosso heroísmo e do nosso orgulho em, caso fosse esse o desfecho, morrer em pé. Identificamo-nos com o oficial da capitania de Livorno, que barafusta via rádio, ordena ao comandante que volte para o navio e assegure o resgate dos passageiros; e é realmente fácil identificar-mo-nos, provavelmente também estaremos em terra firme, debaixo de um tecto que nos protege dos elementos, porventura sentados numa cadeira fofa. É fácil sermos heróis, é fácil berrar e barafustar quando o perigo está lá fora e apenas lhe chegamos perto através de feixes hertzianos.

É patética a indignação de café contra a cobardia igualmente patética do capitão. Eu assumo que duvido qual seria a minha reacção. Num barco inclinado, eu provavelmente paralisaria, e ficaria agarrado, choroso e inerte, a uma cama que se deslocou para a vertical. Herói, dificilmente me imagino.

Não há melhor prova de falta de introspecção que a incompreensão para com a mais elementar das fragilidades, o instinto de auto-preservação. Schettino foi cobarde, mas foi-o para salvar a sua vida, e o tempo dirá se essa vida é mais forte, se compensa a vergonha e a censura. E todavia, todos os dias se assiste à cobardia quotidiana dos indignados. Não se foge sequer de barcos a afundar que podem custar a vida. Foge-se de relacionamentos, apenas porque não são muito oportunos. Foge-se da aprendizagem, apenas porque é difícil. Foge-se da construção, apenas porque dá trabalho.

Entalados

Eat the Rich / Kill the Poor, do colectivo Democracia, 2010

Vivemos num mundo em que existem mais pessoas do que trabalho para ser feito. Isto não significa que exista um excesso de população. Trata-se de um rácio. A computação, a automação, as eficiências necessárias para alimentar sete mil milhões de bocas e vestir sete mil milhões de corpos, levam a que exista uma grande insuficiência de coisas importantes para fazer. Poucos cultivam a terra, poucos são necessários nas fábricas a fazer coisas importantes. Fazem-se produtos que duram pouco para poder empregar quem os faça, destrói-se o Ambiente para se fabricarem inutilidades que empreguem mais homens do lixo e mais pessoas no processo de reciclagem. Inventam-se Gestões, Marketings, Designs de estratégias de investimento criativo, Consultorias de certificação ISO e outras tantas inutilidades com o objectivo de ocupar um número adicional de seres humanos enquanto participantes na economia; enquanto se empilham pós-doutoramentos em cima de doutoramentos, doutoramentos em cima de mestrados e estes em cima de pós-graduações, de modo a tentar atrasar a entrada de outros tantos desafortunados num Mercado de Trabalho tão deserto de emprego como o do Bom Sucesso o é de legumes.

O pouco trabalho que existe será de quem se oferecer para trabalhar mais por menos, seja o operário Chinês, seja o estagiário. A perversa aritmética deste sistema não deixa espaço para reinvindicações nem recuos: o desespero, aonde quer que ele exista, furará qualquer greve. Qualquer dita Utopia pressupõe ou o genocídio dos discordantes ou a fome daqueles que uma utopia regressiva não conseguirá alimentar. Apenas podemos andar para a frente e aguentar-nos à bronca. Só uma escolha pessoal que constitua uma força colectiva pela justiça, pela solidariedade e pela ciência, nos pode ajudar a sair deste desconforto em direcção a um destino incerto – em vez do desastre certo.

Mas como?, quando aqueles a quem a vida corre bem tendem a sentir-se Eleitos e Iluminados e de algum modo superiores aos restantes – a ralé preguiçosa, descrente, merecedora do seu infortúnio…