Filtrar por categoria: Geral

Desta vez vou à manifestação

Não sou muito dado a manifestações. Já o disse antes. Acredito que o poder é um reflexo das sociedades onde se manifesta, a um nível mais profundo que o voto e a democracia. De nada servirá que nesta Grândola o povo ordene, se esta não for uma terra de fraternidade. E que não somos.

Não quero que se lixe a Troika: esta existe vários graus de separação para lá dos meus conhecimentos e é uma coisa terrível odiar-se quem não se conhece. Eles podem pedir e até ordenar, mas a opressão que por vezes sinto não origina da Troika nem sequer do Governo ou de um qualquer Outro relativamente abstracto. A opressão da negligência e do descuido quotidianos, da desmesura e da ambição, talvez seja capitalista mas não é fruto do cumprimento de ordens. Quando acordámos hoje reconstruímos a nossa parte do mundo que cessou enquanto dormiamos. E este é precisamente o mundo o que escolhemos reconstruir – fruto de actos que são o critério da verdade dos nossos desejos.

Desta vez irei contudo à manifestação. Sei que de pouco adiantará enquanto as manifestações apenas servirem para mudar governos sem nos mudarem a nós, que segunda-feira reconstruiremos este Portugal mesquinho, serviçal e turístico: uma cultura que demorará gerações a mudar. No entanto, por mais insignificante que seja o passo, acredito que é chegada a hora em que a retirada de certos indivíduos de posições de poder é necessária, não pelo que fizeram à economia mas sobretudo pelo que fazem à nossa mentalidade. Irei por isso.

Sem participar em concursos de cartazes, sem beber cervejas nem tirar fotos para o Facebook. As manifestações não podem ser sábados bem passados; assim eu farei desta a minha.

Fica aqui uma sugestão musical alternativa à Grândola, Vila Morena, demasiado usada nas últimas semanas como canção contra. Cante-se por.

Eduardos

Há uns tempos recebi mensagens felicitando-me pelo destaque dado no Ípsilon a um dos ‘meus’ documentários. Não sabia a que se referiam, de certeza que seria um equívoco, já há anos que não fazia nada que pudesse ser classificado como documentário. Perguntaram-me se eu não tinha feito um documentário sobre o rock alternativo em Portugal. Mais uma vez bloqueei: bem, trabalhei num documentário do Miguel Vasconcelos sobre um curso de formadores musicais da Casa da Música, e havia partes com entrevistas a tipos em bandas de rock & etc. Mas o meu papel nesse trabalho tinha sido o grafismo e a etalonagem – muitos furos abaixo do que classificaria como ‘fazer’ o que quer que seja.

Pedi que me explicassem melhor. E assim soube que o artigo diz que o Eduardo Morais realizou um documentário sobre o rock alternativo em Portugal chamado Meio Metro de Pedra:

Um Eduardo Morais.

Raios. Quando acabei o curso de cinema decidi que deixaria de assinar com três nomes. Afinal soava-me pomposo, burguês e a nome de pivot de Telejornal. Também não queria contudo usar o primeiro e último nome, por me soar estranho e a futuro número 6 do Benfica (aqui estão alguns candidatos possíveis). Optei portanto por assinar com o primeiro e o penúltimo: um nome que me soa bem e não me parece nem demasiado popular nem burguês. Um nome sério de classe média.

Que fazer? Evidentemente, nada. Isto gerará alguns equívocos, como quando algum tempo depois da notícia incial me ligaram a convidar para apresentar o Meio Metro de Pedra e pôr música num bar uma sexta à noite. Expliquei que não era eu, ao que se seguiram mil desculpas e um convite para apresentar o Damião numa videoteca municipal uma segunda-feira à tarde. Evidentemente, arranjei forma de passar tal espécie de prémio de consolação – posso realizar filmes diferentes mas acho que também tenho bom gosto para passar música!

Equívoco por equívoco, ao menos não me chamo Aníbal Silva.

Foi apesar de tudo estranho acordar hoje, pôr-me a fazer zapping, e ao passar pela SIC Radical a box me indicar “um filme de Eduardo Morais” com o qual eu nada tive a ver. É um pouco como ir na rua e ouvir alguém a chamar “Ó Eduardo!”, olhar à minha volta e ver que quem estava a ser chamado era um miúdo de 5 anos. Ou um idoso. Ou o mecânico ou o carteiro. Calculo que os Joões, os Zés e os Manéis (e mesmo os Zés Manéis) já estejam mais insensíveis a este fenómeno (que será, contudo, uma história para a vida para os Inocêncios e os Olegários).

