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Medo do acaso

Porque é que há tanta gente com tanto medo do acaso?

Há muita gente incapaz de aproveitar as oportunidades que encerra um encontro casual, no café ou no meio da rua. Oportunidades para dialogar, oportunidades para conhecer, oportunidades para o afecto e oportunidades para a acção – para fazer planos, para partilhar um momento, para alegrar um dia – são encaradas com negligência e com uma apatia assassina. As pessoas abreviam as conversas por pressas porventura imaginárias, desencravam os acasos com variações sobre um “então vá, depois diz coisas”, palavra-chave “depois”. Garantem que os encontros ocasionais não possam senão ser inconsquentes. Tentam que qualquer incidente proporcionado pelo acaso seja rapidamente esquecido.

Será que tais acasos lhes recordam a arbitrariedade da vida?

Como se o papel da sorte pudesse ser revogado pela indiferença. Como se apenas as acções deliberadas contassem. Pobres control freaks, incapazes de abraçar os felizes acasos como se tal implicasse admitir o infortúnio. Pois este não se preocupa com a nossa opinião. A felicidade, contudo, é evitável.

Boas famílias

Há uns tempos uma amiga com quem fui tomar café contou-me como um relacionamento seu tinha terminado devido à sua incapacidade em ser percepcionada como sendo de boas famílias por um parceiro que, depreendo eu, seria então de boas famílias. Embora nunca tenha estado numa posição em que a ausência de bondade na minha família fosse determinante no final de uma relação (embora possa ter, porventura, impedido inícios), não deixo de partilhar a indignação e a decepção da minha amiga. Conheço pessoas de boas famílias. Até podemos beber copos juntos, podemos rir-nos juntos, ocasionalmente até dormir juntos. Mas em Portugal, diz-me com quem andas no Natal e na Páscoa e dir-te-ei quem és.

Presumo que tanto eu como a minha amiga sejamos de más famílias. Daquelas em que o pai é um mecânico de automóveis e a mãe angaria gente para esquemas em pirâmide. Ou pior, seremos do povo, aquela massa humana amorfa que nem sequer tem direito a integrar uma dicotomia: os rafeiros numa espécie que afinal é de cães. Ou cavalos.

Senhoras e Senhores

Se há queixa recorrente feita pela mulher portuguesa, é a de que já não há Homens. Fragmentos de conversas ouvidas na rua, desabafos de amigas, coisas escritas nos blogues, no Facebook ou no Twitter aludem à evidência: não há gentlemen, não há Senhores.

Permitam-me refutar tal alegação, concordando: porque os gentlemen só existem numa sociedade onde existem ladies. Para sermos Senhores é necessário que haja Senhoras. As queixas não são um exclusivo do sexo feminino, são endémicas: a falta de cortesia não olha a sexos ou orientações. A maioria das pessoas é, muito simplesmente, rude e mal educada na sua relação com os outros.

Não sendo livre de pecados sociais peço desde já desculpa pelas generalizações. Reservo-me no entanto o direito de não descer do pedestal de onde emito estas opiniões, pois acredito na Regra de Ouro:

Tratarei os outros como quero ser tratado.

Se afirmar isto é sinal de arrogância nestes tempos bárbaros, que seja. A quem quiser resistir, comportar-se como um Senhor ou uma Senhora, deixo os seguintes conselhos unissexo:

a) As mensagens e as chamadas perdidas merecem uma resposta logo que oportuno. Se a celeridade não for genuinamente possível, a resposta deverá ser dada na mesma, ainda que no dia seguinte – comprometemo-nos a não questionar as razões do atraso. Os tarifários com SMSs gratuitos, aplicações como o Google Talk, o Facebook Messenger ou o Viber, e a Internet gratuita dos cafés conspiram para invalidar desculpas como a falta de saldo. É confortável chegar do trabalho, fumar uma ganza, ligar a televisão e ignorar o mundo, mas assim se constrói o futuro em que será o mundo a ignorar-nos a nós. Podemos comunicar gratuitamente com pessoas a doze fusos horários de distância, pelo que é tempo de entendermos aquilo que uma falta de resposta é – uma forma rude de sermos ignorados.  Isto também porque:

b) A palavra ‘não’ deve ser usada. O ignorar uma mensagem não é a mesma coisa que um ‘não’. Usemos as palavras que há para utilizar. Evidentemente que:

c) A resposta ‘não’ deve ser acatada. Aliás, qualquer resposta a uma pergunta nossa deve ser acatada. É por isso que perguntamos.

d) Os compromissos sociais são para se cumprir. Se prevemos poder vir a mudar de ideias, mais vale dizer de antemão que não iremos ao jantar, explicando, caso haja confiança para isso, qual a nossa expectativa alternativa. Assim, se a situação o permitir poderemos ser sempre uma surpresa de última hora. Um bom amigo compreenderá que não queiramos comprometer-nos com uma saída para copos porque esperamos a resposta de alguém em quem estamos romanticamente interessados, mas já não gostarão se nos cortarmos em cima da hora. Ninguém gosta de ‘cortes':

e) As promessas são para se cumprir. Se digo que na próxima semana combinamos um café: na próxima semana ligo a propor tomarmos café. Se digo “amanhã ligo-te”, farei esse telefonema.

