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Domínio Público, toma!

Não é comum eu colocar aqui no Procrastinador artigos acompanhados de imagens ou vídeos a cores. Digamos que na minha opinião o preto e branco compõe o design da coisa. Mas acho que hoje o motivo não é para menos: decidi colocar dois dos meus trabalhos no Domínio Público. Não me refiro a aquela coisa meia estranha do Creative Commons ‘normal’, que é como quem diz “usa à vontade mas como eu te mando”, mantendo-se o meu copyright sobre as obras até 70 anos depois da minha morte – ou seja, o copyright manter-se ia até uma data hipotética que a título pessoal espero bem dentro do século XXII.

Questionando a Inspecção Geral das Actividades Culturais sobre como poderia colocar estes meus trabalhos no Domínio Público, propuseram-me uma doação à Secretaria de Estado da Cultura.

Pois, não, obrigado.

Felizmente consegui livrar-me do copyright através da Dedicação Universal da pouco publicitada versão zero da Creative Commons. Antes havia feito alterações nos vídeos, corrigindo erros e retirando todo o material que não tinha licença por escrito para utilizar – até tive o cuidado de usar tipos de letra com licenças livres. Pedi à Joana, responsável pela locução e todo o tipo de ajudas diversas (obrigado Joana!), uma declaração cedendo-me todos os direitos, de modo a poder atirar com os trabalhos: agora o Words and Thoughts in RGB e o Life is Change são vossos, são de todos. Os downloads estão aqui e aqui, respectivamente.

Usem-nos como entenderem. Cobrem bilhetes, remisturem, editem-nos em DVD e Blu-Ray, metam-lhe o logotipo do Continente ou da Galp no final. Não tenho nada a ver com isso. Apenas não lhes mudem os créditos – não o fariam com Os Lusíadas, pois não?

Caros senhores da CDU de Olhão

Eu não sou natural de Olhão, nem vivo em Olhão. Não sou algarvio, nem vivo no Algarve sequer. E em boa verdade, nem visito o Algarve. Passei umas férias com os meus pais ali para os lados de Lagos em 1997, e há coisa de três anos passei uma má noite de campismo selvagem entre Sagres e Portimão, antes de rumar para outra região do país. Julgo aliás que se contam pelos dedos de uma mão as vezes que atravessei o Tejo, e incluo nestas contas – não devia – uma estadia no Montijo, num dia em que houve uma chuvada tão forte que o Tejo estava literalmente à porta do hotel. É que nasci no Porto, vivo no Porto, e não viajo por aí além.

Portanto, é evidente que por mais que possa até simpatizar com a cor política (na verdade não posso dizer que simpatize muito com a cor, embora ache simpático o matiz) não tenho qualquer interesse nas propostas da coligação entre o PCP e outros gajos para a autarquia de Olhão, que é das poucas que não sei precisar lá muito no mapa (nem sei se é a barlavento ou a sotavento, e como nunca me interessei muito por sinónimos dos pontos cardeais não sei sequer o que barlavento quer dizer). Portanto:

Parem de me entupir o mail com essa merda.

Também não estou interessado nas actividades culturais do concelho, embora até ache curioso o facto da cultura de Olhão produzir e-mails à razão de dois ou três por semana enquanto a Área Metropolitana do Porto produz uma mini-revistinha trimestral. Mas de qualquer forma dispenso os e-mails, que estranhamente resistem à marcação como spam. E falam os outros de asfixia democrática…

Arqueologia Unificada

Volta e meia, quando estou numa de procrastinar em relação a alguma coisa – porque eu só trabalho quando isso implica que existe uma outra tarefa mais importante que estou alegremente a ignorar – vou desenvolvendo uma nova versão do meu portfolio (veja-se ao tempo que ando nisso).

O outro dia, enquanto passeava por todo o meu arquivo de criações web (cerca de 110 sites/versões desde 1997, o que não é assim tanto), à procura de sites portfolio-worthy, encontrei uma discreta criação minha que se me tinha varrido completamente da memória, chamada Teoria Unificada. Foi uma primeira tentativa de ter um weblog pessoal em Português que coexistisse com a Cafeína, e que durou de Julho a Outubro de 2003. E foi chocante encontrá-lo por dois motivos. O primeiro, porque me esqueci completamente da sua existência: senilidade precoce, ou sintoma de uma fraca qualidade que decidi reprimir? O segundo, porque ao lê-lo descobri a) até que ponto o Cafeína impunha uma marca à minha escrita e b) seis anos volvidos continuo a falar das mesmas coisas. O meu recente artigo sobre Aliens, por exemplo, é um auto-plágio inconsciente a algo que escrevi no T. U..

