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XXXVI

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Aparentemente dei a minha 36ª volta completa à volta do Sol num certo dia da semana passada, o que me fez merecer as mais diversas felicitações. Por existir, aparentemente. Uma vez que a maioria dos dias a minha existência nem sequer merece repúdio, sendo simplesmente ignorada, não desdenho essas felicitações à minha existência e a mais uma involuntária circumnavegação do sistema solar. Além disto, a ocasião permite que se organizem uns jantares e beberetes onde posso reencontrar pessoas que não via há algum tempo – desde a última celebração idêntica, por vezes.

Apesar da gravidade com que se iniciam os 36 anos – com aquele efemérico acordar em que mais uma vez me ponho a reflectir nas coisas que tanta gente alcançou em menos tempo; isto é, a invejar o que desconheço – não finjo que não aprecio fazer anos. Gosto dos aniversários alheios mas sobretudo dos meus: dias em que não fica mal reclamar – ou exigir até – a atenção dos outros, tal fedelho mimado. Com 36 anos, perdemos a vergonha do mimo e da necessidade de afecto. Podemos tê-la andado a esconder, armados em jovens adultos, armados em jogadores com os afectos, invulneráveis. Pelo contrário, queremos aquilo a que todo o ser humano tem direito e que só por teimosia e mania desdenha. Abrace-se o mimo, e comam-se chocolates. Todos gostam de chocolates.

Coraçõezinhos

Ao cimo da rua onde vivo existe uma casa emparedada, onde me recordo ter funcionado uma padaria. Há uns tempos alguém pintou, e muito bem, uns corações vermelhos no cimento que tapa as janelas. Talvez sejam um comentário cínico à quantidade de habitações devolutas aqui na zona, ou porventura uma observação sobre número de likes e de outros coraçõezinhos digitais conquistados pela exploração pornográfica do abandono. Ou, uma ideia radical: talvez apenas sejam corações vermelhos e bonitos.

Sendo sensível à estética do abandono da pedra, do tijolo, do cimento e da telha (e quiçá com um lascivo vislumbre de azulejo), o que faz de mim um desses pornógrafos do abandono urbano, fotografei os tais stencils. Hoje já não o faria, pois julgo que estou muito perto do meu limite para o fetichismo da ruína: por um lado aborrecido, por outro mais sensível à mensagem que este passa: “Venha fazer um tour à Detroit da Europa! Depois de anoitecer pode provar as melhores torradas, bifanas e palmiéres do mundo em cafés gourmet onde raramente vou porque as pessoas com quem me encontraria lá tiveram que emigrar!”, & etc.

Seja como for, às 12:32 do dia 8 de Março de 2014 não tinha estas ideias presentes. Foi esse o momento em que tirei a seguinte foto, utilizando o VSCO Cam porque no que toca a software de telemóvel sou claramente um hipster.

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Como tenho as minhas aplicações e redes sociais interligadas através de uma complexa pichelaria, devo ter recebido a esperada meia-dúzia de coraçõezinhos no Instagram e de polegarzinhos erectos no Facebook. Esqueci a foto, ainda que continue a passar junto dos corações stencil quase diariamente.

Até ontem, Dia dos Namorados. A meio da tarde o meu telemóvel começa a receber toda uma torrente de amor na forma de notificações incessantes e que rapidamente começam a levar a bateria à exaustão. A foto que eu havia esquecido fora escolhida como ilustração de S. Valentim por alguém no marketing da VSCO Cam e um link para a minha conta no Instagram seria a minha única remuneração. Foram-me enviados dezenas e depois centenas de coraçõezinhos anónimos.

A torrente de notificações que recebi via Instagram no espaço de alguns minutos talvez represente o somatório de três minutos de apreço por uma humanidade anónima, mas ainda assim foram centenas de coraçõezinhos dirigidos no Dia dos Namorados a uma imagem que considero um comentário cínico sobre o abandono — sendo a ironia ainda maior uma vez que o fotógrafo em questão tem sido bastante inábil e algo desafortunado no que toca a assuntos do coração.

