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Histórias

Estou quase a acabar de ler Generation A do Douglas Coupland. O livro não é extraordinário, estando bastante longe de algo como o Jpod, mas fala bastante de algo que me tem ocupado os pensamentos nos últimos tempos: é que acredito que a vida é uma sucessão probabilística de acontecimentos e de momentos, e qualquer coerência aparente apenas poderá ser

  1. fruto das probabilidades (escassas) / sorte;
  2. resultado de um esforço muito deliberado (e muito pouco compensador).

A vida não é, portanto, um filme. Ou qualquer outra forma narrativa. Uma verdadeira biografia será, na melhor das hipóteses, uma massa desinteressante pontuada por alguns momentos de interesse. As histórias da nossa vida que contamos (incluindo as que valem realmente a pena contar) são sempre relatos posteriores. Pequenas narrativas fruto de uma ordenação e reordenação do passado.

in 'Generation A' de Douglas Coupland

in 'Generation A' de Douglas Coupland

Ninguém me irrita mais, portanto, que as pessoas que querem fazer o contrário, vivendo momentos escritos e planificados. Dois exemplos muito diferentes:

  1. A mulher que no meio de uma discussão não desfere um ataque verbal contra mim mas, pelo contrário, diz uma deixa (ex. “Eu não estou à procura de uma relação”) para ser apreciada por uma audiência invisível. Ouve: a nossa vida está aqui mesmo – não somos actores em nenhum filme francês.
  2. O tipo que, enquanto eu esperava aflito no corredor do bar, snifava coca na casa de banho armado em Gordon Gekko, provavelmente usando um Andante (passe mensal dourado) para desenhar a linha na caixa do autoclismo. Enquanto me tentava abstrair das três SuperBocks na bexiga, reflecti em como ninguém estava a ver o gajo*  -  porque é que não se limita a enfiar aquela merda pelo nariz acima com o dedo?

Cinematografizar a vida, admito, é algo em que todos caímos. Se vou entrar num sítio, penso na forma como o George Clooney ou o Brad Pitt entram nos sítios nos Ocean’s. Mas parte de mim espera que no fundo ninguém repare – precisamente porque não sou nem o George Clooney nem o Brad Pitt nem, infelizmente, me pareço com algum deles. Mas existe algo de fundamentalmente nefasto neste comportamento: sinto que estou a lidar com pessoas que se referem a elas próprias na terceira pessoa, estilo “o Jardel tem treinado bem e acha que o mister confia nele”. Ou com alguém que, quando se lhe pede que desenhe o que viu, se inclui a ele próprio na desenho.

Os meus olhos estão aqui mesmo, na minha cabeça, e só vejo para fora.

* Muito bem, nem eu. Mas o gajo saiu da casa de banho raiado e a fungar e juro que ouvi o que presumo ser um cartão plastificado a raspar qualquer coisa em cerâmica – mas ahah! aí o indivíduo até tinha uma audiência! Ora bolas…

Sintomas de velhice I

Scary

Dou aulas a gente que nasceu depois da Queda do Muro. No ensino superior.

Hoje dei por mim a segurar com um certo desprezo um daqueles Memory Sticks em versão mini que se usam nos telemóveis. Isto porque esse cartão apenas tinha 1GB de memória. Subitamente caiu a ficha: isso é nada mais, nada menos que o dobro que a capacidade do disco duro do meu primeiro PC, que terá custado aí para cima de uns trezentos contos em 1995. Ou cerca de 1100 disquetes do Commodore Amiga que tive anteriormente – umas três ou quatro vezes a totalidade da minha colecção, que se dividia entre disquetes com jogos pirateados em casa e disquetes com jogos pirateados e vendidos completamente à luz do dia, 500 escudos a disquete num centro comercial da Senhora da Hora. E nem vale a pena falar muito das cassetes do ZX Spectrum (tenho algumas com o mais belo stationary de sempre, de uma loja no C.C. Cedofeita – por baixo do nome do estabelecimento dizem muito simplesmente “Cópias de Jogos”).

Ou seja: será que o progresso tecnológico acelera o sentimento de velhice?

O Carro

Tenho um carro. É um Fiat Punto de primeiríssima geração, fabricado pela marca de Turim em 1995. É um carro vulgar, motor de 1.1 litros e 55cv de potência, e uma pintura cor de ratazana metalizada. A única excepcionalidade reside na caixa de seis velocidades, algo que deve ter parecido boa ideia a algum engenheiro transalpino com uma tendência excessiva para o consumo de vermute. Esta caixa armada em especial de corrida é a razão pela qual a minha condução requer que eu mexa na manete das mudanças mais que o normal, o que me dá a fama de nervosinho ao volante. O carro tem ainda um risco na mala, duas amolgadelas na porta, um auto-rádio que não funciona e um limpa pára-brisas disfuncional. Em compensação tem também encostos de cabeça, vidros eléctricos, e a patina resultante de dez anos a ser estacionado na rua.