Gostei do Meio Metro de Pedra. Qualquer documentário com uma edição conivente com um dos entrevistados quando este diz algo como “Que se fodam os Deolinda! São a maior bosta que aí anda!” contará com toda a minha simpatia. Foi no entanto estranho sentir aquela voz interior crítica a tudo o que faz o Eduardo Morais: aquele plano em que um dos entrevistados tem a testa cortada; o preto e branco que me parece mais um desaturate que um verdadeiro preto e branco; porque é que estes tipos se vestem todos como cidadãos da Brooklyn global; & etc. Como se eu tivesse de facto alguma responsabilidade, pudesse ligar o meu computador, abrir o Premiere e mudar estas coisas. Não costumo ser tão crítico com as coisas que escolho ver na TV, mas aqui senti-me como se eu tivesse dupla personalidade e andasse a entrevistar roqueiros enquanto julgo que estou a dormir. Ou serei eu aqui essa segunda personalidade?

Seja como for. Gostei do documentário. Nunca fui muito dado ao rock, mas senti-me de volta ao liceu, a ouvir falar das mesmas bandas de que falavam alguns dos meus colegas mais ‘fixes’. E pelos vistos até dá para ver todo no YouTube. Está visto que ‘Eduardo Morais’ é uma boa marca.

A Troika em nós

Costumo passar a maioria das tardes de Sábado aqui na Baixa do Porto, pelo que já consigo notar que hoje, 15 de Setembro de 2012, será um Sábado Especial: um dia quente com 27 ºC e em que o Sol brilha sobre as esplanadas mais cheias que o costume; em que mesmo o interior dos cafés está cheio de pessoas bem vestidas para um dia de passeio, comendo os seus almoços tardios, ponderando as questões logísticas da conjugação dos seus propósitos contestatários com a assistência de vários concertos da Optimus D’Bandada, cuja dispersão de eventos quase-simultâneos em locais algo exíguos numa zona alargada e de topografia acidentada requer pleneamento preciso.

Existem também os tais propósitos contestatários. Entre o tirar fotografias de cartazes engraçados para colocar no Facebook, as idas às barraquinhas da SuperBock (que ainda não vi mas não duvido que apareçam a tempo), e os concertos em barbearias e garagens, é suposto que se grite bem alto “Que se lixe a Troika!”, aceitando o convite Eu Vou À Manifestação, E Tu?, cujo proto-fascismo escapou (espero eu) a quem redigiu tal título. A unidade forçada de forma inconsciente é bem patente no meme do momento, em que o Robin leva um severo tabefe do Batman quando murmura dúvidas sobre a sua participação na manifestação.

Eu estou aqui ao lado e não irei à manifestação. (Abaixo-me para me esquivar do Batman.) Eu não quero que se lixe a Troika. Não conheço pessoalmente nenhuma pessoa no FMI, na Comissão Europeia ou no BCE, e não tenho por costume desejar mal a desconhecidos. Além disso, a logística da coisa parece-me deveras complicada: como é que é suposto a Troika ir-se lixar? Interessa-me mais a segunda parte das palavras de ordem: “Queremos as nossas vidas!” E, salvo a hipotética intervenção do Batman, tenho a minha vida: todos temos as nossas vidas. Julgo que existe aqui um apelo à acção individual que é admirável – e paradoxalmente o último sítio onde o vejo tal apelo a poder ser posto em prática é em manifestações do filo que se foda X.

Sou frontalmente contra manifestações de cariz negativo: quero que se lixe a preocupação com a Troika. Deixem-nos estar, só querem receber o dinheiro deles. Se for devido, pagá-lo-emos, se não for, não pagamos, pronto. E embora as suas aparições mediáticas me suscitem menos simpatia que as dos burocratas anónimos das insituições credoras ao Estado Português, mesmo assim, nem quero que se lixe o Passos Coelho, o Vitor Gaspar, o António Borges. Há no entanto algumas coisas que gostaria que acontecessem, com Troika ou sem Troika:

