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Boas famílias

Há uns tempos uma amiga com quem fui tomar café contou-me como um relacionamento seu tinha terminado devido à sua incapacidade em ser percepcionada como sendo de boas famílias por um parceiro que, depreendo eu, seria então de boas famílias. Embora nunca tenha estado numa posição em que a ausência de bondade na minha família fosse determinante no final de uma relação (embora possa ter, porventura, impedido inícios), não deixo de partilhar a indignação e a decepção da minha amiga. Conheço pessoas de boas famílias. Até podemos beber copos juntos, podemos rir-nos juntos, ocasionalmente até dormir juntos. Mas em Portugal, diz-me com quem andas no Natal e na Páscoa e dir-te-ei quem és.

Presumo que tanto eu como a minha amiga sejamos de más famílias. Daquelas em que o pai é um mecânico de automóveis e a mãe angaria gente para esquemas em pirâmide. Ou pior, seremos do povo, aquela massa humana amorfa que nem sequer tem direito a integrar uma dicotomia: os rafeiros numa espécie que afinal é de cães. Ou cavalos.

Senhoras e Senhores

Se há queixa recorrente feita pela mulher portuguesa, é a de que já não há Homens. Fragmentos de conversas ouvidas na rua, desabafos de amigas, coisas escritas nos blogues, no Facebook ou no Twitter aludem à evidência: não há gentlemen, não há Senhores.

Permitam-me refutar tal alegação, concordando: porque os gentlemen só existem numa sociedade onde existem ladies. Para sermos Senhores é necessário que haja Senhoras. As queixas não são um exclusivo do sexo feminino, são endémicas: a falta de cortesia não olha a sexos ou orientações. A maioria das pessoas é, muito simplesmente, rude e mal educada na sua relação com os outros.

Não sendo livre de pecados sociais peço desde já desculpa pelas generalizações. Reservo-me no entanto o direito de não descer do pedestal de onde emito estas opiniões, pois acredito na Regra de Ouro:

Tratarei os outros como quero ser tratado.

Se afirmar isto é sinal de arrogância nestes tempos bárbaros, que seja. A quem quiser resistir, comportar-se como um Senhor ou uma Senhora, deixo os seguintes conselhos unissexo:

a) As mensagens e as chamadas perdidas merecem uma resposta logo que oportuno. Se a celeridade não for genuinamente possível, a resposta deverá ser dada na mesma, ainda que no dia seguinte – comprometemo-nos a não questionar as razões do atraso. Os tarifários com SMSs gratuitos, aplicações como o Google Talk, o Facebook Messenger ou o Viber, e a Internet gratuita dos cafés conspiram para invalidar desculpas como a falta de saldo. É confortável chegar do trabalho, fumar uma ganza, ligar a televisão e ignorar o mundo, mas assim se constrói o futuro em que será o mundo a ignorar-nos a nós. Podemos comunicar gratuitamente com pessoas a doze fusos horários de distância, pelo que é tempo de entendermos aquilo que uma falta de resposta é – uma forma rude de sermos ignorados.  Isto também porque:

b) A palavra ‘não’ deve ser usada. O ignorar uma mensagem não é a mesma coisa que um ‘não’. Usemos as palavras que há para utilizar. Evidentemente que:

c) A resposta ‘não’ deve ser acatada. Aliás, qualquer resposta a uma pergunta nossa deve ser acatada. É por isso que perguntamos.

d) Os compromissos sociais são para se cumprir. Se prevemos poder vir a mudar de ideias, mais vale dizer de antemão que não iremos ao jantar, explicando, caso haja confiança para isso, qual a nossa expectativa alternativa. Assim, se a situação o permitir poderemos ser sempre uma surpresa de última hora. Um bom amigo compreenderá que não queiramos comprometer-nos com uma saída para copos porque esperamos a resposta de alguém em quem estamos romanticamente interessados, mas já não gostarão se nos cortarmos em cima da hora. Ninguém gosta de ‘cortes’:

e) As promessas são para se cumprir. Se digo que na próxima semana combinamos um café: na próxima semana ligo a propor tomarmos café. Se digo “amanhã ligo-te”, farei esse telefonema.

