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	<title>O Procrastinador Profissional &#187; Geral</title>
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	<description>Observações e comentários preguiçosos, por Eduardo Morais.</description>
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		<title>Da ignorância</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Nov 2011 16:10:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Anda a circular por aí um vídeo que nos apresenta a &#8220;ignorância dos nossos estudantes universitários&#8221;. Vemos pessoas que, por total desconhecimento ou devido à pressão da súbita entrevista, são incapazes de dizer qual é a capital de Itália ou quem escreveu Os Maias. Divertimo-nos a ver este vídeo e damos-lhe &#8216;likes&#8217; ao mesmo tempo [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2011/11/da-ignorancia/">Da ignorância</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Anda a circular por aí um vídeo que nos apresenta a &#8220;ignorância dos nossos estudantes universitários&#8221;. Vemos pessoas que, por total desconhecimento ou devido à pressão da súbita entrevista, são incapazes de dizer qual é a capital de Itália ou quem escreveu <em>Os Maias</em>. Divertimo-nos a ver este vídeo e damos-lhe &#8216;likes&#8217; ao mesmo tempo que lamentamos a existência de pessoas tão burras. Culpamos o sistema educativo, os pais e os professores. E achamos que aqui está a prova de que temos razão: as novas gerações são incultas, estupidificadas e vão destruir o pouco que resta da nossa civilização. Porque nós sabemos que Roma é a capital de Itália, que o Eça de Queiroz escreveu <em>Os Maias</em>, e que o símbolo (sic) químico da água é H<sub>2</sub>O.</p>
<p>Pois bem. Se o estimado leitor reagiu com um &#8220;muito bem&#8221; ao parágrafo anterior, tenho o dever de o informar que o estimado leitor é na realidade o maior ignorante nesta história. Porque esta não é uma história da ignorância de alguns universitários que nunca jogaram muito Trivial Pursuit. Afinal, para que serve realmente saber que Roma é a capital de Itália? Sabe quais as capitais do Gabão e do Botswana? E se não sabe, é porque serão países menos importantes que Itália? Quem diz?</p>
<p>Caro leitor, esta é uma história sobre a ignorância dos <em>licenciados</em> (presumivelmente em jornalismo ou comunicação social) que terão sido responsáveis pelo vídeo. E uma história também sobre a ignorância dos muitos licenciados, mestres e doutores que terão acolhido tal &#8216;reportagem&#8217;, partilhado o vídeo nas redes sociais com vigor e aplauso apenas porque servia de prova dos seus preconceitos. É uma história sobre a vontade de generalizar anedotas e calinadas, e sobre a vontade de manipular e ser manipulado. Independentemente do motivo ser político ou apenas dar umas risadas.</p>
<p>Na letra pequena abaixo do tal vídeo lê-se que foram entrevistados 100 alunos, e a cada um foram colocadas vinte questões. Em lado algum nos é dado um número &#8211; quantas respostas foram erradas? Dez porcento? Vinte? Ou oitenta? Apenas nos é dada &#8220;a ignorância dos universitários&#8221; e um &#8216;best-of&#8217; de respostas escolhidas pelo seu potencial cómico. Constata-se que os responsáveis pelo vídeo não foram medir o nivel de cultura geral dos universitários (e com uma falta de rigor estatístico aterrador): Foram sim arranjar umas quantas calinadas para poderem montar este vídeo. A isto não se chama jornalismo, chama-se propaganda. E para prova da total falta de ética destes senhores veja-se o intertítulo &#8220;qual é a fórmula química da água?&#8221;, que numa primeira versão se lia &#8220;qual o símbolo químico&#8221;. Pois com total despudor seguem-se imagens de jovens a meter os pés pelas mãos a uma pergunta mal formulada, como se a pergunta certa tivesse sido colocada.</p>
<p>Isto não é jornalismo. É uma merda. Gostar de chafurdar nela é bem pior que a falta de cultura geral.</p>
