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A ressaca

Saí da festa de passagem de ano, eram cerca de seis e meia da manhã. Foi uma festa divertida, que infelizmente não me senti incapaz de apreciar na totalidade, traído pelo excesso de consumo de álcool, que levou a uma enorme dor de barriga (talvez pela enorme quantidade de fruta que ingeri, esquecendo-me que o meu estômago não é um recipiente adequado para fazer sangria) e ao revelar da minha tendência para estados de embriaguez depressivos. O que leva a que este artigo seja patrocinado pela Coca-Cola (ainda não conheço melhor alívio para a ressaca).

Desci os três (ou seriam quatro?) andares de elevador, mentalizando-me para o confronto com o frio e a chuva que iria encontrar no caminho para a estação de metro. Desci depois a rua, tentando concentrar o máximo de sobriedade nos pés de forma a não escorregar na calçada – o porquê do uso do calcário em ruas íngremes da cidade do Porto sempre me ultrapassou. Passei junto do stand de motorizadas de onde, segundo um amigo me contou, alguém uma vez saiu sentado numa coisa de 1000cc para embater com violência num muro mesmo em frente, do outro lado da rua.

Não havia ninguém no caminho. Virei uma esquina, e logo a seguir outra. Vi a entrada da estação de metro, uma reconfortante luz fluorescente que sinalizava o momento em que finalmente poderia fechar o guarda-chuva. Ouvi um carro que se aproximava, conduzido pelo primeiro ser humano que encontraria em 2010 fora da festa em que estive. O primeiro Anónimo do ano. O carro buzinou e pareceu-me abrandar. Seria afinal conduzido por alguém que conheço?

Olhei e vi um indivíduo a fazer-me piças. Uma fracção de segundo antes de o Golf prateado acelerar para fora do meu campo de visão. Entrei na estação de metro e fechei o guarda-chuva, pensando:

2010 – a mesma merda.

Quase lá

Está por horas este Ano dos Infernos que foi 2009. Um ano passado a dizer “pêra pêra pêra” repetidamente para mim próprio, e a relembrar os valiosos ditos da minha falecida avó, tais como:

“Se queres que a tua vida te corra bem, não contes dela a ninguém.”

2009 foi também o Ano das Lições, e ainda o Ano das Ilações. Serão aliás o meu pequeno prémio de consolação por ter chegado a este dia, salvo e relativamente são. Aprendi o valor de estar com quem estar comigo querendo eu igualmente estar, e o valor de não estar com quem não quero estar. Coisinhas simples e das quais tenho vergonha de ter demorado trinta anos a apreciar.

Foi, no fundo, o Ano dos Males Necessários. É por isso que agora, chegado a 31 de Dezembro sem muitas mais Questões Problemáticas a Resolver, brindarei muito em breve com os meus amigos a um grande 2010!

Feliz Natal!

Que ninguém fique sem prendas!

O Procrastinador deseja um Feliz e Santo Natal a todos os seus leitores!

Histórias

Estou quase a acabar de ler Generation A do Douglas Coupland. O livro não é extraordinário, estando bastante longe de algo como o Jpod, mas fala bastante de algo que me tem ocupado os pensamentos nos últimos tempos: é que acredito que a vida é uma sucessão probabilística de acontecimentos e de momentos, e qualquer coerência aparente apenas poderá ser

  1. fruto das probabilidades (escassas) / sorte;
  2. resultado de um esforço muito deliberado (e muito pouco compensador).

A vida não é, portanto, um filme. Ou qualquer outra forma narrativa. Uma verdadeira biografia será, na melhor das hipóteses, uma massa desinteressante pontuada por alguns momentos de interesse. As histórias da nossa vida que contamos (incluindo as que valem realmente a pena contar) são sempre relatos posteriores. Pequenas narrativas fruto de uma ordenação e reordenação do passado.

in 'Generation A' de Douglas Coupland

in 'Generation A' de Douglas Coupland

Ninguém me irrita mais, portanto, que as pessoas que querem fazer o contrário, vivendo momentos escritos e planificados. Dois exemplos muito diferentes:

  1. A mulher que no meio de uma discussão não desfere um ataque verbal contra mim mas, pelo contrário, diz uma deixa (ex. “Eu não estou à procura de uma relação”) para ser apreciada por uma audiência invisível. Ouve: a nossa vida está aqui mesmo – não somos actores em nenhum filme francês.
  2. O tipo que, enquanto eu esperava aflito no corredor do bar, snifava coca na casa de banho armado em Gordon Gekko, provavelmente usando um Andante (passe mensal dourado) para desenhar a linha na caixa do autoclismo. Enquanto me tentava abstrair das três SuperBocks na bexiga, reflecti em como ninguém estava a ver o gajo*  -  porque é que não se limita a enfiar aquela merda pelo nariz acima com o dedo?

Cinematografizar a vida, admito, é algo em que todos caímos. Se vou entrar num sítio, penso na forma como o George Clooney ou o Brad Pitt entram nos sítios nos Ocean’s. Mas parte de mim espera que no fundo ninguém repare – precisamente porque não sou nem o George Clooney nem o Brad Pitt nem, infelizmente, me pareço com algum deles. Mas existe algo de fundamentalmente nefasto neste comportamento: sinto que estou a lidar com pessoas que se referem a elas próprias na terceira pessoa, estilo “o Jardel tem treinado bem e acha que o mister confia nele”. Ou com alguém que, quando se lhe pede que desenhe o que viu, se inclui a ele próprio na desenho.