f) Os pontos deverão ser colocados nos ‘is’. Se convidar uma rapariga para sair, deverá ser evidente para ambos que provavelmente tenciono conhecê-la melhor enquanto pessoa, não como potencial sócia para um projecto de empreendedorismo a submeter ao QREN – nesse caso tê-lo-ia dito de antemão. Logo, tal convite deverá ser imediatamente recusado caso exista alguém com quem a rapariga convidada prefira estar (e não custa nada dizê-lo: “eu já ando com outra pessoa”). Eventuais dúvidas acerca da sua (potencial) relação com outro não me dizem respeito; se mesmo assim sentir que prefere conhecer-me, então deverá pedir-me para esperar até à semana seguinte: hoje é dia de ter uma conversa séria. E por falar nisso:

g) Dar falsas esperanças a alguém deve ser entendido como um crime social. A menos que a pessoa use aliança ou um colar com a palavra COMPROMETIDA escrita a cristais Swarovski, não é suposto ninguém descobrir por si que aquela pessoa que mal conhecemos e que aceitou o nosso convite para sair está, de facto, comprometida. Estando numa situação em que já desrespeitou a recomendação anterior, a última coisa que deve fazer é comportar-se como solteira, seja aceitando e devolvendo os flirts, seja elogiando-me, seja queixando-se de ex-namorados, seja fazendo planos para o futuro nos quais não tem qualquer interesse. A única saída algo digna para alguém que se colocou nessa situação será assumir o mais rapidamente possível a existência de uma outra pessoa, e levar a conversa subsequente a incidir em projectos de empreendedorismo a submeter ao QREN.

h) O dever de fidelidade não depende da existência de uma relação afectiva. Se vou sair com outra pessoa, ser-lhe-ei fiel até nos despedirmos. Mesmo saindo com uma amiga, não passarei o tempo a olhar para outras raparigas (embora neste caso até seja admissível apreciarmos outras pessoas, desde que discretamente e em cumplicidade). Não deixarei a pessoa com quem estou subitamente porque encontrei de forma fortuita outra pessoa com quem preferia estar – paciência, tivesse feito planos com essa pessoa -, nem desatarei a convidar pessoas para se juntarem a uma saída que tinha sido combinada a dois.

Existe todo um mundo de diferença entre ter pose e ter postura. Mulheres e Homens adultos, Senhoras e Senhores, ladies e gentlemen fazem-se não pelas roupas, mas pelas acções e pelas atitudes. Não tenho uma recomendação sobre como reagir quando uma pessoa nos trata da forma de que não gostaria de ser tratada. Tudo depende do relacionamento que já temos com a pessoa em causa, uma vez que não há melhor forma de sermos vistos como vilões do que censurarmos directamente o comportamento de alguém. Tendo a assumir que é muito difícil mudar outra pessoa, pelo que me resta afastar-me das pessoas quando a principal faceta que revelaram foi a falta de cortesia. Apenas a sociedade, como um todo, pode mudar os seus elementos.

Cabe-nos assim, aos resistentes, expor e ridicularizar os comportamentos selvagens. Tornêmo-los tão malcheirosos como a música que sai de telemóveis em alta-voz nos transportes públicos.

Mickey

Tiveste excelentes razões para nunca confiares nos seres humanos. Um amigo meu encontrou-te, fraco e indefeso, num contentor do lixo. Passaste os primeiros tempos de vida a saltar de lar em lar, pouco querido por quem relutantemente te acolhia. Pelo meio, foste baptizado de ‘gato Mickey’, um nome ao qual sempre achaste a piada que um trocadilho merece: pouca.

Tinhas cerca de meio ano, acolhemos-te em minha casa. Desconfiaste. Tratava-se de um lar onde ainda se estava de luto pelo anterior felídeo, Gaspar, que havia morrido subitamente com poucos meses de idade. Aconteceram-te coisas terríveis, que relutantemente aceitaste a troco de água, comida e superfícies fofas onde dormir. Certa ocasião, ainda te estavas a ambientar à nova casa, foste metido num caixote e levado para um sítio frio e asséptico onde te caparam. Aprendeste a temer aquele caixote, mas nada pudeste contra os vários cobardes subterfúgios dos teus companheiros humanos. Periodicamente vias-te enfiado naquele caixote terrível, levado para sítios estranhos onde vampiros de bata branca te retiravam sangue, onde te injectavam substâncias. Defendias-te como podias. Sentiste-te justamente insultado quando alguns dos humanos que te tiravam sangue te chamavam de “gato mau”.