f) Os pontos deverão ser colocados nos ‘is’. Se convidar uma rapariga para sair, deverá ser evidente para ambos que provavelmente tenciono conhecê-la melhor enquanto pessoa, não como potencial sócia para um projecto de empreendedorismo a submeter ao QREN – nesse caso tê-lo-ia dito de antemão. Logo, tal convite deverá ser imediatamente recusado caso exista alguém com quem a rapariga convidada prefira estar (e não custa nada dizê-lo: “eu já ando com outra pessoa”). Eventuais dúvidas acerca da sua (potencial) relação com outro não me dizem respeito; se mesmo assim sentir que prefere conhecer-me, então deverá pedir-me para esperar até à semana seguinte: hoje é dia de ter uma conversa séria. E por falar nisso:

g) Dar falsas esperanças a alguém deve ser entendido como um crime social. A menos que a pessoa use aliança ou um colar com a palavra COMPROMETIDA escrita a cristais Swarovski, não é suposto ninguém descobrir por si que aquela pessoa que mal conhecemos e que aceitou o nosso convite para sair está, de facto, comprometida. Estando numa situação em que já desrespeitou a recomendação anterior, a última coisa que deve fazer é comportar-se como solteira, seja aceitando e devolvendo os flirts, seja elogiando-me, seja queixando-se de ex-namorados, seja fazendo planos para o futuro nos quais não tem qualquer interesse. A única saída algo digna para alguém que se colocou nessa situação será assumir o mais rapidamente possível a existência de uma outra pessoa, e levar a conversa subsequente a incidir em projectos de empreendedorismo a submeter ao QREN.

h) O dever de fidelidade não depende da existência de uma relação afectiva. Se vou sair com outra pessoa, ser-lhe-ei fiel até nos despedirmos. Mesmo saindo com uma amiga, não passarei o tempo a olhar para outras raparigas (embora neste caso até seja admissível apreciarmos outras pessoas, desde que discretamente e em cumplicidade). Não deixarei a pessoa com quem estou subitamente porque encontrei de forma fortuita outra pessoa com quem preferia estar – paciência, tivesse feito planos com essa pessoa -, nem desatarei a convidar pessoas para se juntarem a uma saída que tinha sido combinada a dois.

Existe todo um mundo de diferença entre ter pose e ter postura. Mulheres e Homens adultos, Senhoras e Senhores, ladies e gentlemen fazem-se não pelas roupas, mas pelas acções e pelas atitudes. Não tenho uma recomendação sobre como reagir quando uma pessoa nos trata da forma de que não gostaria de ser tratada. Tudo depende do relacionamento que já temos com a pessoa em causa, uma vez que não há melhor forma de sermos vistos como vilões do que censurarmos directamente o comportamento de alguém. Tendo a assumir que é muito difícil mudar outra pessoa, pelo que me resta afastar-me das pessoas quando a principal faceta que revelaram foi a falta de cortesia. Apenas a sociedade, como um todo, pode mudar os seus elementos.

Cabe-nos assim, aos resistentes, expor e ridicularizar os comportamentos selvagens. Tornêmo-los tão malcheirosos como a música que sai de telemóveis em alta-voz nos transportes públicos.

Mickey

Tiveste excelentes razões para nunca confiares nos seres humanos. Um amigo meu encontrou-te, fraco e indefeso, num contentor do lixo. Passaste os primeiros tempos de vida a saltar de lar em lar, pouco querido por quem relutantemente te acolhia. Pelo meio, foste baptizado de ‘gato Mickey’, um nome ao qual sempre achaste a piada que um trocadilho merece: pouca.

Tinhas cerca de meio ano, acolhemos-te em minha casa. Desconfiaste. Tratava-se de um lar onde ainda se estava de luto pelo anterior felídeo, Gaspar, que havia morrido subitamente com poucos meses de idade. Aconteceram-te coisas terríveis, que relutantemente aceitaste a troco de água, comida e superfícies fofas onde dormir. Certa ocasião, ainda te estavas a ambientar à nova casa, foste metido num caixote e levado para um sítio frio e asséptico onde te caparam. Aprendeste a temer aquele caixote, mas nada pudeste contra os vários cobardes subterfúgios dos teus companheiros humanos. Periodicamente vias-te enfiado naquele caixote terrível, levado para sítios estranhos onde vampiros de bata branca te retiravam sangue, onde te injectavam substâncias. Defendias-te como podias. Sentiste-te justamente insultado quando alguns dos humanos que te tiravam sangue te chamavam de “gato mau”.

Por tudo isto te peço desculpa.

Compreendo porque nunca me deixaste aproximar-me muito. Nem a mim nem a nenhum outro ser humano. Sabias que as festas servem apenas para contentamento desta minha outra espécie. De nada te serviam a ti, pelo que raramente as toleravas.