Foi-me inevitável ponderar o absurdo da situação. Estes coraçõezinhos do software quotidiano serão meros ideogramas de gosto, apreço, estima, muitas vezes por apenas meio segundo, raramente por mais que dez. Por isto não consigo considerar os emoji, quando usados como substantivos, como mais que eufemismos macabros. Valem um aceno ou um tímido gesto, e ainda assim vêm-se nas redes sociais pessoas que se referem às suas namoradas ou namorados como “a minha / o meu <3”; a ausência do deleite em assumir o amor por alguém transparece quando a ‘mais que tudo’ é a menos que três.

Ontem à noite dei um abraço de despedida a mais uma amiga, quase irmã, que vai emigrar. Ao menos vai fazê-lo por amor, e ainda não há emoji para esse gesto.

Sobre a abertura de garrafas de cerveja com um isqueiro

Ambiciono vir a tornar-me no género de pessoa que não necessita de nada nos bolsos. O facto de que carrego uma mochila no meu dia-a-dia demonstra o quão longe estou deste meu objectivo. Contudo, sempre achei que fumar me afastaria ainda mais, pelo que apesar de ter experimentado o ocasional tabaco festivo, nunca comprei um maço de cigarros. Conheço-me: um maço qualquer e um isqueiro de plástico não me satisfariam. Adoptaria o tabaco de enrolar e quereria ter toda a parafernália associada – uma boa máquina de enrolar, uma bonita mas discreta cigarreira, um bom isqueiro Zippo, um cinzeiro portátil. Mais tralha para os meus bolsos e para a minha mochila, onde já não me contento com um caderno e uma esferográfica, mas carrego diferentes cadernos para diferentes fins, esferográficas de várias cores, uma lapiseira e respectivas minas, etiquetas coloridas para me lembrar das páginas dos cadernos que clamam por uma acção.

Nas raras ocasiões em que tive isqueiros nos meus bolsos, trataram-se quase sempre de isqueiros perdidos ou esquecidos. Apesar dos meus amigos me aconselharem a ter sempre um isqueiro comigo de forma a poder assentir a solicitações femininas por lume, rapidamente devolvi, ofereci ou perdi tais isqueiros. Nunca desenvolvi assim grande perícia no manuseamento de tão elementar objecto, tendo falhado, na transição para a idade adulta, na aprendizagem da técnica de abertura de cápsulas de garrafas de cervejas.

Autor desconhecido.

Fui conhecendo desta forma múltiplas repetições da mesma milimétrica humilhação: Numa festa em casa de amigos, perguntando pelo abre-cápsulas para que pudesse abrir a mini Cristal que fora buscar ao frigorífico, alguém me estende o seu isqueiro Bic. Confesso a custo a minha falta de jeito, e que jamais fora capaz de abrir uma garrafa com um isqueiro. Asseguram-me, com uma certa dose de condescendência, que tal é um gesto simples. Tento então uma, tento duas vezes, e falho. A cápsula mantém-se imóvel enquanto o isqueiro me foge entre os dedos e apenas consigo estriar o plástico com a carica. Por vezes aleijo-me. Dizem-me que ainda lhes estrago o isqueiro, pedem-me a garrafa, abrem-ma com um gesto curto e eficiente. Durante o resto da noite, alguém me abre as cervejas enquanto me sinto alvo de pena, inferior.

Passei a seguir atentamente o posicionamento do abre-cápsulas nas festas a que ia, a sentir algum alívio perante frigoríficos atestados de minis SuperBock de abertura fácil ou de litrosas com tampa de enroscar. Considerei mesmo comprar um abre-cápsulas que andasse sempre comigo, sob disfarce de um porta-chaves conveniente. Apenas não o fiz por um imperativo moral, considerando que os meus bolsos, que ambiciono vazios, não deveriam carregar as minhas dificuldades com a abertura de garrafas de bebidas alcoólicas. Certas ocasiões, presumindo-me num ambiente acolhedor e simpático onde estaria rodeado de amigos, voltava a tentar a abertura de uma garrafa com um isqueiro. Falhei quase sempre; raras vezes consegui por fim soltar a cápsula através de força bruta e destruição. Gozei comigo próprio e proporcionei risos, risos comigo mas suspeitando que também de mim: um julgamento devido a um homem adulto que demonstra inépcia nas coisas simples. O homo erectus de uns paus fez o fogo, e aqui estava um sapiens sapiens que de um isqueiro não conseguia fazer uma alavanca.

