Vudu
Embora já tenha perdido semanas ou meses de vida para jogos de estratégia ou de andar por ali aos tiros, os meus jogos de computador preferidos sempre foram os simuladores de futebol. Quando era miúdo o jogo de eleição era o Match Day no ZX Spectrum, seguindo-se-lhe o Kick Off e o Itália’90. Entrei na adolescência com um Commodore Amiga e rapidamente descobri a perfeição minimalista do Sensible Soccer. A pós-adolescência e os vintes trouxe uma sucessão de PCs de diferentes feitios e a estabilidade de uma alternância entre o FIFA e o PES a cada três ou quatro anos.
Recentemente, jogando campeonatos no FIFA 11, dou por mim a pensar o que seria do mundo se os meus jogos tivessem consequências reais, como se de feitiços vudu se tratassem: imagino o FC Porto a ficar para trás no campeonato transacto e eliminado pelo Spartak de Moscovo depois da grave lesão do Falcão num jogo contra o Beira-Mar, que por qualquer razão o computador achou por bem que se jogasse debaixo de um nevão. Imagino Robert Earnshaw do Nottingham Forest a acordar com uma perna partida depois de o mesmo ter acontecido ao seu boneco digital num jogo da segunda divisão inglesa contra o Watford, enquanto o seu companheiro de equipa Radoslaw Majewski recebe a notícia de uma suspensão de 2 jogos após a sua expulsão num jogo contra o Doncaster disputado num computador português. Isto serão certamente devaneios de alguém que leu demasiadas obras menores de Philip K. Dick (de repente lembra Flow My Tears, the Policeman Said), mas julgo que será também uma boa ilustração dos tais Mercados.
Afinal, falamos de toda uma elite de pessoas que jogam computador o dia todo. Não jogam nem FIFA nem Street Fighter mas sim algo que, pelos vislumbres televisivos das salas de corretagem (espaços que, para ser honesto, nunca visitei), se assemelha aos jogos de estratégia dos anos 80 do estilo Trade Wars. O objectivo é ganhar dinheiro, vendendo caro o que se comprou barato. E podem-se fazer todo o tipo de manigâncias para subir o score. Hackar - ou como se diria na altura, ‘meter POKEs’ – ao sistema financeiro não só é legítimo como faz parte do jogo.
É uma vida boa ser pago para jogar computador o dia todo, ganhando bónus cada vez que se passa de nível. E o melhor de tudo é o vudu que enriquece a conta bancária do jogador: como se a minha vitória nos penálties com o Forest contra o Arsenal na Taça de Inglaterra tivesse colocado na minha conta bancária as 262 mil libras que o computador disse que ganhei, e eu agora pudesse andar aí a enviar para a atmosfera 30 litros de gasolina por cada 100 kilómetros de viagem entre campos de golfe.
Maravilha.