O meu Punto já foi assaltado diversas vezes (embora os bens furtados se tenham resumido a um colete reflector, umas fotocópias de Teoria e Crítica da Arte, e uma cassette), pelo que entretanto comprei um daqueles apetrechos que bloqueiam o volante. Mas aparte a questão da mobilidade que tento limitar a terceiros porque a gasolina é cara, vejo o meu carro como um espaço público sobre rodas. Lavo-o porque me chateia conduzir com lama no pára-brisas, e devo tê-lo aspirado pela última vez há uns cinco anos. Há coisas mais importantes na vida do que aspirar o carro. Incluindo não fazer nada.

Tendo 14 anos e uma quilometragem que já passou a centena de milhar, há quem possa dizer que se trata de um carro ‘velho’. Eu discordo. É ‘antigo’. O Fiat anda de A para B com pouca manutenção. Tenho poupanças que me permitiriam comprar um carro recente, talvez mesmo novo, mas sinceramente preferia gastá-las em SuperBock ou coisas ainda mais úteis. Além disso ainda há uns meses fiz um upgrade que consistiu na compra de uns tampões para as jantes no Continente.

Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja.

Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja.

Nunca criei uma relação afectiva com o meu carro. Nunca lhe chamei Bolinhas ou Antunes. É somente O Meu Carro. Que, se um dia puder dispensar, gostaria de empurrar por uma ribanceira abaixo, ficando depois a vê-lo explodir com uma câmara na mão direita e um Martini (dos que são vodka, vermute do bom e uma azeitona, não dos que são aquela coisa engarrafada) na mão esquerda.

O único problema é que evidentemente este meu comportamento de desprezo para com a carruagem-sem-cavalo que conduzo vai contra as normas sociais vigentes. Possuir uma viatura com mais de uma década e que requeira pouca manutenção é visto como uma forma de quase-indigência (se requerer muita manutenção é sinal de riqueza). É notável como o meu estatuto social aumenta automaticamente quando estou fora da cidade (não tenho o hábito de levar o meu carro para fora). Mas quando estou no Porto, passo a ser um cidadão de segunda sempre que esteja dentro ou junto da minha viatura. Páro no semáforo e o condutor ao meu lado ou o peão na passadeira põe um ar de superioridade, queixo subido e sorriso contido, como se o carro fosse o reflexo do valor da pessoa que o conduz. Mas pior é tentar obter uma cedência de passagem. É o apartheid automobilístico.

Certas mulheres olham para o Punto com desconfiança, e depois olham para mim com desconfiança. Se vamos sair e por alguma razão ou lhes dou boleia ou vêm o que conduzo, passam a noite a tentar averiguar, de formas que variam entre as mais directas e as mais subtis, mas sempre bastante nítidas para mim, quais serão as minhas reais capacidades financeiras, se serei um bom provider. Ou se serei, pelo contrário, extremamente avarento (o lixo electrónico que tenho em casa discorda). Como não têm nada a ver com isso, é normalmente a partir desse ponto que surgem as mensagens que dizem “estou muito ocupada” e coisas do género (como se uma mulher interessada não arranjasse tempo para café), para minha total falta de surpresa.

Entrámos no território do Boi do Príncipe, do Ken à escala 1:1: tal como para muitos a progressão natural da vida é Curso, Trabalho, Casamento, Filhos, Crise dos 40, Divórcio, Casamento, Filhos e Morte, aparentemente há também uma Progressão Natural das Dívidas – o Carro, a Casa, seguida da Mobília e de uma série de electrodomésticos organizados por prioridades, da Televisão à Câmara de Vídeo. E o Príncipe Encantado já não é o knight in a shining armor, mas aquele quem tem o maior número de objectos prateados dentro desta ordem de prioridades.

Há uns tempos vi no outro lado da rua uma rapariga com quem saí há uns tempos e que me recordo ter sido extremamente frontal quando me perguntou quanto é que eu ganhava na nossa primeira e única saída. O seu actual namorado seguia dez passos agressivos à frente, numa cena que me trouxe memórias esquecidas dos meses que precederam o divórcio dos meus pais. Havia também uma promessa de violência no andar do senhor. Cobarde como sou, virei-me para uma montra, escondendo-me enquanto assistia ao desenrolar da cena através do reflexo. Ela entrou para um carro de grande cilindrada, de traseira gorda e pintura prateada teutónica. Pensei, sem por um momento duvidar que estava a sentir um misto de Schadenfreude e amargura: ela tem o que queria. Afinal está tudo bem.

