Uma verdade

Eu acrescentaria que a ‘normalidade’ não existe – é mais uma terrÃvel fantasia. A manutenção de aparências origina os piores crimes.

Eu acrescentaria que a ‘normalidade’ não existe – é mais uma terrÃvel fantasia. A manutenção de aparências origina os piores crimes.
Escrevo este artigo um sábado à noite. Devia ter saÃdo e estar neste momento a beber uns copos na fria e agorafóbica noite do Porto, mas decidi-me ficar em casa devido a um certo sentido de dever; nomeadamente, a execução de um certo trabalho de cariz informático para o qual existe uma certa urgência. No entanto dou por mim a escrever este artigo, e a decidir-me a deixar para amanhã, e se nada melhor houver para fazer, aquilo que teria que ter feito hoje. Isto porque não gosto que me passem a mão pelo pêlo.
Abomino, aliás. Se não quero saber o quão bom é o meu trabalho antes de estar concluÃdo, como encaixar os elogios que precedem os primeiros bits? Ninguém dá nada a ninguém, e mesmo que as palavras sejam gratuitas não deixo de associar uma mão no pêlo a água no bico.
Entendo que muitos se deixam levar por uma figurativa festa no couro cabeludo. A lisonja é um bom lubrificante social, o Redex Bala da micro e pequena polÃtica. Queremos ouvir palavras simpáticas acerca de nós; em troca de uma pequena massagem na auto-estima fazemos favores, confiamos. No entanto, alguns de nós têm a pele calejada – ou um cabelo estilo palha-de-aço, que dói quando lhe fazem festas com pouco jeito. A minha auto-estima depende de mim, como indica o prefixo auto-. Depende da minha auto-crÃtica relativamente à s minhas acções; se falamos de trabalho, relativamente à obra feita. Uma mão pelo pêlo retira-me qualquer autonomia.
Uma vez dei por mim a passar a mão pelo pêlo a uma colega que achava atraente, cheio de água no bico. Respondeu-me que eu era livre de elogiar obras concretas, mas não me permitia que generalizasse tais elogios à pessoa. Em retrospectiva, fui foleiro e tive a resposta merecida.
Quando gostamos do que fazemos, não precisamos de ouvir certas merdas.
O Procrastinador deseja um Santo Natal a todos os seus leitores.
Quando manuseio livros de editoras de lingua inglesa como a Routledge, a Faber & Faber ou (no caso do livro técnico) da O’Reilly, tenho sempre um impulso comprador. São bem paginados, com boa tipografia, papel razoável e capas que sem dourados nem baixos-relevos tornam estes livros em objectos imensamente apetecÃveis. Que compõem bem a sala.
Será que nunca ninguém das editoras portuguesas viu tais edições? O que encontramos, regra geral, é péssima paginação, abuso de papel (com recurso a tamanhos de letra excessivamente grandes), e tipografia catastrófica. Uma das principais editoras nacionais de livros técnicos alia o uso de Comic Sans à incapacidade de usar tipos de letra distintos (e em tamanhos grandes) para texto explicativo e código de programação. O resultado é uma cagada ilegÃvel. E fiquemo-nos pela forma…

Nunca fui muito capaz no que diz respeito à comunicação não-verbal. Ao que parece será coisa genética, de famÃlia. Consciente da importância do que não é expressado por palavras, estou consciente de uma espécie de mudez, de incapacidade de expressão. Houve alturas em que dei por mim a provocar irritação e desconforto inadvertidamente. Um olhar que se distrai, a mão que coça o nariz ou o dedilhar da mesa, enquanto estava imerso no verbal. Houve ocasiões em que me dei no meio de discussões ou a sabotar o interesse de alguém do sexo oposto, antes de perceber que as palavras haviam perdido significado no diálogo. Isto levou a que com o tempo eu começasse a tentar compreender a comunicação não-verbal e, faltando-me uma naturalidade, a fazer um esforço de interpretação. Este é tão extenuante como ainda pouco satisfatório. Na melhor das hipóteses, dir-me-ão que “ando mais calmo”. Existirá talvez uma meia-dúzia de pessoas junto das quais posso ‘desligar’. Com quem posso estar da forma que me é natural, sem o medo de estar a representar um uncanny valley comunicacional.
Acuso: para lá dos preconceitos bem definidos e justamente censuráveis relativamente a atributos fÃsicos, orientações sexuais, classe social ou idade, existe toda uma categoria de preconceitos sem-nome e socialmente aceites relativamente aos pequenos desvios a uma tal ‘norma’ que ninguém é seriamente capaz de definir. São formas de preconceito que moem na sua subtileza, sendo tão destrutivas – senão mais, ao serem livremente expressas – como as formas capitais. Aquilo que não é facilmente identificável numa primeira impressão – um ligeiro defeito no andar, uma assimetria facial, um tique ocular, ou um episódio de echolalia (repetição imediata de uma palavra ou uma frase) - causará um pensamento de “há qualquer coisa de estranho nesta pessoa”. Sem uma consciência da verdadeira diversidade humana, tal pensamento é o ponto de partida para o preconceito subtil que envenena as mentes e atrofia os corações.