Que existisse um plano para aumentar o salário mínimo até à média europeia. Que os impostos e contribuições se tornassem verdadeiramente progressivos, com os rendimentos do Capital equiparados ao escalão mais alto do IRS e uma descida no geral do IVA compensada por um novo escalão para produtos de luxo. Que a falta de remuneração do trabalho fosse criminalizada. Que o valor do arrendamento de apartamentos pequenos fosse equivalente, no máximo, a um terço do salário mínimo. Que o imposto sucessório fosse reintroduzido. Que os transportes públicos expandissem os seus serviços e baixassem os preços, usando um imposto extra sobre os combustíveis para fins não-comerciais se necessário. Que as infraestruturas fossem renacionalizadas. Que os cargos judiciais fossem sujeitos a controlo democrático (isto é, eleições) de cariz individual e apartidário. Que a Alemanha saísse do Euro. Que os deputados, ministros, autarcas e restantes cargos políticos fossem bem remunerados e tivessem o direito de optar por um bom subsídio de desemprego proporcional aos anos de serviço – em troca de uma total e criminalizada inibição de ocupar cargos no sector privado nos cinco anos subsequentes. O reconhecimento que devido à evolução técnica o Futuro tende para o Pleno Desemprego e que apenas uma distribuição justa da riqueza – com base na criação de valor -, um investimento massivo na Cultura e Educação e uma progressiva redução do horário laboral podem garantir uma qualquer estabilidade.

Cada uma destas pretensões, variando entre o facilmente e o dificilmente exequível, justificará por si só uma manifestação maciça, com uma palavra de ordem bem concentrada e bem definida. É certo que ainda vou a tempo de imprimir uns cartazes e de juntar estas minhas opiniões a uma manifestação que apesar do “Que se lixe!” se pretende, segundo os organizadores, Do It Yourself. Mas de que serve a cocofonia, um “estamos contra!” sem uma lista de exigências clara e legível? Num diferendo entre uma população e um Governo que esta mesma ligitimou nas urnas e nas ruas (e muito à conta de uma manifestação semelhante da qual me arrependo de ter sido parte) a negociação apenas pode existir sobre reinvindicações concretas.

Mas sobretudo, temo que este tipo de manifestações vagas e ao calhas, em que todos têm a sua opinião mas o que sai da cocofonia é uma recusa sem alternativa, sejam uma mera catarse que transfere responsabilidades individuais para Os Outros: Nós queremos as nossas vidas mas Eles não deixam. E chegando a Segunda-feira o estado das coisas, embora mais debilitado, manter-se-à: muitas pessoas aceitarão a exploração a troco de um metafórico bilhete para a lotaria do Sucesso, sabendo-se substituíveis em caso de recusa. Mesmo que o evitem nas eleições mais imediatas, muitos voltarão a votar em partidos que jamais tiveram qualquer política de redução do fosso entre os mais ricos e os restantes, esperançosos de um benefício adicional caso a Fortuna chegue.

A guerrilha entre colegas, classes e gerações continuará, e o facto de todos virem a pagar mais para a Segurança Social não mudará o aspecto fundamental da sociedade portuguesa: um conjunto de pessoas que são em larga medida neoliberais até à medula independentemente da preferência política expressa, crentes na tese da “vida acima das possibilidades” e que esta apenas se aplica a todos os outros / Eles, dispostas a pagar mais por menos desde que os vizinhos sofram mais. Sintomática da inveja endémica veja-se a visão pop sobre os políticos: o Deputado é uma espécie de ogre comilão e bebedor do sangue dos seus eleitores, um ser que aparentemente se desenvolve a partir dos restos abandonados nos contentores atrás de restaurantes de má reputação. Embora haja casos em que isto possa ser verdade, ignora-se alegre e prepositadamente que os partidos políticos têm instalações físicas com portas abertas dentro de horários de expediente bem publicitados, e que é possível entrar para a Política mediante o pagamento de uma quota modesta (desconheço no entanto se requerem o pagamento de jóia). Em vez disto espera-se por uma Limpeza, a ser efectuada por Alguém que ainda desconhecemos – esperança esta que dados os exemplos históricos apenas nos devia trazer arrepios.

