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Entalados

Eat the Rich / Kill the Poor, do colectivo Democracia, 2010

Vivemos num mundo em que existem mais pessoas do que trabalho para ser feito. Isto não significa que exista um excesso de população. Trata-se de um rácio. A computação, a automação, as eficiências necessárias para alimentar sete mil milhões de bocas e vestir sete mil milhões de corpos, levam a que exista uma grande insuficiência de coisas importantes para fazer. Poucos cultivam a terra, poucos são necessários nas fábricas a fazer coisas importantes. Fazem-se produtos que duram pouco para poder empregar quem os faça, destrói-se o Ambiente para se fabricarem inutilidades que empreguem mais homens do lixo e mais pessoas no processo de reciclagem. Inventam-se Gestões, Marketings, Designs de estratégias de investimento criativo, Consultorias de certificação ISO e outras tantas inutilidades com o objectivo de ocupar um número adicional de seres humanos enquanto participantes na economia; enquanto se empilham pós-doutoramentos em cima de doutoramentos, doutoramentos em cima de mestrados e estes em cima de pós-graduações, de modo a tentar atrasar a entrada de outros tantos desafortunados num Mercado de Trabalho tão deserto de emprego como o do Bom Sucesso o é de legumes.

O pouco trabalho que existe será de quem se oferecer para trabalhar mais por menos, seja o operário Chinês, seja o estagiário. A perversa aritmética deste sistema não deixa espaço para reinvindicações nem recuos: o desespero, aonde quer que ele exista, furará qualquer greve. Qualquer dita Utopia pressupõe ou o genocídio dos discordantes ou a fome daqueles que uma utopia regressiva não conseguirá alimentar. Apenas podemos andar para a frente e aguentar-nos à bronca. Só uma escolha pessoal que constitua uma força colectiva pela justiça, pela solidariedade e pela ciência, nos pode ajudar a sair deste desconforto em direcção a um destino incerto – em vez do desastre certo.

Mas como?, quando aqueles a quem a vida corre bem tendem a sentir-se Eleitos e Iluminados e de algum modo superiores aos restantes – a ralé preguiçosa, descrente, merecedora do seu infortúnio…

Um estádio cheio de improbabilidades

Mais reciclagem, desta feita de um artigo que escrevi em Fevereiro de 2004 acerca do modo como as probabilidades nos confundem… Duvido que hoje, com a forte adopção das lâmpadas CFL, haja muitos ‘médiuns’ a fazer previsões acerca de lâmpadas fundidas em directo na televisão:

Pensem em coisas extremamente improváveis de acontecer. Digamos, algo com uma probabilidade de um em um milhão de acontecer na próxima hora. Como encontrar uma nota de duzentos euros na rua, ou de levar com um vaso na cabeça. Parecem hipóteses reduzidas, mas dizem-nos que na próxima hora haverão dez felizes contemplados em Portugal, e seis mil felizes contemplados com duzentos euros no mundo (e outros tantos infelizes, com uma rachadela na cabeça). Durante as próximas 24 horas, existirão 144 mil contemplados no mundo – isto é, os Estádios da Luz, Alvalade e Dragão cheios de gente a quem aconteceu a mesma coisinha específica cuja probabilidade era de um num milhão. Pensando melhor, a hipótese de encontrar duzentos euros na rua talvez seja de um em um bilião. Mas espero bem que a de levar com objectos em queda também ande por esses lados.

É um exercício interessante pensarmos um pouco nas probabilidades: tanto milagre desmistificado. Dá para ver que a esmagadora maioria das pessoas não pensa. Acreditam na Sorte, uma misteriosa aura verde presente em certos sítios em que terá sido usado o spray de Piço que me dizem estar à venda no Mundo Místico. Senão como podemos compreender os cafés e agências da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que colocam cartazes fazendo alarido dos bilhetes da lotaria premiados que aí venderam? Alguém que pense que a probabilidade de algo acontecer duas vezes seguidas no mesmo sítio é menor apenas pode fazer um entendimento desta publicidade: ir meter o Totoloto longe.

No livro Feiticeiros e Cientistas o autor Henri Broch refere um exemplo curioso: num qualquer ‘talk-show’ fatela em França, um homem apresentando-se como médium anunciou de forma solene, com uns ‘abracadabras’ pelo meio, que iria estoirar com as lâmpadas da sala de toda uma série de teleespectadores. Dali a momentos, começaram a chover os telefonemas, espectadores emocionados que testemunhavam o milagre e os poderes do médium. Henri Brosch demontra então através de simples matemática que, tendo em conta o tempo de vida de uma lâmpada e a audiência média do programa (em França), várias centenas de pessoas terão sido contempladas com esse milagre. E entre centenas de espectadores de telelixo há sempre meia-dúzia disposta a telefonar (ou a enviar um SMS para o rodapé) e a dar o seu testemunho emocionado.

