Terra da fraternidade

Experimentámos durante os últimos dias um revivalismo da Grândola, Vila Morena enquanto canção de protesto. A canção do Zeca Afonso é bonita e o seu simbolismo histórico fará deste, segundo os seus proponentes, um hino de protesto apropriado para actual situação social. Mas não acho que possa ser de todo uma canção apropriada. Isto porque Grândola, vila morena, onde o povo mais ordena “dentro de si ó cidade”, é terra da fraternidade.

Fraternidade que não existe.

Um like, um share não são fraternos. Slogans não são fraternos. Cuidar dos amigos e das pessoas próximas, isso sim. Ser cortês, isso sim. Saber comunicar, isso sim. Em vez disso, temos uma espécie de darwinismo social unipessoal, em que as necessidades dos próximos, as suas tristezas e apelos ou são julgadas patéticas ou matéria de apropriaçãoDepois não admira que quem vê os outros em Excel seja governado em Excel. O karma aqui é expedito. E fodido.

O Karl Marx (e pelos vistos o Jorge Jesus, mas mantenhamos o nível) falava da prática enquanto critério da verdade. Cante-se o que se quiser, mas pratique-se sempre.

Em trabalhos

Nathan Coley 2006

Pois é, armado em esperto quis fazer um doutoramento e agora ando metido em trabalhos. Daqueles trabalhos que envolvem mais horas de processador de texto e Excel mais pro que o do Vítor Gaspar; daqueles trabalhos em que a playlist de onze horas de sucessos seleccionados pelo saudoso John Peel já tanto repetiu que chateia. E ainda tenho uma série de afazeres na instituição que de facto me paga um salário.

E também tenho algum tempo livre a dedicar.

Pois é. Não acho que seja assim tão ocupado. Estabeleço prioridades. No topo, “o que tem que ser tem muita força”. No fundo, estará, infelizmente, o caro leitor que nunca conheci pessoalmente e que pouco me diz. Porque se arranjará tempo para quem conheço e algo me diz, caso o tempo se torne num recurso limitado não terei qualquer problema em atirar com os blogues para “debaixo do autocarro”.

É só para avisar: Usem o RSS. Eu direi coisas.

Comentários desligados in Curtas

Festas felizes

Loads of Xmas Trees

O humilde narrador deste blog vem por este meio apresentar a todos os seus amigos (e, porque não?, a alguns dos seus inimigos) os seus votos de Festas Felizes.

Boas famílias

Há uns tempos uma amiga com quem fui tomar café contou-me como um relacionamento seu tinha terminado devido à sua incapacidade em ser percepcionada como sendo de boas famílias por um parceiro que, depreendo eu, seria então de boas famílias. Embora nunca tenha estado numa posição em que a ausência de bondade na minha família fosse determinante no final de uma relação (embora possa ter, porventura, impedido inícios), não deixo de partilhar a indignação e a decepção da minha amiga. Conheço pessoas de boas famílias. Até podemos beber copos juntos, podemos rir-nos juntos, ocasionalmente até dormir juntos. Mas em Portugal, diz-me com quem andas no Natal e na Páscoa e dir-te-ei quem és.

Presumo que tanto eu como a minha amiga sejamos de más famílias. Daquelas em que o pai é um mecânico de automóveis e a mãe angaria gente para esquemas em pirâmide. Ou pior, seremos do povo, aquela massa humana amorfa que nem sequer tem direito a integrar uma dicotomia: os rafeiros numa espécie que afinal é de cães. Ou cavalos.

Eduardos

Há uns tempos recebi mensagens felicitando-me pelo destaque dado no Ípsilon a um dos ‘meus’ documentários. Não sabia a que se referiam, de certeza que seria um equívoco, já há anos que não fazia nada que pudesse ser classificado como documentário. Perguntaram-me se eu não tinha feito um documentário sobre o rock alternativo em Portugal. Mais uma vez bloqueei: bem, trabalhei num documentário do Miguel Vasconcelos sobre um curso de formadores musicais da Casa da Música, e havia partes com entrevistas a tipos em bandas de rock & etc. Mas o meu papel nesse trabalho tinha sido o grafismo e a etalonagem – muitos furos abaixo do que classificaria como ‘fazer’ o que quer que seja.

Pedi que me explicassem melhor. E assim soube que o artigo diz que o Eduardo Morais realizou um documentário sobre o rock alternativo em Portugal chamado Meio Metro de Pedra:

Um Eduardo Morais.

Raios. Quando acabei o curso de cinema decidi que deixaria de assinar com três nomes. Afinal soava-me pomposo, burguês e a nome de pivot de Telejornal. Também não queria contudo usar o primeiro e último nome, por me soar estranho e a futuro número 6 do Benfica (aqui estão alguns candidatos possíveis). Optei portanto por assinar com o primeiro e o penúltimo: um nome que me soa bem e não me parece nem demasiado popular nem burguês. Um nome sério de classe média.

Que fazer? Evidentemente, nada. Isto gerará alguns equívocos, como quando algum tempo depois da notícia incial me ligaram a convidar para apresentar o Meio Metro de Pedra e pôr música num bar uma sexta à noite. Expliquei que não era eu, ao que se seguiram mil desculpas e um convite para apresentar o Damião numa videoteca municipal uma segunda-feira à tarde. Evidentemente, arranjei forma de passar tal espécie de prémio de consolação – posso realizar filmes diferentes mas acho que também tenho bom gosto para passar música!

Equívoco por equívoco, ao menos não me chamo Aníbal Silva.

Foi apesar de tudo estranho acordar hoje, pôr-me a fazer zapping, e ao passar pela SIC Radical a box me indicar “um filme de Eduardo Morais” com o qual eu nada tive a ver. É um pouco como ir na rua e ouvir alguém a chamar “Ó Eduardo!”, olhar à minha volta e ver que quem estava a ser chamado era um miúdo de 5 anos. Ou um idoso. Ou o mecânico ou o carteiro. Calculo que os Joões, os Zés e os Manéis (e mesmo os Zés Manéis) já estejam mais insensíveis a este fenómeno (que será, contudo, uma história para a vida para os Inocêncios e os Olegários).

Gostei do Meio Metro de Pedra. Qualquer documentário com uma edição conivente com um dos entrevistados quando este diz algo como “Que se fodam os Deolinda! São a maior bosta que aí anda!” contará com toda a minha simpatia. Foi no entanto estranho sentir aquela voz interior crítica a tudo o que faz o Eduardo Morais: aquele plano em que um dos entrevistados tem a testa cortada; o preto e branco que me parece mais um desaturate que um verdadeiro preto e branco; porque é que estes tipos se vestem todos como cidadãos da Brooklyn global; & etc. Como se eu tivesse de facto alguma responsabilidade, pudesse ligar o meu computador, abrir o Premiere e mudar estas coisas. Não costumo ser tão crítico com as coisas que escolho ver na TV, mas aqui senti-me como se eu tivesse dupla personalidade e andasse a entrevistar roqueiros enquanto julgo que estou a dormir. Ou serei eu aqui essa segunda personalidade?

Seja como for. Gostei do documentário. Nunca fui muito dado ao rock, mas senti-me de volta ao liceu, a ouvir falar das mesmas bandas de que falavam alguns dos meus colegas mais ‘fixes’. E pelos vistos até dá para ver todo no YouTube. Está visto que ‘Eduardo Morais’ é uma boa marca.