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Comprar o jornal ao Domingo

Ultimamente tenho vindo a ponderar qual será o índice económico ideal para determinar a vitalidade socio-economico-cultural de uma cidade. E julgo que o descobri.

Proponho a criação do Índice de Facilidade de Compra de um Jornal ao Domingo. Por exemplo, no Porto: o Dr. Rui Rio quer-nos fazer acreditar que a sua política de reabilitação urbana é um sucesso, isto porque agora há duas ruas (até Outubro alegremente patrocinadas pela Câmara Municipal) com alguns bares onde às Sextas e Sábados à noite se junta toda uma multidão vinda dos arredores à procura de temas de conversa para Segunda-feira de manhã. No entanto, qualquer verdadeiro portuense sabe que o Índice de Dificuldade da Compra de um Jornal ao Domingo atingiu hoje talvez o seu nível mais elevado.

Por exemplo, hoje, 16 de Agosto de 2009. Apesar da haver imensos turistas pela Baixa, fui obrigado a ir comprar o jornal à Estação de São Bento e mesmo aí “já só há o ‘Noticias’”. Jornais ‘esquisitos’ como o Público só mesmo naqueles locais com muita imprensa internacional, como os shoppings e as bombas de gasolina. Bela reabilitação, Dr. Rio!

Entre uma rocha e um sítio duro

É o estágio não remunerado. É a experiência de seis meses. É o mostra o que vales, que a gente dá-te ajudas de custo. É o projecto jovem e inovador, que pagará logo que existam receitas. Oferecem equipas dinâmicas, equipas bem-dispostas, a oportunidade de trabalhar com os melhores clientes do mundo. A única coisa que não oferecem é um salário, quanto mais um salário  justo. Os anúncios do Carga de Trabalhos (que é apenas um exemplo) são das coisas mais deprimentes imagináveis. Nesse idílio empresarial não existe o dinheiro – raíz de todo o mal. E também nunca é apresentada a realidade do patrão que obriga o estagiário a dividir fifty-fifty o subsídio estatal, nem do patrão que o promete, promete, e nunca chegou a meter os papéis.

Há que chamar ao estágio aquilo que realmente é: roubo e exploração, e denunciar os empresários que a ele recorrem. As implicações morais e éticas do trabalho não remunerado – violação flagrante dos Direitos Humanos – aparentemente não incomodam ninguém, portanto temos que reflectir também nas implicações económicas: Além de ser uma forma de concorrência desleal, pois quem não paga aos trabalhadores pratica preços (ligeiramente) mais baixos, o estágio implica evidentemente uma quebra brutal no poder de compra de uma geração. E ainda:

Senhor Cliente: está a ver aquelas facturas que discriminam os honorários de uma série de colaboradores pagos com uns 25 euros/hora (o que daria vontade de rir se não desse de chorar)? É pura mentira. Você está a ser roubado. Para a próxima, faça uma pesquisa pelos sites de oferta de emprego. Veja o que é que a empresa que contratou oferece aos trabalhadores.

É uma ideia simples. Uma vez que nenhum Governo tem tomates para criminalizar o trabalho não remunerado, incentive-se o boicote às empresas que o praticam e por arrasto enganam os respectivos clientes.

Evidentemente, isto dificilmente acabará enquanto existir gente disposta a trabalhar sem receber. Enquanto uns precisam de ganhar para o pão, há por aí muitos palermas a quem os pais pagam uma independenciazinha IKEA e se podem dar ao luxo de roubar empregos a quem realmente precisa.* Mas eu, se for um cliente que espera um trabalho bem feito em troca do dinheiro que vou pagar, não quererei certamente gente dessa a meter-lhe a pata.

Trabalho não remunerado é roubo – não só aos trabalhadores como também aos clientes e a todos nós.

* Uma palavrinha acerca dos grupos de protesto contra a precariedade: um grupo de agentes sabotadores enviados pelas confederações patronais dificilmente conseguiria vir com uma ideia mais contraproducente do que a marcação de protestos para o Piolho.

Pirâmides

Mal sabia eu o que viria aí quando, a 4 de Julho do ano passado, escrevi o artigo que reponho mais abaixo. Lembro-me que nesse dia tinha ido ao Banco ‘trocar as fichas’ depois de a Bolsa ter tido mais um crashzito fatela de uns três porcento. No balcão juraram que a Bolsa tinha batido no fundo, que a recuperação começava no dia seguinte, que a seguir ao Verão estaria rico. Mesmo estando em causa um ‘fundo de investimento’ e uma quantia pequena (basicamente era um depósito dos restos não-esmifrados de prendas de Natal e de aniversário), sinto-me hoje orgulhoso dos meus ouvidos de mercador. Mas em relação ao artigo, não tive tomates para colocar por escrito a conclusão lógica do meu raciocínio – que a Economia mundial é um colossal esquema em Pirâmide, tal como Douglas Ruskoff descreve eloquentemente neste artigo. Fica o meu artigozinho ligeiro:

Há uns dias recebi um e-mail de um senhor que se apresentou como Ministro dos Transportes da Gâmbia em que me era pedida ajuda financeira. Sim, a mim!, um portuguesito com uma conta bancária igualmente diminutiva.

Continuando. O Ministro dos Transportes da Gâmbia necessitava de dez mil euros para pagar uma taxa qualquer para fazer qualquer coisa envolvendo muito milhões de dólares que estão num offshore na Suíça. Mais tarde eu receberia os meus dez mil euros de volta, mais um milhão de dólares. Ou seja, tendo em conta a cotação do dólar, pagar-me-ia mais uns 10% de juros. Não é um negócio lá muito atractivo, mas em tempo de crise [mal sabia eu - Ed], porque não?

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