Presumo que tenhas pensado várias vezes em fugir. Saltaste para o muro do quintal, observaste os muros dos quintais vizinhos, nada intransponíveis para ti. Presumo que só mesmo a mágoa causada pela condição de eunuco te tenha impedido. De que te serviria a liberdade? Calculo que tenha sido com amargura que optaste pelo contentamento suave de uma almofada e de uma refeição garantida.

Mesmo apesar de tudo isto, foste capaz de ocasionais actos de generosidade para com os teus parceiros humanos, como daquela vez que nos ofereceste um rato, infelizmente exalando os seus últimos suspiros.

Entretanto passou mais de uma década de tolerância distante. Envelheceste. Surgiram coisas na tua condição de ser vivo que, desprovido de conhecimento científico, não tinhas como compreender. Apenas sabias que tinhas um papo na omoplata, que fazer xixi era difícil, que o fundo das costas te doía. Não sei se percebeste que foi o teu hálito forte que reintroduziu a queima de incenso lá em casa. Nada soubeste sobre doenças oncológicas ou problemas renais.

Perdeste o apetite. Não conseguimos ter uma explicação certa para isso.

Infligimos-te mais subterfúgio, mais terror. Retirámos-te sangue, injectamos-te substâncias. Ficaste enjaulado, com um tubo de soro preso a uma pata. Garanto-te que tudo foi feito com a melhor das intenções, mas entendo a tua perplexidade e dificuldade em compreender. Sentiste-te traído, vendo-me a colaborar com as vampiras de bata branca, a impedir-te de te defenderes enquanto te espetavam agulhas.

Mesmo assim deixaste-me fazer-te festas quando te visitei ontem pela última vez.  Talvez tenhas compreendido que o apetite jamais voltaria. Deixaste que te tapasse os ouvidos enquanto a minha mãe falava com a veterinária. Não merecias alguma vez ouvir as palavras ‘eutanásia’ ou ‘cremação’.

Baixaste a guarda e deixaste-me estar ali.

Foste um bom gato.

Relações Internacionais (3/3 de uma série)

Não foi assim há tanto tempo, mas foi numa época em os Trintas ainda não me pesavam no espírito e eu era capaz de sair à Aventura, sabendo que se frequentasse certos locais iria quase certamente encontrar alguém conhecido e/ou com quem partilhar o resto da noite. Era uma época em que eu podia entrar num bar, luz assim meio para o escuro, pedir um fino, sentar-me, sacar do meu bloco de notas e escrever planos, listas, observações, sem me sentir uma criatura deslocada; com pouca daquela irritante auto-consciência. Uma época antes de os empregos e desempregos, os filhos e os cônjuges,  as pós-graduações e os desentendimentos terem minimizado a possibilidade de encontros acidentais.

Portanto, talvez numa sexta-feira há cerca de dois ou três anos – que me parece agora há uma outra vida -, eu estava sentado num daqueles café-bares da Baixa, a escrevinhar coisas no meu caderno. Sentara-me a uma mesa de canto depois de ter ido ao balcão buscar um café e um fino. A noite ainda estava no início, e aquela seria apenas a primeira paragem. A expectativa de encontrar alguém conhecido era alta, assim como a vontade e a motivação de conhecer pessoas novas, um estado de espírito raro e que eu sentia o dever de aproveitar. Não me havia apercebido que tinha ocupado a última mesa disponível. Fui interpelado, de súbito:

– “Excuse me, can we sit at your table?”

Eram duas raparigas de aspecto e sotaque centro-europeu, segurando copos de vinho tinto. Alemãs? Checas? Polacas?

– “Yeah, sure!”

Poderia a noite ser mais promissora? A rapariga loira, baixa e desinteressante, sentou-se à minha frente. A outra rapariga, bastante alta, de cabelo longo pintado de preto como é costume nas nórdicas, sentou-se entre nós, à minha esquerda. Dobrou as pernas longas sobre a cadeira comicamente subdimensionada, ficando como se estivesse a levitar. Foi, de uma forma que não consigo descrever, o sentar mais sensual que já vira, um gesto que não deixava espaço senão a pensamentos de sexo. Fui incapaz de ignorar o modo como o seu vestido cinza, feito de um qualquer material têxtil altamente experimental, era ligeiramente largo e era moldado pelo seu corpo (ao invés de moldar o corpo), como as leggings pretas tinham uma muito ligeira textura, uma espécie de segunda pele para aquelas incríveis pernas. Não me lembro da cara dela. Devia ser normal.

Queria ir para a cama com a rapariga alta. Todo o episódio era igual ao início de um enredo pornográfico, portanto porque não continuar? Duas turistas vindas do norte da Europa, também à Aventura. Apesar da minha tez pálida e da falta de bigode e pilosidade peitoral, queria muito ser o ‘macho latino’. Se me perguntassem o que é que eu fazia, até gracejaria: canalizador, gajo que entrega pizzas.

Pois, não teria piada.

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