Quando for ditador I: O Calendário

Isto da Democracia é muito bonito. É o único sistema político que oferece uma relativa garantia de liberdade de expressão, de igualdade de oportunidades, e outras coisas relativamente importantes. Mas há algo que julgo bastante importante com que a Democracia não é capaz de lidar: a estupidez do Calendário Gregoriano. Acho simplesmente irritante a sequência de meses com 31, 28 ou 29, 31, 30, 31, 30, 31, 31, 30, 31, 30, 31 dias. É estúpido. E por causa dos resultantes 365 ou 366 dias, indivisíveis por 7, nunca o calendário de um ano é igual ao anterior. Estamos evidentemente perante uma conspiração da Indústria Gráfica e dos fotógrafos que receberam encomendas da Pirelli para aumentar a venda de calendários de parede, calendários de bolso, agendas e recargas para filofaxes.

Quando for ditador resolverei este importantíssimo problema, indiferente aos lobbies e à necessidade de consenso internacional no que diz respeito à medição do tempo. Implementarei ou o Calendário Fixo Internacional ou o Calendário Positivista (dependendo da proposta que me corromper mais). Treze meses de vinte e oito dias, todos certinhos com dia 1 ao Domingo, dia 2 à Segunda, etecetera. Sobram um ou, se o ano for bissexto, dois dias, mas não precisam de ocupar nem um dia de semana nem um dia do mês se ficarem para o Ano Novo. Ninguém trabalha e estamos todos de ressaca, portanto até serão benvindos um ou dois Dias Zero.

Sob o meu regime, aquela agenda de 2007 por usar não se transformaria automaticamente num bloco de notas com umas datas inconvenientes impressas em cada folha. Seria sempre uma agenda. Decretaria ainda que o 3º trimestre do ano passaria a ter 4 meses, para compensar a silly-season. E ainda conseguiria irritar certas e determinadas pessoas, pois todos os dias 13 seriam sextas-feiras. Seriam só vantagens.

Homenzinhos e Mulherzinhas

Sou bastante imaturo no que diz respeito a uma data de coisas. A minha família e os meus amigos são disso testemunha. No entanto, eis que o outro dia descobri, através do blog do sr. Kottke, um artigo acerca dos comportamentos idiotas que um Homem / uma Mulher deverá abandonar após os 25 anos. Tendo eu trinta, e (julgava eu!) sendo eu um especialista em imaturidade, li com atenção o tal artigo, à espera de alíneas que condenassem veementemente os meus hábitos e o meu estilo de vida. Acabei por não me sentir tão julgado como julgava, e acabei por concordar com a maioria das alíneas, exceptuando aquelas que se referiam às obsessões americanas pelas gorgetas e pelas notas de agradecimento, e aquele ponto acerca das mulheres terem de aprender a andar de salto alto, o que achei foleiro (depois descobri que o autor afinal é uma autora, e continuei a achar foleiro).

Achei inclusivamente a lista algo incompleta. O Procrastinador Profissional afinal é uma autoridade em Maturidade! Eis portanto a minha lista de Comportamentos Que Definem Uma Pessoa Assim Para o Crescido:

1. Não esperar favores dos amigos
A autora do artigo original refere expressamente duas coisas: esperar que os amigos nos ajudem com as mudanças, e esperar que os amigos de outra cidade nos dêem um sítio onde ficar. A verdade é, sendo amigos, podem dizer que sim, mas sendo pessoas com a sua própria vida também têm todo o direito de dizer que não sem que fiquemos chateados. Uma pessoa minimamente adulta cá se há-de desenrascar. E ninguém está a contar favores.

2. Não contar favores
Entre amigos, dar é mais importante que receber. Uma tabela de Excel com débitos e créditos é algo que serve muito bem para uma conta bancária, não para uma amizade. Isto porque:

3. Não usar os amigos
Dar-mo-nos com alguém porque essa pessoa até nos vai fazer um site todo catita ou porque tem carro é, nas palavras da autora, soulless. Nas minhas: putedo.

4. Saber ocupar o espaço físico
Admito que por vezes não sou muito hábil neste ponto. Sempre fui um pouco descoordenado e distraído, e peço desculpa pelas vezes em que não dei conta que a fila da bilheteira avançou. Posto isto, irritam-me imenso as pessoas que são capazes de estar minutos a fio de pé a falar com um grupo de pessoas sentadas num café, especialmente quando quem está de pé está encostado à minha cadeira. É do género: “Senta-te duma vez ou baza!” Ou os casais que entram num bar e em vez de se encostarem à parede, ficam ali especados no meio das mesas, com aquela expressão semi-triste de quem acaba de descobrir que a marisqueira está cheia. Ou ainda quem procura a máxima densidade humana em sítios como a Galeria de Paris, tentando maximizar as probabilidades de ver e ser visto: qual é o problema de nos afastarmos uns 20 metros de modo a termos meio metro quadrado só para nós?