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		<title>Requiem por uma mercearia</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Sep 2011 17:20:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje é dia de reentré para a Baixa do Porto. Regressam as ditas inaugurações nas galerias de dita arte na Rua Miguel Bombarda e arredores, e com estas regressa o pretexto para umas iniciativas e uns eventos coincidentes, em que o comércio se anima na expectativa de atrair a estima, mas sobretudo, o escasso dinheiro das [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2011/09/requiem-por-uma-mercearia/">Requiem por uma mercearia</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje é dia de <em>reentré</em> para a Baixa do Porto. Regressam as ditas <em>inaugurações</em> nas galerias de dita <em>arte</em> na Rua Miguel Bombarda e arredores, e com estas regressa o pretexto para umas <em>iniciativas</em> e uns <em>eventos</em> coincidentes, em que o comércio se anima na expectativa de atrair a estima, mas sobretudo, o escasso dinheiro das pessoas que vêm passear para a zona central do Porto, e que hoje mostram as suas melhores roupas e o seu melhor sotaque a-portuense na esperança de encontrar e impressionar colegas de trabalho; e o fazem à custa de entupir os acessos à zona e encher de monóxido de carbono uma zona que até costuma ser aprazível, mesmo em horas idênticas durante os dias de semana.</p>
<p>As ruas da Baixa enchem-se de jovens, muitos deles trajados como certamente encaminhados para as escolas artísticas e para a exploração às mãos das ditas <em>indústrias criativas</em>. Hoje têm o mundo a seus pés, vestem-se impecávelmente, são felizes e carregam os seus brinquedos preferidos. Entristece-me saber que muitos estão ali, de forma inconsciente, no auge das suas vidas. Temo pelo futuro deles num sistema sócio-económico insustentável, mas também pelo meu: que crimes horrendos poderão vir a cometer estes jovens alegres, de Wayfarers coloridos e expressões saídas de um anúncio a telemóveis ou cerveja, para que este Sábado se possa prolongar para o resto das suas vidas. A que estarão dispostos os jovens casais, para manter o passeio e o consumo? Uma eventual futura polícia política também andará a passear pelas inaugurações.</p>
<p>Não sou, apesar da minha visão das coisas, um espectador soturno que se esconde nas sombras: integro-me, mais ou menos. Calças Benetton (dos saldos), pólo Nike (dos saldos) e óculos castanhos estilo os tais Wayfarers &#8211; de inspiração e não de imitação &#8211; comprados precisamente no tal Centro Comercial Bombarda há uns anos (e fora dos saldos). A não ser pelo pormenor de não me deter muito nos sítios e por me encontrar sem companhia, julgo que passo bem por figurante. Não consigo é deixar de me sentir desconfortável com o que me rodeia, e apesar de tudo sinto-me como se estivesse sem disfarce nesta festa de Carnaval Capitalista &#8211;  ou como um homem sóbrio na Queima das Fitas.</p>
<p>Na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, existia uma mercearia. Não me lembro com precisão se alguma vez lá tinha entrado. Talvez, a caminho de um jantar em casa de uma amiga que vivia na zona há uns anos, ainda antes de ter aberto o Minipreço, tenha lá comprado uma garrafa de vinho. Talvez também tenha acompanhado alguém a comprar tabaco lá &#8211; de alguma forma sei que essa mercearia vendia tabaco, e eu não fumo.</p>
<p>Aquilo que encontrei hoje, na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, foi a inauguração de uma loja com umas coisas que normalmente são descritas como <em>design</em> mas que não tenho a certeza que sejam. Um daqueles entreténs para quem está à vontade para suportar rendas caras. Entristeceu-me.</p>
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		<title>Uma humilde proposta</title>
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		<pubDate>Sat, 21 May 2011 16:37:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já expressei por diversas vezes a minha opinião de que as eleições que se aproximam são essencialmente uma escolha entre uma parede e uma espada. Temos, no lado do &#8216;sistema&#8217;, um partido desgastado e situacionista e que a crer nos media é liderado por Satanás em pessoa; e dois partidos que crêem entusiasmada e verdadeiramente [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2011/05/uma-humilde-proposta/">Uma humilde proposta</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Já expressei por diversas vezes a minha opinião de que as eleições que se aproximam são essencialmente uma escolha entre uma parede e uma espada. Temos, no lado do &#8216;sistema&#8217;, um partido desgastado e situacionista e que a crer nos <em>media</em> é liderado por Satanás em pessoa; e dois partidos que crêem entusiasmada e verdadeiramente neste capitalismo-turbo, tal o brilho pleno de fé nos olhos dos respectivos líderes. Do outro lado, dois partidos pelo Não a uma boa parte das injustiças vigentes, votos úteis para marcar uma posição, mas que infelizmente se esquecem que o Mundo é muito grande e complexo; algumas das suas propostas bem-intencionadas seriam um pouco como acabar com as energias nuclear e fóssil de um dia para o outro &#8211; tanta fogueira acesa e tanto alimento estragado não faria nem bem ao ambiente nem à saúde.</p>