A Política dá trabalho e só a tradição nacional de monosprezar o trabalho dos outros impede que as pessoas entendam isso. Passei parte da minha infância acompanhado o meu pai nas suas incursões políticas e recordo-me das passagens obrigatórias aos sábados à tarde na sede do partido, nas suas saídas à noite durante a semana, da logística da ida a comícios onde agitava bandeiras sentado às suas cavalitas – tudo uma grandessísima seca. Não é Relvas quem quer, veja-se uma fracção do que é necessário:

Segunda – jantar da J. F. Póvoa de Stº Adrião;
Terça – encontro com o Rancho Folclórico de Alheira de Cima;
Quarta – jantar da Ass. Com. Torres Vedras (ou Torres Novas ou lá o que é);
Quinta – jantar-comício do Partido em Oliveira do Hospital;
Sexta – seminário da Ass. Empresarial do Baixo Guadiana.

Vida boa? Nem eu tenho paciência para inventar o Sábado de tão desgraçada personagem, quanto mais vivê-lo.

A nossa democracia é representativa: nós delegamos as coisas para as quais não temos paciência, e saímos de cena para voltar a aparecer no dia das eleições. Como noutras situações mais prosaicas, pagamos a outros para que as façam por nós, e cada um deverá reflectir o quanto está disposto a pagar pela dispensa da sua parte na condução da sociedade. Interagimos com os eleitos apenas em manifestações de massas, umas vezes para os apoiar, a esmagadora maioria das vezes para os insultar. Ninguém está para ter trabalho adicional. Os políticos com que ficamos são assim um reflexo da nossa ausência de interesse, fazendo-se pagar proporcionalmente à sua raridade numa população que está mais interessada:

  1. Na catarse e no sentir-se bem consigo próprio que advém das actividades de grupo – a documentar e publicitar nas redes sociais, evidentemente;
  2. Em conjugar tal catarse com o passeio (ex. a Optimus D’Bandada) e o consumo conspícuo, em vez do assumir de formas de luta mais extenuantes – seja o protesto contínuo à grega/espanhola, seja a participação política activa supracitada;
  3. Em encontrar bodes-expiatórios e em demonizar Outros / Eles do que em reinvindicar coisas concretas, pois tal requer esforço intelectual e reconhecimento da complexidade e uso de lógica e da negociação e etc., coisas que não interessam muito a quem procura o ponto nº 1.

Esta é a verdadeira Troika, a nossa Troika.

A manifestação já começou entretanto, oiço as buzinas, abafadas talvez por dois quarteirões. Ficarei por aqui, a beber um chá, a comer bolachas e a ouvir música. Já exprimi a minha opinião, ficará aqui para quem a quiser ler, assim como para eu próprio a poder revisitar mais tarde. Tenho a certeza que todos ganharíamos mais se as centenas de milhar que se manifestam dedicassem este seu tempo e esforço a pensar nas complexidades e a pôr por escrito o que realmente reinvindicam e como – e não só do Estado mas dos restantes portugueses e sobretudo de si próprios. Perder-se-iam umas recordações e a sensação de ter ajudado a dar um recado mediático (cujos destinatários irão esquecer numa questão de dias se é que chegaram a prestar atenção), ganhar-se-iam ideias bem necessárias.

Reinvindiquemos consequências.

Senhoras e Senhores

Se há queixa recorrente feita pela mulher portuguesa, é a de que já não há Homens. Fragmentos de conversas ouvidas na rua, desabafos de amigas, coisas escritas nos blogues, no Facebook ou no Twitter aludem à evidência: não há gentlemen, não há Senhores.

Permitam-me refutar tal alegação, concordando: porque os gentlemen só existem numa sociedade onde existem ladies. Para sermos Senhores é necessário que haja Senhoras. As queixas não são um exclusivo do sexo feminino, são endémicas: a falta de cortesia não olha a sexos ou orientações. A maioria das pessoas é, muito simplesmente, rude e mal educada na sua relação com os outros.

Não sendo livre de pecados sociais peço desde já desculpa pelas generalizações. Reservo-me no entanto o direito de não descer do pedestal de onde emito estas opiniões, pois acredito na Regra de Ouro:

Tratarei os outros como quero ser tratado.