Vejam-se os milagres das aparições de Cristo em manchas de humidade na parede. Quantos milhões de manchas de humidade existem nessas paredes pelo mundo fora? Durante a última semana, vi em diversas manchas de humidade o gato Sylvester, a mama da Janet Jackson e o Liedson a representar Hamlet (com o Beto Acosta no papel do fantasma). Mas basta que alguém com a inclinação certa imagine a Virgem Maria e está o caldo entornado! Os crentes acorrem ao local, e esperando ver uma aparição, vêm-na realmente, quando a Gestalt suprime a impressão inicial dos poucos desconfiados, secretamente com a impressão de que a mancha tinha bigode.

Curiosamente existe um local onde o entendimento das probabilidades é lúcido: é senso comum nos casinos esperar pelas máquinas que não dão prémios há mais tempo. Mas é precisamente nos casinos que as regras das probabilidades não se aplicam, devido à acção de misteriosas forças. Andamos todos trocados.

Teoria Unificada

Se faltam novas ideias, recicle-se material antigo. Ao repor este artigo de há seis anos atrás, que inclui a famosa referência ao tal pinguim de bronze que se viria a tornar desde em então numa private joke, provo que a minha opinião acerca da vida não mudou – é uma sucessão trágica de acontecimentos aleatórios sobre os quais a nossa capacidade de intervenção é mínima. Resta-nos o amor, e o humor:

Imagina que estás a preparar-te para saires de casa rumo a mais um dia de trabalho. Estás a lavar os dentes e reparas no bocado de bacalhau que está entre dois molares desde o jantar de ontem. A escova é ineficiente e tens que usar fio dental. Como não há fio dental, tentas utilizar um bocado de fio que está pendurado da toalha. Com tudo isto perdeste um minuto a mais, e consequentemente vais perder o autocarro, esperar pelo seguinte que só chega passado meia hora, e assim acabas por ser despedido porque este mês ainda não chegaste a horas uma única vez. Assim, talvez fosse melhor não lavares os dentes de todo, mas assim irias ser atropelado ao atravessar a rua. Não, o melhor mesmo era ter comido só sopa no jantar de ontem – assim não és nem despedido nem atropelado. Mas tem o cuidado de sair mais cedo daqui a 15 dias, senão vai-te cair um pinguim de bronze em cima.

É um inegável que todos os pequenos pormenores das nossas vida podem ter uma influência directa no nosso futuro. Quando começamos a considerar todos os ‘ses’, começamos a ver como temos tido sorte. Como diz o meu amigo Alexander Russell, “se a Terra fosse amarela era uma bugiganga gigante” [ou, parafraseando Millôr Fernandes, se o Mohammed Ali não tivesse ganho os combates não teria sido campeão - Ed]. Tenho aliás que acrescentar que a Terra seria uma bugiganga gigante muito inferior a Titã, que sempre é um bonito cor de laranja. De qualquer modo, se a Terra fosse amarela, provavelmente não teria vida (excepto no Médio Oriente onde já estão habituados), pelo que não nos andaríamos aqui a preocupar. Assim, o melhor mesmo é não pensarmos nos ‘ses’. Olhar para trás não é uma boa ideia, especialmente quando podemos olhar pelo retrovisor.

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Aliens

A crença em aliens é provavelmente a a prova final de que a Humanidade está entregue irremediavelmente à estupidez. Não estou com isto a negar a probabilidade de existência de vida extra-terrestre, que julgo elevadíssima. Quando falo da crença em aliens falo da crença no homem verde, no E.T., no Chewbacca, na crença de que de facto andou uma betoneira gigante a abduzir pessoas em Alfena, enquanto na estrada entre Alcochete e o Montijo apareceram umas luzes fortes que vieram de Andrómeda com o único propósito de efectuar uma colonoscopia a um especialista em caixilharias.

São mais idiotas que adolescentes que ainda acreditam no Pai Natal, ou que universitários que ainda acham que os livros só dizem a verdade, aqueles que acreditam em selenitas e marcianos. O Universo é tão vasto que, embora o julgue difícil de conceber sem vida inteligente fora da Terra, estamos para todos os efeitos sozinhos no espaço. As outras civilizações, estão muito, muito longe ( o que equivale a dizer: há muito, muito tempo). Mesmo a viajar quase à velocidade da luz, um alien demoraria imenso tempo – e gastaria imensa gota – a chegar ao Burger King da A28.

É preciso p0rtanto pensar um pouco nas motivações: Podemos acreditar que os habitantes do Planeta Zyx reuniram uma boa parte do combustível nuclear do respectivo sistema solar dentro de um grande disco voador habitado por 10 mil Zyxianos, que durante 400 gerações vividas a bordo da grande nave atravessaram os 400 anos-luz de espaço interestrelar que separam Zyx da Terra, com o objectivo de retirar a unha do dedo mindilho do pé esquerdo a uma cabeleireira que seguia cerca das 21:30 ao volante do seu Opel Corsa na estrada Arouca – Vale de Cambra? E falamos nós em obras faraónicas!

A exploração espacial é muito, muito difícil. Capazes da estupidez que implicitamente os relatos de OVNIs associam aos extra-terrestres, só mesmo nós, os terráqueos.


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