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O Carro

Tenho um carro. É um Fiat Punto de primeiríssima geração, fabricado pela marca de Turim em 1995. É um carro vulgar, motor de 1.1 litros e 55cv de potência, e uma pintura cor de ratazana metalizada. A única excepcionalidade reside na caixa de seis velocidades, algo que deve ter parecido boa ideia a algum engenheiro transalpino com uma tendência excessiva para o consumo de bebidas alcoólicas. Esta caixa armada em especial de corrida é a razão pela qual a minha condução requer que eu mexa na manete das mudanças mais que o normal, o que me dá a fama de nervosinho ao volante. O carro tem ainda um risco na mala, duas amolgadelas na porta, um auto-rádio que não funciona e um limpa pára-brisas disfuncional. Em compensação tem também encostos de cabeça, vidros eléctricos, e a patina resultante de dez anos a ser estacionado na rua.

O meu Punto já foi assaltado diversas vezes (embora os bens furtados se tenham resumido a um colete reflector, umas fotocópias de Teoria e Crítica da Arte, e uma cassette), pelo que entretanto comprei um daqueles apetrechos que bloqueiam o volante. Mas aparte a questão da mobilidade que tento limitar a terceiros porque a gasolina é cara, vejo o meu carro como um espaço público sobre rodas. Lavo-o porque me chateia conduzir com lama no pára-brisas, e devo tê-lo aspirado pela última vez há uns cinco anos. Há coisas mais importantes na vida do que aspirar o carro. Incluindo não fazer nada.

Tendo 14 anos e uma quilometragem que já passou a centena de milhar, há quem possa dizer que se trata de um carro ‘velho’. Eu discordo. É ‘antigo’. O Fiat anda de A para B com pouca manutenção. Tenho poupanças que me permitiriam comprar um carro recente, talvez mesmo novo, mas sinceramente preferia gastá-las em SuperBock ou coisas ainda mais úteis. Além disso ainda há uns meses fiz um upgrade que consistiu na compra de uns tampões para as jantes no Continente.

Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja.

Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja.

Nunca criei uma relação afectiva com o meu carro. Nunca lhe chamei Bolinhas ou Antunes. É somente O Meu Carro. Que, se um dia puder dispensar, gostaria de empurrar por uma ribanceira abaixo, ficando depois a vê-lo explodir – segurando na mão direita uma câmara, na mão esquerda um Martini, azeitona verde  no fundo do copo.

O único problema é que evidentemente este meu comportamento de desprezo para com o veículo que conduzo vai contra as normas sociais vigentes. Possuir uma viatura com mais de uma década e que requeira pouca manutenção é visto como uma forma de quase-indigência, enquanto se requerer muita manutenção é sinal de riqueza. É notável como o meu estatuto social aumenta automaticamente quando estou fora da cidade – não tenho o hábito de levar o meu carro para fora. Mas quando estou no Porto, passo a ser um cidadão de segunda sempre que esteja dentro ou junto da minha viatura. Páro no semáforo e o condutor ao meu lado ou o peão na passadeira põe um ar de superioridade, queixo subido e sorriso contido, como se o carro fosse o reflexo do valor da pessoa que o conduz. Mas pior é tentar obter uma cedência de passagem. É o apartheid automobilístico.

Certas mulheres olham para o Punto com desconfiança, e depois olham para mim com desconfiança. Se vamos sair e por alguma razão ou lhes dou boleia ou vêm o que conduzo, passam a noite a tentar averiguar, de formas que variam entre as mais directas e as mais subtis, se o carro é uma excentricidade, o verdadeiro reflexo das minhas possibilidades, ou consequência da minha avareza (o lixo electrónico que tenho em casa discorda). Como não têm nada a ver com isso, é normalmente a partir desse ponto que surgem as mensagens que dizem “estou muito ocupada” e coisas do género (como se uma mulher interessada não arranjasse tempo para café), para minha total falta de surpresa.

Entrámos no território do Boi do Príncipe, do Ken à escala 1:1: tal como para muitos a progressão natural da vida é Curso, Trabalho, Casamento, Filhos, Crise dos 40, Divórcio, Casamento, Filhos e Morte, aparentemente há também uma Progressão Natural das Dívidas – o Carro, a Casa, seguida da Mobília e de uma série de electrodomésticos organizados por prioridades, da Televisão à Câmara de Vídeo. E o Príncipe Encantado já não é o knight in a shining armor, mas aquele quem tem o maior número de objectos prateados dentro desta ordem de prioridades.

Há uns tempos vi no outro lado da rua uma rapariga com quem saí há uns tempos e que me recordo ter sido extremamente frontal quando me perguntou quanto é que eu ganhava na nossa primeira e única saída. O seu actual namorado seguia dez passos agressivos à frente, numa cena que me trouxe memórias esquecidas dos meses que precederam o divórcio dos meus pais. Havia também uma promessa de violência no andar do senhor. Cobarde como sou, virei-me para uma montra, escondendo-me enquanto assistia ao desenrolar da cena através do reflexo. Ela entrou para um carro de grande cilindrada, de traseira gorda e pintura prateada teutónica. Pensei, sem por um momento duvidar que estava a sentir um misto de Schadenfreude e amargura: ela tem o que queria. Afinal está tudo bem.