Se afirmar isto é sinal de arrogância nestes tempos bárbaros, que seja. A quem quiser resistir, comportar-se como um Senhor ou uma Senhora, deixo os seguintes conselhos unissexo:

a) As mensagens e as chamadas perdidas merecem uma resposta logo que oportuno. Se a celeridade não for genuinamente possível, a resposta deverá ser dada na mesma, ainda que no dia seguinte – comprometemo-nos a não questionar as razões do atraso. Os tarifários com SMSs gratuitos, aplicações como o Google Talk, o Facebook Messenger ou o Viber, e a Internet gratuita dos cafés conspiram para invalidar desculpas como a falta de saldo. É confortável chegar do trabalho, fumar uma ganza, ligar a televisão e ignorar o mundo, mas assim se constrói o futuro em que será o mundo a ignorar-nos a nós. Podemos comunicar gratuitamente com pessoas a doze fusos horários de distância, pelo que é tempo de entendermos aquilo que uma falta de resposta é – uma forma rude de sermos ignorados.  Isto também porque:

b) A palavra ‘não’ deve ser usada. O ignorar uma mensagem não é a mesma coisa que um ‘não’. Usemos as palavras que há para utilizar. Evidentemente que:

c) A resposta ‘não’ deve ser acatada. Aliás, qualquer resposta a uma pergunta nossa deve ser acatada. É por isso que perguntamos.

d) Os compromissos sociais são para se cumprir. Se prevemos poder vir a mudar de ideias, mais vale dizer de antemão que não iremos ao jantar, explicando, caso haja confiança para isso, qual a nossa expectativa alternativa. Assim, se a situação o permitir poderemos ser sempre uma surpresa de última hora. Um bom amigo compreenderá que não queiramos comprometer-nos com uma saída para copos porque esperamos a resposta de alguém em quem estamos romanticamente interessados, mas já não gostarão se nos cortarmos em cima da hora. Ninguém gosta de ‘cortes’:

e) As promessas são para se cumprir. Se digo que na próxima semana combinamos um café: na próxima semana ligo a propor tomarmos café. Se digo “amanhã ligo-te”, farei esse telefonema.

f) Os pontos deverão ser colocados nos ‘is’. Se convidar uma rapariga para sair, deverá ser evidente para ambos que provavelmente tenciono conhecê-la melhor enquanto pessoa, não como potencial sócia para um projecto de empreendedorismo a submeter ao QREN – nesse caso tê-lo-ia dito de antemão. Logo, tal convite deverá ser imediatamente recusado caso exista alguém com quem a rapariga convidada prefira estar (e não custa nada dizê-lo: “eu já ando com outra pessoa”). Eventuais dúvidas acerca da sua (potencial) relação com outro não me dizem respeito; se mesmo assim sentir que prefere conhecer-me, então deverá pedir-me para esperar até à semana seguinte: hoje é dia de ter uma conversa séria. E por falar nisso:

g) Dar falsas esperanças a alguém deve ser entendido como um crime social. A menos que a pessoa use aliança ou um colar com a palavra COMPROMETIDA escrita a cristais Swarovski, não é suposto ninguém descobrir por si que aquela pessoa que mal conhecemos e que aceitou o nosso convite para sair está, de facto, comprometida. Estando numa situação em que já desrespeitou a recomendação anterior, a última coisa que deve fazer é comportar-se como solteira, seja aceitando e devolvendo os flirts, seja elogiando-me, seja queixando-se de ex-namorados, seja fazendo planos para o futuro nos quais não tem qualquer interesse. A única saída algo digna para alguém que se colocou nessa situação será assumir o mais rapidamente possível a existência de uma outra pessoa, e levar a conversa subsequente a incidir em projectos de empreendedorismo a submeter ao QREN.

h) O dever de fidelidade não depende da existência de uma relação afectiva. Se vou sair com outra pessoa, ser-lhe-ei fiel até nos despedirmos. Mesmo saindo com uma amiga, não passarei o tempo a olhar para outras raparigas (embora neste caso até seja admissível apreciarmos outras pessoas, desde que discretamente e em cumplicidade). Não deixarei a pessoa com quem estou subitamente porque encontrei de forma fortuita outra pessoa com quem preferia estar – paciência, tivesse feito planos com essa pessoa -, nem desatarei a convidar pessoas para se juntarem a uma saída que tinha sido combinada a dois.