Os meus olhos estão aqui mesmo, na minha cabeça, e só vejo para fora.

* Muito bem, nem eu. Mas o gajo saiu da casa de banho raiado e a fungar e juro que ouvi o que presumo ser um cartão plastificado a raspar qualquer coisa em cerâmica – mas ahah! aí o indivíduo até tinha uma audiência! Ora bolas…

Mais que Isto

Não sou um membro da Aristocracia. Não tenho nenhum familiar que seja membro da Aristocracia. Nem Condes, nem Viscondes, nem Marqueses. Apenas uma marquise de que me envergonho. Tive, é verdade, um avô que era Maior da Aldeia, mas acontece que a aldeia em questão é realmente uma aldeia, daquelas onde o barbeiro é também o taxista e onde não existe nem um café nem uma mercearia mas apenas somente O Comércio. O máximo de contacto que tive de facto com qualquer espécie de Aristocracia foi quando em criança fui com os meus pais visitar uns primos que eram caseiros de um Visconde que tinha uma pequena plantação de toranjas no seu palacete. Sabiam mal, as toranjas.

Concorri recentemente a um concurso de atribuição de subsídios do Instituto do Cinema e Audiovisual. Estando eu, pensava, em início de carreira, fui comedido na ambição. Enviei, através de uma produtora, um projecto de curta-metragem. “É por aí que se começa”, pensei. A resposta foi célere: Fiquei em 14º lugar a contar do fim, e levei aquilo que o produtor (aliás magnífico, e a quem agradeço ter acreditado no projecto) classificou como uma injusta chapada na cara:

“Parece no entanto que o argumento carece de alguma solidez, merecendo um tratamento mais cuidado, que torne mais perceptíveis algumas das motivações que conduzem e condicionam os personagens e os seus conflitos, que podiam ser melhor caracterizados, melhorando a sua consistência narrativa.”, disseram. Muito bem, é uma avaliação indiscutível porque é vaga. Tão vaga de facto, que pode ser dita acerca de qualquer outro argumento. Chamemos-lhe portanto Desculpa para Indeferimento nº 27. Bem sei que o meu argumento não é perfeito. Uma vez que não será filmado, disponibilizei-o online para que qualquer um o critique (PDF). N0 entanto sei o seguinte: o meu projecto é melhor do que alguns aos quais serão atribuídos subsídios. Como provavelmente serão também melhores muitos dos outros projectos chumbados. Basta ir a festivais e ver algumas das coisas que têm sido financiados pelo I.C.A. nos últimos anos. Mas foi contudo aquilo que se seguiu que me inflamou a razão:

“O candidato tem sobretudo curriculum académico, com alguns (poucos) trabalhos realizados, com pouca expressão em festivais nacionais e sem referências internacionais.”

Não sendo aristocrata não sou, pelos vistos, um Cidadão. Não sou, pelo menos, cidadão de primeira categoria. Tenho o direito de voto, que utilizo desde os 18 anos. Mas àparte isso é notório que sou um Zé Ninguém. Porque não tenho o direito de tentar iniciar uma carreira. Se peço um subsídio é porque não tenho dinheiro nem recursos para fazer os tais trabalhos que possam ter expressão nos festivais nacionais e internacionais. É verdade que hoje em dia a tecnologia permite, felizmente, que vá fazendo umas coisitas nos limites das disponibilidades de amigos e dos recursos que consigo juntar. Mas há limites para o que pode ser feito quando tudo é racionado, quando a ideia depende dos meios e não o contrário. O comentário acima proferido pelo júri, que não acredito que seja ingénuo a ponto de ser alheio à realidade, não passará de um simples “vai-te foder – fico aí, entre uma rocha e um sitio duro.” A impossibilidade de iniciar uma carreira sem ter nome, exigindo-se que se tenha nome sem carreira é o ‘preso por ter cão’ que diferencia as castas.

É evidente que não tenciono desistir. Este não é o primeiro Fuck You que recebo de um júri, nem será certamente o último - há dois anos, por exemplo, escreveram que o meu argumento (PDF) tinha “um final pouco conclusivo” (em nenhuma página do regulamento existia uma referência à obrigatoriedade de ter narrativas fechadas). Todavia, chegado aos trinta anos e com cada vez mais dificuldades em mobilizar pessoas e recursos para projectos ‘no budget’, começo a temer que a minha finest hour já esteja para trás, despercebida, em algum (dos poucos) trabalhos realizados. Desde a adolescência que me apoiei na felicidade que conseguia extraír da criatividade como forma de compensar a infelicidade noutras áreas, mas hoje tal como para Celeste o futuro próximo é um nevoeiro cerrado. Apenas sei que a Igualdade de Oportunidades é uma mentira.

Quero de qualquer forma terminar por aqui a autocomiseração e o ressabiamento. “Fuck Them”, como diz o outro que é mais burgesso que aristocrata. Digo sempre “quem quer pena que chame o Bono”, e eu não gosto dos U2. Resistirei, nem que para estar entre uma rocha e um sítio duro me torne rocha eu mesmo. Sei que no final as coisas correram bem a Celeste.

Contudo, Celeste é uma aristocrata…


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