Paradoxos I

Vénus é um brilhante ponto branco que, por estar mais próximo do Sol do que a Terra, apenas é visível ao anoitecer e, segundo ouvi dizer, ao amanhecer. É de facto um planeta bonito, e talvez por isso baptizado com o nome da deusa romana do Amor, e apelidado de Estrela da Manhã. Já Marte é na melhor das hipóteses uma tristonha pinta cor de ferrugem no céu estrelado, e por isso baptizado com o nome do deus da Guerra. E a partir daí, e ao longo da História, toda uma mitologia se desenvolveu. As mulheres são de Venus e os homens de Marte, Vénus é um paraíso tropical povoado por amazonas, enquanto Marte é uma wasteland de canais fétidos habitada por criaturas verdes e cuja parte superior do crânio é de vidro e que nos querem matar a todos.

Transmissão de fotograma, Venera 9 (20 de Outubro de 1975)

A sonda Venera-9 ainda se aguentou mais de 50 minutos. Num sítio onde o vidro e o alumínio derretem. E onde o titânio começa a arder. Porra!

Só há um problema nisto tudo. Com a exploração espacial descobrimos que Marte é um deserto frio e inerte, talvez o sítio mais aborrecido do sistema solar. Vénus, por sua vez, é o Inferno, onde a sobrevivência da maquinaria pesada soviética se mediu em minutos. Deveriam trocar de nome? Ou não…

Encalhar

Hoje à tarde fui com uma amiga a um daqueles sitios junto da praia onde uma chávena de café é mais cara que um sumo. Enquanto tentávamos gozar o Verão à força, contra a forte Nortada, falámos de Assuntos. Ela disse-me que estava na hora de assumirmos de uma vez por todas a ‘solteirice’. As nossas recorrentes histórias de Falhanço Épico, Falhanço Trágico, e des-interesse (sic) por parte das respectivas Pessoas de Interesse serão as provas de que aprendermos a viver sós será a atitude inteligente.

O meu problema é que tenho sempre esta imagem na cabeça:

Na verdade, a imagem que me surge na mente é a do cargueiro que esteve durante muitos anos na minha infância encalhado junto ao Castelo do Queijo. Mas não é tão interessante como esta foto.

Na verdade, a imagem que me surge na mente é a do cargueiro que, durante muitos anos na minha infância, esteve encalhado junto ao Castelo do Queijo. Mas não é tão interessante como esta foto.

Outra amiga deu-me um sábio mantra, quando me descrevia o modo como o trabalho no campo (da apanha de fruta) desocupa o cérebro de outros pensamentos. Disse-me, limitamo-nos a repetir “pêra, pêra, pêra, pêra…” de sol a sol.

Pêra, pêra, pêra, pêra, pêra…

Pensamentos I

Falei com uma amiga acerca dos meus problemas de índole sentimental. Ela tentou animar-me dizendo que “para cada tacho há um testo”, ou que “para cada pires há uma chávena“. E fiquei a pensar se não serei um passe-vite.

Morte ao Príncipe Encantado

Fui hoje alertado para uma qualquer disfunção nos arquivos. Corrigi-a e espero que o site tenha voltado a funcionar como deve ser. Aproveitei para dar mais uma vista de olhos pelo meu antigo material e encontrei este belo artigo que escrevi em 2004. Admito que foi produto de uma crise de ressabiamento, mas continuo contudo a achá-lo cheio de verdades. Continuarei a escrever acerca deste tema mais tarde, alimentado pelos episódios que vivi nos últimos cinco anos. Não haja dúvida, cá continuo com o meu fervor revolucionário, o desejo do sangue de Príncipes, Duques, Condes, Viscondes, Marqueses, Barões, Baronetes e aristocratas diversos. Sem um real e indispensável 25 de Abril do Amor as revoluções políticas serão sempre passageiras:

Já é tarde. Três finos na mesa. Três gajos conversam descontraídamente. Subitamente, entra no bar uma mulher bonita que interrompe essa conversa, e talvez outras conversas noutras mesas. Logo atrás, estendido como se segurasse uma trela, o braço de um azeiteiro de t-shirt justa, fio de ouro, cabelo bem puxado com gel, e uma fronha que não engana ninguém – um violento com quem não nos queremos cruzar na rua. Fala-se então de outra coisa, já não do passaporte falso do Mantorras, mas sim da hipocrisia inata às mulheres, que falam de umas coisas bonitas - sentimentoshomens sensíveis – mas acabam invariavelmente por se comprometer com broncos da pior espécie. Eu descobri o culpado deste fenómeno: o cabrão do Príncipe Encantado.

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