Existe todo um mundo de diferença entre ter pose e ter postura. Mulheres e Homens adultos, Senhoras e Senhores, ladies e gentlemen fazem-se não pelas roupas, mas pelas acções e pelas atitudes. Não tenho uma recomendação sobre como reagir quando uma pessoa nos trata da forma de que não gostaria de ser tratada. Tudo depende do relacionamento que já temos com a pessoa em causa, uma vez que não há melhor forma de sermos vistos como vilões do que censurarmos directamente o comportamento de alguém. Tendo a assumir que é muito difícil mudar outra pessoa, pelo que me resta afastar-me das pessoas quando a principal faceta que revelaram foi a falta de cortesia. Apenas a sociedade, como um todo, pode mudar os seus elementos.

Cabe-nos assim, aos resistentes, expor e ridicularizar os comportamentos selvagens. Tornêmo-los tão malcheirosos como a música que sai de telemóveis em alta-voz nos transportes públicos.

Mickey

Tiveste excelentes razões para nunca confiares nos seres humanos. Um amigo meu encontrou-te, fraco e indefeso, num contentor do lixo. Passaste os primeiros tempos de vida a saltar de lar em lar, pouco querido por quem relutantemente te acolhia. Pelo meio, foste baptizado de ‘gato Mickey’, um nome ao qual sempre achaste a piada que um trocadilho merece: pouca.

Tinhas cerca de meio ano, acolhemos-te em minha casa. Desconfiaste. Tratava-se de um lar onde ainda se estava de luto pelo anterior felídeo, Gaspar, que havia morrido subitamente com poucos meses de idade. Aconteceram-te coisas terríveis, que relutantemente aceitaste a troco de água, comida e superfícies fofas onde dormir. Certa ocasião, ainda te estavas a ambientar à nova casa, foste metido num caixote e levado para um sítio frio e asséptico onde te caparam. Aprendeste a temer aquele caixote, mas nada pudeste contra os vários cobardes subterfúgios dos teus companheiros humanos. Periodicamente vias-te enfiado naquele caixote terrível, levado para sítios estranhos onde vampiros de bata branca te retiravam sangue, onde te injectavam substâncias. Defendias-te como podias. Sentiste-te justamente insultado quando alguns dos humanos que te tiravam sangue te chamavam de “gato mau”.

Por tudo isto te peço desculpa.

Compreendo porque nunca me deixaste aproximar-me muito. Nem a mim nem a nenhum outro ser humano. Sabias que as festas servem apenas para contentamento desta minha outra espécie. De nada te serviam a ti, pelo que raramente as toleravas.

Presumo que tenhas pensado várias vezes em fugir. Saltaste para o muro do quintal, observaste os muros dos quintais vizinhos, nada intransponíveis para ti. Presumo que só mesmo a mágoa causada pela condição de eunuco te tenha impedido. De que te serviria a liberdade? Calculo que tenha sido com amargura que optaste pelo contentamento suave de uma almofada e de uma refeição garantida.

Mesmo apesar de tudo isto, foste capaz de ocasionais actos de generosidade para com os teus parceiros humanos, como daquela vez que nos ofereceste um rato, infelizmente exalando os seus últimos suspiros.

Entretanto passou mais de uma década de tolerância distante. Envelheceste. Surgiram coisas na tua condição de ser vivo que, desprovido de conhecimento científico, não tinhas como compreender. Apenas sabias que tinhas um papo na omoplata, que fazer xixi era difícil, que o fundo das costas te doía. Não sei se percebeste que foi o teu hálito forte que reintroduziu a queima de incenso lá em casa. Nada soubeste sobre doenças oncológicas ou problemas renais.

Perdeste o apetite. Não conseguimos ter uma explicação certa para isso.

Infligimos-te mais subterfúgio, mais terror. Retirámos-te sangue, injectamos-te substâncias. Ficaste enjaulado, com um tubo de soro preso a uma pata. Garanto-te que tudo foi feito com a melhor das intenções, mas entendo a tua perplexidade e dificuldade em compreender. Sentiste-te traído, vendo-me a colaborar com as vampiras de bata branca, a impedir-te de te defenderes enquanto te espetavam agulhas.

Mesmo assim deixaste-me fazer-te festas quando te visitei ontem pela última vez.  Talvez tenhas compreendido que o apetite jamais voltaria. Deixaste que te tapasse os ouvidos enquanto a minha mãe falava com a veterinária. Não merecias alguma vez ouvir as palavras ‘eutanásia’ ou ‘cremação’.

Baixaste a guarda e deixaste-me estar ali.

Foste um bom gato.