Da cobardia

É fácil, agradável até, dizer-se que o comandante do Costa Concordia foi um cobarde. Olhamos afinal para esta patética personagem (por exemplo quando afirma que tropeçou e caiu acidentalmente no salva-vidas – racionalizando assim que tenha sido um acidente, contra a sua vontade, que salvou a sua vida à frente da dos passageiros que tinha o dever de proteger) e não deixamos de sentir uma certa schadenfreüde, uma espécie de prazer na desgraça pública desta pessoa vil, cobarde e pequena. Os media internacionais não deixam de aproveitar esta amostra da suposta inferioridade moral dos italianos (e de certeza que os media italianos sediados em Milão também o fazem para demonstrar a fraqueza moral dos napolitanos), e mostram repetidamente este desgraçado encandeado pelas perguntas dos jornalistas. Vemos os seus cabelos encaracolados e com mullet, o comandante de um cruzeiro de luxo com ar de playboy, e julgamos com o cliché - este não é um homem, é um rato. Ou pior, é um Berlusconi apanhado em flagrante delito.
Ao mesmo tempo, olhamos para o comandante Schettino e pensamos, confortável e calorosamente, que não faríamos pior na mesma situação, de certeza que faríamos melhor, de certeza que permaneceríamos no navio até todos os passageiros estarem seguros, cientes do nosso heroísmo e do nosso orgulho em, caso fosse esse o desfecho, morrer em pé. Identificamo-nos com o oficial da capitania de Livorno, que barafusta via rádio, ordena ao comandante que volte para o navio e assegure o resgate dos passageiros; e é realmente fácil identificar-mo-nos, provavelmente também estaremos em terra firme, debaixo de um tecto que nos protege dos elementos, porventura sentados numa cadeira fofa. É fácil sermos heróis, é fácil berrar e barafustar quando o perigo está lá fora e apenas lhe chegamos perto através de feixes hertzianos.
É patética a indignação de café contra a cobardia igualmente patética do capitão. Eu assumo que duvido qual seria a minha reacção. Num barco inclinado, eu provavelmente paralisaria, e ficaria agarrado, choroso e inerte, a uma cama que se deslocou para a vertical. Herói, dificilmente me imagino.
Não há melhor prova de falta de introspecção que a incompreensão para com a mais elementar das fragilidades, o instinto de auto-preservação. Schettino foi cobarde, mas foi-o para salvar a sua vida, e o tempo dirá se essa vida é mais forte, se compensa a vergonha e a censura. E todavia, todos os dias se assiste à cobardia quotidiana dos indignados. Não se foge sequer de barcos a afundar que podem custar a vida. Foge-se de relacionamentos, apenas porque não são muito oportunos. Foge-se da aprendizagem, apenas porque é difícil. Foge-se da construção, apenas porque dá trabalho.