<p>De qualquer modo, espero que o futuro governo &#8211; qualquer que seja &#8211; siga a minha humilde proposta para o sector dos <em>media</em>, que é para mim o principal factor de irritação e crispação na actualidade: Todos os meios de comunicação social deveriam ser legalmente obrigados a adoptar o nome do seu presidente, director ou principal accionista.</p>
<p>Ou seja: quando SIC Notícias coloca, debaixo de uma intervenção em que Jerónimo de Sousa diz que PS, PSD e CDS são gatunos, a legenda tecnicamente verdadeira &#8220;Jerónimo de Sousa diz que PS são gatunos&#8221;, temos uma leitura &#8211; especialmente se não prestarmos muita atenção ou se virmos isto no café, onde a TV está sem som. Seria no entanto totalmente diferente ver isto na Pinto Balsemão Notícias. Da mesma forma, uma sondagem do jornal Belmiro não será bem o mesmo que uma sondagem do jornal Público; uma entrevista na RTP não é bem o mesmo que uma entrevista na Televisão com Funcionários Públicos; um furo da Rádio Renascença não será o mesmo que um furo da Igreja Católica.</p>
<p>Fico a aguardar uma resposta do futuro governo a esta reivindicação, que não acarreta qualquer custo adicional para o Estado nestes tempos austeros que vivemos.</p>
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		<title>Se não sabem fazer, copiem</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Nov 2010 18:26:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quando manuseio livros de editoras de lingua inglesa como a Routledge, a Faber &#38; Faber ou (no caso do livro técnico) da O&#8217;Reilly, tenho sempre um impulso comprador. São bem paginados, com boa tipografia, papel razoável e capas que sem dourados nem baixos-relevos tornam estes livros em objectos imensamente apetecíveis. Que compõem bem a sala. [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2010/11/se-nao-sabem-fazer-copiem/">Se não sabem fazer, copiem</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando manuseio livros de editoras de lingua inglesa como a Routledge, a Faber &amp; Faber ou (no caso do livro técnico) da O&#8217;Reilly, tenho sempre um <em>impulso comprador</em>. São bem paginados, com boa tipografia, papel razoável e capas que sem dourados nem baixos-relevos tornam estes livros em objectos imensamente apetecíveis. Que compõem bem a sala.</p>
<p>Será que nunca ninguém das editoras portuguesas viu tais edições? O que encontramos, regra geral, é péssima paginação, abuso de papel (com recurso a tamanhos de letra excessivamente grandes), e tipografia catastrófica. Uma das principais editoras nacionais de livros técnicos alia o uso de Comic Sans à incapacidade de usar tipos de letra distintos (e em tamanhos grandes) para texto explicativo e código de programação. O resultado é uma cagada ilegível. E fiquemo-nos pela forma&#8230;</p>
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		<title>O Carro</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Aug 2009 00:55:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tenho um carro. É um Fiat Punto de primeiríssima geração, fabricado pela marca de Turim em 1995. É um carro vulgar, motor de 1.1 litros e 55cv de potência, e uma pintura cor de ratazana metalizada. A única excepcionalidade reside na caixa de seis velocidades, algo que deve ter parecido boa ideia a algum engenheiro [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2009/08/o-carro/">O Carro</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho um carro. É um Fiat Punto de primeiríssima geração, fabricado pela marca de Turim em 1995. É um carro vulgar, motor de 1.1 litros e 55cv de potência, e uma pintura cor de ratazana metalizada. A única excepcionalidade reside na caixa de seis velocidades, algo que deve ter parecido boa ideia a algum engenheiro transalpino com uma tendência excessiva para o consumo de bebidas alcoólicas. Esta caixa armada em especial de corrida é a razão pela qual a minha condução requer que eu mexa na manete das mudanças mais que o normal, o que me dá a fama de nervosinho ao volante. O carro tem ainda um risco na mala, duas amolgadelas na porta, um auto-rádio que não funciona e um limpa pára-brisas disfuncional. Em compensação tem também encostos de cabeça, vidros eléctricos, e a patina resultante de dez anos a ser estacionado na rua.</p>
<p>O meu Punto já foi assaltado diversas vezes (embora os bens furtados se tenham resumido a um colete reflector, umas fotocópias de Teoria e Crítica da Arte, e uma cassette), pelo que entretanto comprei um daqueles apetrechos que bloqueiam o volante. Mas aparte a questão da mobilidade que tento limitar a terceiros porque a gasolina é cara, vejo o meu carro como um espaço público sobre rodas. Lavo-o porque me chateia conduzir com lama no pára-brisas, e devo tê-lo aspirado pela última vez há uns cinco anos. Há coisas mais importantes na vida do que aspirar o carro. Incluindo não fazer nada.</p>
