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XXXVI

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Aparentemente dei a minha 36ª volta completa à volta do Sol num certo dia da semana passada, o que me fez merecer as mais diversas felicitações. Por existir, aparentemente. Uma vez que a maioria dos dias a minha existência nem sequer merece repúdio, sendo simplesmente ignorada, não desdenho essas felicitações à minha existência e a mais uma involuntária circumnavegação do sistema solar. Além disto, a ocasião permite que se organizem uns jantares e beberetes onde posso reencontrar pessoas que não via há algum tempo – desde a última celebração idêntica, por vezes.

Apesar da gravidade com que se iniciam os 36 anos – com aquele efemérico acordar em que mais uma vez me ponho a reflectir nas coisas que tanta gente alcançou em menos tempo; isto é, a invejar o que desconheço – não finjo que não aprecio fazer anos. Gosto dos aniversários alheios mas sobretudo dos meus: dias em que não fica mal reclamar – ou exigir até – a atenção dos outros, tal fedelho mimado. Com 36 anos, perdemos a vergonha do mimo e da necessidade de afecto. Podemos tê-la andado a esconder, armados em jovens adultos, armados em jogadores com os afectos, invulneráveis. Pelo contrário, queremos aquilo a que todo o ser humano tem direito e que só por teimosia e mania desdenha. Abrace-se o mimo, e comam-se chocolates. Todos gostam de chocolates.

Medo do acaso

Porque é que há tanta gente com tanto medo do acaso?

Há muita gente incapaz de aproveitar as oportunidades que encerra um encontro casual, no café ou no meio da rua. Oportunidades para dialogar, oportunidades para conhecer, oportunidades para o afecto e oportunidades para a acção – para fazer planos, para partilhar um momento, para alegrar um dia – são encaradas com negligência e com uma apatia assassina. As pessoas abreviam as conversas por pressas porventura imaginárias, desencravam os acasos com variações sobre um “então vá, depois diz coisas”, palavra-chave “depois”. Garantem que os encontros ocasionais não possam senão ser inconsquentes. Tentam que qualquer incidente proporcionado pelo acaso seja rapidamente esquecido.

Será que tais acasos lhes recordam a arbitrariedade da vida?

Como se o papel da sorte pudesse ser revogado pela indiferença. Como se apenas as acções deliberadas contassem. Pobres control freaks, incapazes de abraçar os felizes acasos como se tal implicasse admitir o infortúnio. Pois este não se preocupa com a nossa opinião. A felicidade, contudo, é evitável.

Boas famílias

Há uns tempos uma amiga com quem fui tomar café contou-me como um relacionamento seu tinha terminado devido à sua incapacidade em ser percepcionada como sendo de boas famílias por um parceiro que, depreendo eu, seria então de boas famílias. Embora nunca tenha estado numa posição em que a ausência de bondade na minha família fosse determinante no final de uma relação (embora possa ter, porventura, impedido inícios), não deixo de partilhar a indignação e a decepção da minha amiga. Conheço pessoas de boas famílias. Até podemos beber copos juntos, podemos rir-nos juntos, ocasionalmente até dormir juntos. Mas em Portugal, diz-me com quem andas no Natal e na Páscoa e dir-te-ei quem és.

Presumo que tanto eu como a minha amiga sejamos de más famílias. Daquelas em que o pai é um mecânico de automóveis e a mãe angaria gente para esquemas em pirâmide. Ou pior, seremos do povo, aquela massa humana amorfa que nem sequer tem direito a integrar uma dicotomia: os rafeiros numa espécie que afinal é de cães. Ou cavalos.

Mickey

Tiveste excelentes razões para nunca confiares nos seres humanos. Um amigo meu encontrou-te, fraco e indefeso, num contentor do lixo. Passaste os primeiros tempos de vida a saltar de lar em lar, pouco querido por quem relutantemente te acolhia. Pelo meio, foste baptizado de ‘gato Mickey’, um nome ao qual sempre achaste a piada que um trocadilho merece: pouca.

Tinhas cerca de meio ano, acolhemos-te em minha casa. Desconfiaste. Tratava-se de um lar onde ainda se estava de luto pelo anterior felídeo, Gaspar, que havia morrido subitamente com poucos meses de idade. Aconteceram-te coisas terríveis, que relutantemente aceitaste a troco de água, comida e superfícies fofas onde dormir. Certa ocasião, ainda te estavas a ambientar à nova casa, foste metido num caixote e levado para um sítio frio e asséptico onde te caparam. Aprendeste a temer aquele caixote, mas nada pudeste contra os vários cobardes subterfúgios dos teus companheiros humanos. Periodicamente vias-te enfiado naquele caixote terrível, levado para sítios estranhos onde vampiros de bata branca te retiravam sangue, onde te injectavam substâncias. Defendias-te como podias. Sentiste-te justamente insultado quando alguns dos humanos que te tiravam sangue te chamavam de “gato mau”.

Por tudo isto te peço desculpa.