Por tudo isto te peço desculpa.

Compreendo porque nunca me deixaste aproximar-me muito. Nem a mim nem a nenhum outro ser humano. Sabias que as festas servem apenas para contentamento desta minha outra espécie. De nada te serviam a ti, pelo que raramente as toleravas.

Presumo que tenhas pensado várias vezes em fugir. Saltaste para o muro do quintal, observaste os muros dos quintais vizinhos, nada intransponíveis para ti. Presumo que só mesmo a mágoa causada pela condição de eunuco te tenha impedido. De que te serviria a liberdade? Calculo que tenha sido com amargura que optaste pelo contentamento suave de uma almofada e de uma refeição garantida.

Mesmo apesar de tudo isto, foste capaz de ocasionais actos de generosidade para com os teus parceiros humanos, como daquela vez que nos ofereceste um rato, infelizmente exalando os seus últimos suspiros.

Entretanto passou mais de uma década de tolerância distante. Envelheceste. Surgiram coisas na tua condição de ser vivo que, desprovido de conhecimento científico, não tinhas como compreender. Apenas sabias que tinhas um papo na omoplata, que fazer xixi era difícil, que o fundo das costas te doía. Não sei se percebeste que foi o teu hálito forte que reintroduziu a queima de incenso lá em casa. Nada soubeste sobre doenças oncológicas ou problemas renais.

Perdeste o apetite. Não conseguimos ter uma explicação certa para isso.

Infligimos-te mais subterfúgio, mais terror. Retirámos-te sangue, injectamos-te substâncias. Ficaste enjaulado, com um tubo de soro preso a uma pata. Garanto-te que tudo foi feito com a melhor das intenções, mas entendo a tua perplexidade e dificuldade em compreender. Sentiste-te traído, vendo-me a colaborar com as vampiras de bata branca, a impedir-te de te defenderes enquanto te espetavam agulhas.

Mesmo assim deixaste-me fazer-te festas quando te visitei ontem pela última vez.  Talvez tenhas compreendido que o apetite jamais voltaria. Deixaste que te tapasse os ouvidos enquanto a minha mãe falava com a veterinária. Não merecias alguma vez ouvir as palavras ‘eutanásia’ ou ‘cremação’.

Baixaste a guarda e deixaste-me estar ali.

Foste um bom gato.

Dia dos Namorados

Imagem retirada daqui.

Há muita gente que hoje vem dizer que o Dia de S. Valentim não existe. Afirmam que é um dia como outro qualquer, uma mera Terça-feira. Reclamam que este ‘dia dos namorados’ é apenas uma mera invenção dos mercados capitalistas com a finalidade de aumentar as vendas de cartões, flores, chocolates, pacotes de compotas e outra doçaria, relógios, gadgets em cinza, vermelho ou rosa; perfumes, boxers, cuecas e soutiens, pacotes de ‘experiências’ como massagens, fins de semana no Bussaco ou saltos de ravinas; dizem que é uma conspiração que visa beneficiar a hotelaria e a restauração, assim como as agências de publicidade e todos os que trabalham nas suas campanhas – equipas de produção vídeo, designers, ilustradores & etc.

Mesmo que neguemos a realidade tangível das coisas que enumerei continua a ser difícil ignorar a efeméride. Há uma série de actividades que estão simplesmente vedadas a quem tenta passar a data de forma indiferente. Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012 seria um bom dia para ir com uma amiga (e a data obriga-me a frisar isso – que é apenas uma amiga) experimentar o sushi de um novo restaurante na Boavista, mas o Dia de S. Valentim é um péssimo dia: já não são aceites reservas, mas mesmo que fosse possível arranjar uma mesa o ambiente seria o de um romantismo imposto – e no nosso caso indesejado – pela luz de vela e por coraçõzinhos vermelhos na decoração, e a sonoridade opressora dos cochichos cautelosos das outras mesas embargaria a nossa animação e uma ou outra gargalhada mais sonora. O S. Valentim é tão real como um Sábado, um Carnaval ou um dia de ponte em Junho. Obriga-nos a fazer planos, sejam concordantes com a tradição, sejam para fugir das festividades associadas.