Foi preciso pois chegar a dias do meu trigésimo quinto aniversário para que alguém me explicasse sucintamente que eu, sendo dextro, deveria segurar firme a garrafa com a mão direita e não com a esquerda. Consegui abrir a cápsula de uma Sagres média com um isqueiro Bic à primeira tentativa, e outras garrafas se seguiram.

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O Pedro, o Paulo e o António entram num bar…

Há uns tempos assisti a uma série de televisão chamada Rubicon. Assistimos ao seu protagonista a deslocar-se de bicicleta, bolsa a tira-colo, para uns escritórios com ar de indústria criativa, mas que na realidade pertencem a uma consultora externa dos serviços de informações americanos – o tipo de sítio de onde Edward Snowden copiou uns Powerpoints. Como boa série de espionagem, o nosso portagonista cedo descobre uma empreitada palaciana para deixar acontecer um atentado terrorista. É sobretudo pela forma como o grupo de conspiradores é nela retratado que Rubicon se distingue das demais séries do género: é-nos apresentado um grupo de antigos colegas de um colégio de topo com posições influentes hoje em dia (banqueiros, políticos, chefes de serviços secretos) que se encontra para pequenos-almoços em hóteis. À mesa, pelo meio do chá e das torradas, partilham cusquices sobre atentados terroristas em preparação por extremistas islâmicos e sobre se a sua ocorrência poderá ser financeiramente vantajosa. Estes velhos amigos são uma versão masculina e geoestratégica das mulheres de O Sexo e a Cidade, portanto. Nenhum destes homens usa avental ou chicote, nem há orgias rituais estilo Eyes Wide Shut; pelo contrário, em Rubicon tudo é terrivelmente vulgar e quotidiano: uns amigos bebem uns copos, falam das pessoas que conhecem (entre outras, do género das que fazem desaparecer cadáveres) e combinam jantares e formas de lucrar com a morte e a destruição alheia.

Escusado será dizer que a série foi cancelada ao final da primeira temporada.

No entanto, imagino que as reuniões do Clube Bilderberg sejam mais ou menos assim. Um líder de um partido que sustenta uma coligação num pequeno país diz, com uns gin tónicos pelo meio, que tenciona demitir-se porque o patrão no governo é um chato que não deslarga. Perguntam-lhe quando, ao que diz que ainda não sabe. Alguém atira uma data ao acaso, os restantes concordam. Alguém diz qualquer coisa tipo “porreiro, pá!” e venha daí mais uma rodada. Saiem uns iPhones dos bolsos, são colocados lembretes para que nesse dia sejam comprados títulos de dívida desse país. Entretanto o senhor do sofá ao lado diz-lhe que terá emprego no seu governo, assim como quem diz “tá tudo, não te preocupes que por mim não te falta nada.” O padrinho destes novos sócios antevê algumas mudanças lá nas suas empresas e começa a fazer contas à construção de novos cenários, assim um pouco mais cor-de-rosa, para novos programas de informação. Interroga-se se algum dos magnatas da comunicação presentes conhece um bom cenógrafo que faça baratinho. Entretanto um membro do Eurogrupo, mais animado uma vez que começou a beber ao pequeno almoço, começa a contar uma anedota:

“Do you know the one where Angela, François and Silvio walk into a bar?”

Dias mais tarde, títulos de dívida na posse daqueles que beberam uns copos naquela tarde de sábado em Hertfordshire, eis que sem surpresa Paulo Portas faz aquilo que sempre se soube que iria fazer. Qualquer conversa de estabilidade governativa era a vã promessa de quem conduz um carro cheio de explosivos sensíveis na bagageira e mesmo assim insiste em oferecer boleia para uma viagem por uma estrada acidentada.

Pelo menos os países não são cancelados ao final de umas temporadas.

Acho eu.