5. Cortesia
A falta desta é o pecado capital dos Portugueses. Se há campanha de sensibilização de que me recordo, é de uma do início dos anos 90, com um jingle meio xungoso, chamada Portugal Não É Só Teu. Evidentemente não resultou. É ver as ruas cheias de cagalhões de cão, e de carros a estorvar como se cagados pelos respectivos donos. Ou ainda a malta de zonas residenciais que fala alto e tem o unx unx unx aos berros às quatro da manhã. A liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade dos outros. Só assim nos entenderemos.

6. Ter vários temas de conversa
Aquelas histórias que se passaram no Secundário ou na Faculdade já não têm piada: por alguma razão nos deixámos de dar com a maioria dos nossos colegas. O nosso trabalho talvez não seja assim tão interessante para quem está fora. E ninguém nos atura se só falamos de uma coisa, seja de computadores, seja de motas. Como a autora refere, só somos interessantes se formos interessados no mundo que nos rodeia, o que não se reduz a um assunto.

7. Aceitar os outros
Por outro lado, se alguém é nosso amigo só temos que aceitar as suas paixões, hobbies e desvarios. Take me as I am, afinal! Uma relação (amizade or otherwise) sem isto é exactamente o quê?

8. Ter dinheiro
Não falamos de ter muito dinheiro, nem sequer de ter uma conta bancária. Falamos de ter sempre o dinheiro suficiente para pagar o café ou o tabaco, de ter dinheiro conosco para pagar o jantar sem ter que deixar o parceiro à seca enquanto vamos ao Multibanco. É evidente que entre amigos são possíveis pequenos empréstimos para facilitar os trocos, ou um regime de rodadas, ora pagas tu ora pago eu. Afinal ninguém conta estes pequenos favores! Mas a mitrice é muito, muito irritante.

9. Chegar a horas
Outro pecado mortal português é o chegar atrasado. Todos temos direito a chegar atrasados aos nossos compromissos uma ou outra vez, desde que tudo tivessemos feito para chegar a horas. O problema é que o Atrasado Típico Lusitano é um quase sociopata, um ladrão de tempo. E convenhamos, chegar atrasado não tem uma causa genética, ou coisa do género: qualquer um consegue chegar a horas aos seus compromissos. Se não o ‘consegue’, é porque não quer, e isto é do mais puro egoísmo: ninguém tem o direito de assumir que o meu tempo é menos importante que o seu.

10. Cumprir com os telefonemas
Estamos em 2009. As chamada de telemóvel são baratas quando não são gratuitas, os SMS ainda mais, e, embora já não existam tantos como antes, as cidades ainda estão cheias de telefones públicos. E se temos mais que 25 anos, é muito provável que existam muitas boas e fortes razões para que tenhamos sempre saldo e carga no telemóvel. Ou seja, as desculpas do “sem saldo”, “sem bateria” raramente serão admissíveis. Portanto, se eu digo que mando mensagem quando chegar: mando mensagem quando chegar. Se digo que amanhã à tarde ligo: amanhã à tarde ligo, pois senão mais valia ter ficado calado. Se vejo que um amigo ligou enquanto estava a preparar o jantar: devolvo-lhe a chamada. Se me enviou um SMS a perguntar algo: respondo. É assim que todos nos entendemos.

11. Fazer as coisas
Antes de chatear um amigo para mudar um pneu – ou instalar uma impressora: Google it!

12. Aguentar-se à bronca
A vida é uma merda. Amores não correspondidos, amizades que se cortam ou fazem fade, trabalhos que não satisfazem ou não pagam, desastres, violência, doenças, e depois a morte. Perante certas coisas a tristeza e a dor são reacções naturais e humanas, não obstante as máfias psico-farmacêuticas nos tentarem convencer de que são doenças a tratar. É fácil sentirmos pena de nós próprios. O problema é quando começamos a achar que esta dor deve ser partilhada pelos nossos amigos, esquecendo-nos que os nossos amigos já têm as dores deles. É bom ter alguém com que desabafar e ter quem confie de forma recíproca em nós, mas daí à constante necessidade de atenção e babysitting vai um grande passo. Ninguém pode afinal resolver os nossos próprios problemas. Queres pena? Chama o Bono.


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