<p>Tendo 14 anos e uma quilometragem que já passou a centena de milhar, há quem possa dizer que se trata de um carro &#8216;velho&#8217;. Eu discordo. É &#8216;antigo&#8217;. O Fiat anda de A para B com pouca manutenção. Tenho poupanças que me permitiriam comprar um carro recente, talvez mesmo novo, mas sinceramente preferia gastá-las em SuperBock ou coisas ainda mais úteis. Além disso ainda há uns meses fiz um <em>upgrade</em> que consistiu na compra de uns tampões para as jantes no Continente.</p>
<div id="attachment_141" class="wp-caption alignnone" style="width: 510px"><img class="size-full wp-image-141" title="Um BMW com ar de mau" src="http://www.cafeina.org/ed/wp-content/uploads/2009/08/154284634_500.jpg" alt="Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja." width="500" height="321" /><p class="wp-caption-text">Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja.</p></div>
<p>Nunca criei uma relação afectiva com o meu carro. Nunca lhe chamei Bolinhas ou Antunes. É somente O Meu Carro. Que, se um dia puder dispensar, gostaria de empurrar por uma ribanceira abaixo, ficando depois a vê-lo explodir &#8211; segurando na mão direita uma câmara, na mão esquerda um Martini, azeitona verde  no fundo do copo.</p>
<p>O único problema é que evidentemente este meu comportamento de desprezo para com o veículo que conduzo vai contra as normas sociais vigentes. Possuir uma viatura com mais de uma década e que requeira pouca manutenção é visto como uma forma de quase-indigência, enquanto se requerer muita manutenção é sinal de riqueza. É notável como o meu estatuto social aumenta automaticamente quando estou fora da cidade &#8211; não tenho o hábito de levar o meu carro para fora. Mas quando estou no Porto, passo a ser um cidadão de segunda sempre que esteja dentro ou junto da minha viatura. Páro no semáforo e o condutor ao meu lado ou o peão na passadeira põe um ar de superioridade, queixo subido e sorriso contido, como se o carro fosse o reflexo do valor da pessoa que o conduz. Mas pior é tentar obter uma cedência de passagem. É o <em>apartheid</em> automobilístico.</p>
<p>Certas mulheres olham para o Punto com desconfiança, e depois olham para mim com desconfiança. Se vamos sair e por alguma razão ou lhes dou boleia ou vêm o que conduzo, passam a noite a tentar averiguar, de formas que variam entre as mais directas e as mais subtis, se o carro é uma excentricidade, o verdadeiro reflexo das minhas possibilidades, ou consequência da minha avareza (o lixo electrónico que tenho em casa discorda). Como não têm nada a ver com isso, é normalmente a partir desse ponto que surgem as mensagens que dizem <em>&#8220;estou muito ocupada&#8221; </em>e coisas do género (como se uma mulher interessada não arranjasse tempo para café), para minha total falta de surpresa.</p>
<p>Entrámos no território do <a href="http://www.cafeina.org/ed/2009/04/morte-ao-principe-encantado/">Boi do Príncipe</a>, do Ken à escala 1:1: tal como para muitos a progressão natural da vida é Curso, Trabalho, Casamento, Filhos, Crise dos 40, Divórcio, Casamento, Filhos e Morte, aparentemente há também uma Progressão Natural das Dívidas &#8211; o Carro, a Casa, seguida da Mobília e de uma série de electrodomésticos organizados por prioridades, da Televisão à Câmara de Vídeo. E o Príncipe Encantado já não é o <em>knight in a shining armor</em>, mas aquele quem tem o maior número de objectos prateados dentro desta ordem de prioridades.</p>
<p>Há uns tempos vi no outro lado da rua uma rapariga com quem saí há uns tempos e que me recordo ter sido extremamente frontal quando me perguntou quanto é que eu ganhava na nossa primeira e única saída. O seu actual namorado seguia dez passos agressivos à frente, numa cena que me trouxe memórias esquecidas dos meses que precederam o divórcio dos meus pais. Havia também uma promessa de violência no andar do senhor. Cobarde como sou, virei-me para uma montra, escondendo-me enquanto assistia ao desenrolar da cena através do reflexo. Ela entrou para um carro de grande cilindrada, de traseira gorda e pintura prateada teutónica. Pensei, sem por um momento duvidar que estava a sentir um misto de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Schadenfreude"><em>Schadenfreude</em></a> e amargura: ela tem o que queria. Afinal está tudo bem.</p>
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