Compreendo porque nunca me deixaste aproximar-me muito. Nem a mim nem a nenhum outro ser humano. Sabias que as festas servem apenas para contentamento desta minha outra espécie. De nada te serviam a ti, pelo que raramente as toleravas.

Presumo que tenhas pensado várias vezes em fugir. Saltaste para o muro do quintal, observaste os muros dos quintais vizinhos, nada intransponíveis para ti. Presumo que só mesmo a mágoa causada pela condição de eunuco te tenha impedido. De que te serviria a liberdade? Calculo que tenha sido com amargura que optaste pelo contentamento suave de uma almofada e de uma refeição garantida.

Mesmo apesar de tudo isto, foste capaz de ocasionais actos de generosidade para com os teus parceiros humanos, como daquela vez que nos ofereceste um rato, infelizmente exalando os seus últimos suspiros.

Entretanto passou mais de uma década de tolerância distante. Envelheceste. Surgiram coisas na tua condição de ser vivo que, desprovido de conhecimento científico, não tinhas como compreender. Apenas sabias que tinhas um papo na omoplata, que fazer xixi era difícil, que o fundo das costas te doía. Não sei se percebeste que foi o teu hálito forte que reintroduziu a queima de incenso lá em casa. Nada soubeste sobre doenças oncológicas ou problemas renais.

Perdeste o apetite. Não conseguimos ter uma explicação certa para isso.

Infligimos-te mais subterfúgio, mais terror. Retirámos-te sangue, injectamos-te substâncias. Ficaste enjaulado, com um tubo de soro preso a uma pata. Garanto-te que tudo foi feito com a melhor das intenções, mas entendo a tua perplexidade e dificuldade em compreender. Sentiste-te traído, vendo-me a colaborar com as vampiras de bata branca, a impedir-te de te defenderes enquanto te espetavam agulhas.

Mesmo assim deixaste-me fazer-te festas quando te visitei ontem pela última vez.  Talvez tenhas compreendido que o apetite jamais voltaria. Deixaste que te tapasse os ouvidos enquanto a minha mãe falava com a veterinária. Não merecias alguma vez ouvir as palavras ‘eutanásia’ ou ‘cremação’.

Baixaste a guarda e deixaste-me estar ali.

Foste um bom gato.

Relações Internacionais (3/3 de uma série)

Não foi assim há tanto tempo, mas foi numa época em os Trintas ainda não me pesavam no espírito e eu era capaz de sair à Aventura, sabendo que se frequentasse certos locais iria quase certamente encontrar alguém conhecido e/ou com quem partilhar o resto da noite. Era uma época em que eu podia entrar num bar, luz assim meio para o escuro, pedir um fino, sentar-me, sacar do meu bloco de notas e escrever planos, listas, observações, sem me sentir uma criatura deslocada; com pouca daquela irritante auto-consciência. Uma época antes de os empregos e desempregos, os filhos e os cônjuges,  as pós-graduações e os desentendimentos terem minimizado a possibilidade de encontros acidentais.

Portanto, talvez numa sexta-feira há cerca de dois ou três anos – que me parece agora há uma outra vida -, eu estava sentado num daqueles café-bares da Baixa, a escrevinhar coisas no meu caderno. Sentara-me a uma mesa de canto depois de ter ido ao balcão buscar um café e um fino. A noite ainda estava no início, e aquela seria apenas a primeira paragem. A expectativa de encontrar alguém conhecido era alta, assim como a vontade e a motivação de conhecer pessoas novas, um estado de espírito raro e que eu sentia o dever de aproveitar. Não me havia apercebido que tinha ocupado a última mesa disponível. Fui interpelado, de súbito:

– “Excuse me, can we sit at your table?”

Eram duas raparigas de aspecto e sotaque centro-europeu, segurando copos de vinho tinto. Alemãs? Checas? Polacas?

– “Yeah, sure!”

Poderia a noite ser mais promissora? A rapariga loira, baixa e desinteressante, sentou-se à minha frente. A outra rapariga, bastante alta, de cabelo longo pintado de preto como é costume nas nórdicas, sentou-se entre nós, à minha esquerda. Dobrou as pernas longas sobre a cadeira comicamente subdimensionada, ficando como se estivesse a levitar. Foi, de uma forma que não consigo descrever, o sentar mais sensual que já vira, um gesto que não deixava espaço senão a pensamentos de sexo. Fui incapaz de ignorar o modo como o seu vestido cinza, feito de um qualquer material têxtil altamente experimental, era ligeiramente largo e era moldado pelo seu corpo (ao invés de moldar o corpo), como as leggings pretas tinham uma muito ligeira textura, uma espécie de segunda pele para aquelas incríveis pernas. Não me lembro da cara dela. Devia ser normal.

Queria ir para a cama com a rapariga alta. Todo o episódio era igual ao início de um enredo pornográfico, portanto porque não continuar? Duas turistas vindas do norte da Europa, também à Aventura. Apesar da minha tez pálida e da falta de bigode e pilosidade peitoral, queria muito ser o ‘macho latino’. Se me perguntassem o que é que eu fazia, até gracejaria: canalizador, gajo que entrega pizzas.

Pois, não teria piada.

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