Se para um solteiro o Dia de S. Valentim é um dia opressor onde nos sentimos cidadãos de segunda nas nossas interacções com os negócios dos sectores da hotelaria, da restauração e do entretenimento, é necessário reconhecer que o dia é democrático nas ansiedades que provoca. Para quem está numa relação afectiva, o dia pode obrigar a cuidados especiais relativamente às questões das prendas, refeições, e outras actividades. É paradoxal e inoportuno que o calendário dite a obrigação de ter um dia especial, e mesmo para quem está quase certo de estar numa relação pautada pelo pragmatismo (e/ou pela negação da lógica capitalista liberal) a data não deixa de nos fazer explorar essa réstia de incerteza relativamente aos verdadeiros desejos da parceira. Este pânico apenas poupa o Casalinho – essa criatura mítica resultante da união de dois corpos e da intersecção de duas cabeças, e que nem os outros casalinhos estimam.

Quanto a nós, os solteiros, àparte as já referidas dificuldades em encontrar uma atmosfera acolhedora nos restaurantes, a tradição traz-nos também um agudizar das ansiedades relativas aos afectos emergentes que possamos sentir. Basta vermos um postal de S. Valentim bem foleiro, para nos interrogarmos se não o poderíamos enviar à pessoa querida, como gesto de uma ironia confortável. Mas o considerar dessa ideia revela-nos que esse seria na realidade um gesto honesto mas desconfortável (e o postal continuaria foleiro). O Dia de S. Valentim também é um dia passado na galeria de espelhos do dilema.

Catálogo de pensamentos

O Thought Catalog tira-me constantemente as palavras da boca e da ponta dos dedos. Apenas nas últimas horas, dois exemplos, aos quais dou o meu comentário pessoal sem acrescentar nada ao que estava lá escrito:

1. Um artigo em que o autor pede encarecidamente às pessoas com quem começa a travar amizade que o avisem atempadamente se tiverem namorado. Estando essa situação longe de ser exclusiva do mundo gay a que o autor se reporta, dei por mim a concordar tanto que daqui envio um abraço sentido ao Ryan O’Connell. Quantas vezes não senti esse mesmo súbito embaraço perante a súbita menção, por parte de uma mulher com a qual achava que as coisas poderiam estar a ter uma evolução favorável, de um namorado ou (talvez pior) do seu enorme interesse noutro tipo qualquer? Que raio?! Vejamos: a minha perspectiva sobre alguém que esteja a começar a conhecer é a perspectiva de um homem heterossexual solteiro; não é, de todo, a perspectiva de um eunuco fraterno. Longos chats, trocas de mensagens, e um ou dois encontros para café, com que propósito? Se for pretendido como amigo, é provável que vá ouvir muitos desabafos sobre o tal namorado, portanto mais vale assumir a sua existência dele desde o início - se sentir essa empatia serei amigo de qualquer forma.

2. Também do Ryan O’Conell (que parece ser, em termos de monopólio sobre a produtividade, o NiceGuyEddie lá do sítio), um artigo sobre o acordar sozinho ao Sábado de manhã e reflectir na futilidade de tudo o que fizemos durante a semana, na total ausência de uma progressão nas nossas vidas. Concedo que não há nada como ser solteiro para dar largas ao niilismo: todo o trabalho, todas as dores de cabeça – o eu estar aqui neste momento num café onde na mesa ao lado as pessoas não conhecem a etiqueta básica de cortar o som aos seus portáteis enquanto vêm vídeos – servem para quê? Qual o propósito de cada dia? Para provavelmente acordar sozinho no próximo Sábado; para ir sobreviver até ao seguinte, e até ao seguinte, tentando que pelo meio algo aconteça que mude a situação e me torne um pouco menos dependente da leitura de blogues como o Thought Catalog e dos desabafos de amigos e amigas para perceber que todos estamos no mesmo barco, e temos este tipo de pensamentos.

E vai daí, em vez de estar aqui a redizer aquilo que li com as minhas palavras – porque é aquilo que de facto penso -, direi apenas que o Thought Catalog no fundo é aquilo que eu queria que o Cafeína tivesse sido (daí ter mencionado o meu antigo nickname), mas que fui totalmente inábil (e imaturo demais) para conseguir.

E pronto. Ide.