O Pedro, o Paulo e o António entram num bar…

Há uns tempos assisti a uma série de televisão chamada Rubicon. Assistimos ao seu protagonista a deslocar-se de bicicleta, bolsa a tira-colo, para uns escritórios com ar de indústria criativa, mas que na realidade pertencem a uma consultora externa dos serviços de informações americanos – o tipo de sítio de onde Edward Snowden copiou uns Powerpoints. Como boa série de espionagem, o nosso portagonista cedo descobre uma empreitada palaciana para deixar acontecer um atentado terrorista. É sobretudo pela forma como o grupo de conspiradores é nela retratado que Rubicon se distingue das demais séries do género: é-nos apresentado um grupo de antigos colegas de um colégio de topo com posições influentes hoje em dia (banqueiros, políticos, chefes de serviços secretos) que se encontra para pequenos-almoços em hóteis. À mesa, pelo meio do chá e das torradas, partilham cusquices sobre atentados terroristas em preparação por extremistas islâmicos e sobre se a sua ocorrência poderá ser financeiramente vantajosa. Estes velhos amigos são uma versão masculina e geoestratégica das mulheres de O Sexo e a Cidade, portanto. Nenhum destes homens usa avental ou chicote, nem há orgias rituais estilo Eyes Wide Shut; pelo contrário, em Rubicon tudo é terrivelmente vulgar e quotidiano: uns amigos bebem uns copos, falam das pessoas que conhecem (entre outras, do género das que fazem desaparecer cadáveres) e combinam jantares e formas de lucrar com a morte e a destruição alheia.

Escusado será dizer que a série foi cancelada ao final da primeira temporada.

No entanto, imagino que as reuniões do Clube Bilderberg sejam mais ou menos assim. Um líder de um partido que sustenta uma coligação num pequeno país diz, com uns gin tónicos pelo meio, que tenciona demitir-se porque o patrão no governo é um chato que não deslarga. Perguntam-lhe quando, ao que diz que ainda não sabe. Alguém atira uma data ao acaso, os restantes concordam. Alguém diz qualquer coisa tipo “porreiro, pá!” e venha daí mais uma rodada. Saiem uns iPhones dos bolsos, são colocados lembretes para que nesse dia sejam comprados títulos de dívida desse país. Entretanto o senhor do sofá ao lado diz-lhe que terá emprego no seu governo, assim como quem diz “tá tudo, não te preocupes que por mim não te falta nada.” O padrinho destes novos sócios antevê algumas mudanças lá nas suas empresas e começa a fazer contas à construção de novos cenários, assim um pouco mais cor-de-rosa, para novos programas de informação. Interroga-se se algum dos magnatas da comunicação presentes conhece um bom cenógrafo que faça baratinho. Entretanto um membro do Eurogrupo, mais animado uma vez que começou a beber ao pequeno almoço, começa a contar uma anedota:

“Do you know the one where Angela, François and Silvio walk into a bar?”

Dias mais tarde, títulos de dívida na posse daqueles que beberam uns copos naquela tarde de sábado em Hertfordshire, eis que sem surpresa Paulo Portas faz aquilo que sempre se soube que iria fazer. Qualquer conversa de estabilidade governativa era a vã promessa de quem conduz um carro cheio de explosivos sensíveis na bagageira e mesmo assim insiste em oferecer boleia para uma viagem por uma estrada acidentada.

Pelo menos os países não são cancelados ao final de umas temporadas.

Acho eu.

Desta vez vou à manifestação

Não sou muito dado a manifestações. Já o disse antes. Acredito que o poder é um reflexo das sociedades onde se manifesta, a um nível mais profundo que o voto e a democracia. De nada servirá que nesta Grândola o povo ordene, se esta não for uma terra de fraternidade. E que não somos.

Não quero que se lixe a Troika: esta existe vários graus de separação para lá dos meus conhecimentos e é uma coisa terrível odiar-se quem não se conhece. Eles podem pedir e até ordenar, mas a opressão que por vezes sinto não origina da Troika nem sequer do Governo ou de um qualquer Outro relativamente abstracto. A opressão da negligência e do descuido quotidianos, da desmesura e da ambição, talvez seja capitalista mas não é fruto do cumprimento de ordens. Quando acordámos hoje reconstruímos a nossa parte do mundo que cessou enquanto dormiamos. E este é precisamente o mundo o que escolhemos reconstruir – fruto de actos que são o critério da verdade dos nossos desejos.

Desta vez irei contudo à manifestação. Sei que de pouco adiantará enquanto as manifestações apenas servirem para mudar governos sem nos mudarem a nós, que segunda-feira reconstruiremos este Portugal mesquinho, serviçal e turístico: uma cultura que demorará gerações a mudar. No entanto, por mais insignificante que seja o passo, acredito que é chegada a hora em que a retirada de certos indivíduos de posições de poder é necessária, não pelo que fizeram à economia mas sobretudo pelo que fazem à nossa mentalidade. Irei por isso.

Sem participar em concursos de cartazes, sem beber cervejas nem tirar fotos para o Facebook. As manifestações não podem ser sábados bem passados; assim eu farei desta a minha.

Fica aqui uma sugestão musical alternativa à Grândola, Vila Morena, demasiado usada nas últimas semanas como canção contra. Cante-se por.

Terra da fraternidade

Experimentámos durante os últimos dias um revivalismo da Grândola, Vila Morena enquanto canção de protesto. A canção do Zeca Afonso é bonita e o seu simbolismo histórico fará deste, segundo os seus proponentes, um hino de protesto apropriado para actual situação social. Mas não acho que possa ser de todo uma canção apropriada. Isto porque Grândola, vila morena, onde o povo mais ordena “dentro de si ó cidade”, é terra da fraternidade.

Fraternidade que não existe.

Um like, um share não são fraternos. Slogans não são fraternos. Cuidar dos amigos e das pessoas próximas, isso sim. Ser cortês, isso sim. Saber comunicar, isso sim. Em vez disso, temos uma espécie de darwinismo social unipessoal, em que as necessidades dos próximos, as suas tristezas e apelos ou são julgadas patéticas ou matéria de apropriaçãoDepois não admira que quem vê os outros em Excel seja governado em Excel. O karma aqui é expedito. E fodido.

O Karl Marx (e pelos vistos o Jorge Jesus, mas mantenhamos o nível) falava da prática enquanto critério da verdade. Cante-se o que se quiser, mas pratique-se sempre.

Em trabalhos

Nathan Coley 2006

Pois é, armado em esperto quis fazer um doutoramento e agora ando metido em trabalhos. Daqueles trabalhos que envolvem mais horas de processador de texto e Excel mais pro que o do Vítor Gaspar; daqueles trabalhos em que a playlist de onze horas de sucessos seleccionados pelo saudoso John Peel já tanto repetiu que chateia. E ainda tenho uma série de afazeres na instituição que de facto me paga um salário.

E também tenho algum tempo livre a dedicar.

Pois é. Não acho que seja assim tão ocupado. Estabeleço prioridades. No topo, “o que tem que ser tem muita força”. No fundo, estará, infelizmente, o caro leitor que nunca conheci pessoalmente e que pouco me diz. Porque se arranjará tempo para quem conheço e algo me diz, caso o tempo se torne num recurso limitado não terei qualquer problema em atirar com os blogues para “debaixo do autocarro”.

É só para avisar: Usem o RSS. Eu direi coisas.

Festas felizes

Loads of Xmas Trees

O humilde narrador deste blog vem por este meio apresentar a todos os seus amigos (e, porque não?, a alguns dos seus inimigos) os seus votos de Festas Felizes.