Apesar de tudo, o Teoria tinha uma aura depressiva-teenage que espero ter ultrapassado. Um copy-paste aleatório:

Quinta, 10 de Julho de 2003

A ideia: durante um ano coleccionar pacotes de açúcar vazios, e escrever neles a data de quando foram abertos com o fim de adoçar um café. Ver assim uma crescente representação material de um hábito repetido dia após dia, em cada um duas ou três vezes. Em alternativa, os fumadores podem coleccionar as pontas, o que julgo ser uma colecção ainda mais terrível. - 15:45

Quero que a ‘blogoesfera’ se foda. - 12:49

As médias são perversas. As médias escondem os extremos e a distribuição. E pior que tudo, há médias sem números, é a normalidade. É o que esperamos das pessoas, quando muito provavelmente raras são as que estão sobre a média. É estranho, mas é um pensamento confortável. - 2:33

Quatro meses de coisas neste registo. Bem fraquinho. Por isso já sei onde vou buscar artigos quando estiver sem ideias…

Redes Anti-sociais

Basta uma espreitadela à barra lateral deste weblog para ver que eu, como qualquer outro cidadão exemplar da Internet, também aderi a umas quantas redes sociais, apesar das minhas paranóias acerca da construção cooperativa de pequenos Big Brothers em que não precisamos de ser vigiados por organizações secretas porque achamos giro abdicar da privacidade voluntariamente. Há também uma parte de irritação mais imediata relativamente às redes sociais, tema do meu artigo para o Cafeína de Junho do ano passado:

Estava eu a beber umas cervejas com uns amigos num bar algo escuro e com música ao vivo e reparámos em duas moças aos risinhos noutra mesa, meio escondidas atrás de uma maçã fluorescente. “É o Futuro”, pensei eu, “o petróleo está a preços de ficção científica e a malta sai à noite com o portátil”. Mas achei que valia a pena averiguar o porquê dos risinhos. Fui buscar uma rodada ao bar e espreitei o ecrã do computador. Vi o que temia: o Hi5. As moças estavam a passar a noite num bar, a micar os gaijos da Internet!

Eu confesso: tenho um perfil no Hi5 (e no Facebook, no LinkedIn, no Star Tracker, no MySpace – mas nunca tive paciência para este – no Vimeo, no YouTube, no Twitter, no Twine… bem percebem a ideia). Tenho um catálogo de amigos, amigas, algumas pessoas que não conheço de lado nenhum mas não quis ofender, e inclusivamente cães falantes. E o mais estranho é que não sei explicar porquê. Ou se calhar sei: somos tristes e sós. Esperamos que alguma amiga das nossas 276 amizades no Hi5 seja a mulher da nossa vida, além de gira e boa. Esperamos que algum contacto de um dos nossos 353 contactos no LinkedIn tenha de alguma forma a responsabilidade de gastar o dinheiro do Joe Berardo num jovem licenciado com pouca experiência.

As redes sociais são um pouco como jogar no Euromilhões. Todos queremos alguma coisa de alguém, por vezes precisamos é de descobrir de quem.

São também óptimas ferramentas para reencontrar pessoas. Por exemplo: há uns tempos vi num café uma Miúda Gira que andou na mesma escola que eu, e que na altura nunca tive coragem de abordar. O que é que faço? Ajo como Um Homem e vou lá meter conversa? Ou chego a casa, entro no Hi5 e procuro o grupo da nossa antiga escola? Eu fui pela segunda hipótese. Ali está uma rapariga que costumava dar-se com a Miúda Gira, deixa ver que amigas ela tem… e ali está, a Miúda Gira. Carrego ou não carrego? Carrego. Logo para começar, o perfil tem um fundo arco-íris que o torna quase ilegível. E depois ali está, o inevitável favourite book, “O Alquimista” de Paulo Coelho.

Miúda Gira, estou contente por não ter metido conversa contigo.

É evidente que isto é um pouco alienante, creepy e um pouco alienante e creepy. Também já se deu o caso de eu conhecer Miúdas Giras que não saem para tomar café porque estão ocupadas, ocupadas a juntar mais 27 amigos à colecção, a atirar almofadas a Fulano, a fazer cócegas a Cicrano, a escolher os seus dez signos astrológicos preferidos e a enviar videos do Enrique Iglesias a toda a gente. Sim, sou um ressabiado. Mas depois ainda tenho as amigas e amigos que ficam magoados por não serem top friends. Onde é que isto acaba?

Eu sei onde acaba. Top friends é um conceito limitado. Acho que o Hi5 ou o Facebook para serem perfeitos dever-nos-iam permitir cotar os nossos amigos com estrelas: “Hm, a A. chega atrasada sempre que vamos sair: três estrelas”. “O B. está sempre a cravar boleia: duas estrelas”. Ficaríamos todos só com bons amigos. Muito poucos amigos, mas bons amigos.

A internet é uma merda?

Este artigo foi originalmente publicado no Cafeína a 11 de Outubro de 2003:

Embora pareça paradoxal, um site chamado internetisshit.org fornece alguns bons argumentos rumo à conclusão de que a Internet é uma merda. De facto, tenho que concordar parcialmente com certas opiniões que afirmam que a Internet é uma merda, e que o seu impacto na sociedade acaba por ser limitado, principalmente quando comparado com o impacto provocado pelo aparecimento, em paralelo, dos telemóveis, que reformularam de forma radical a nossa forma de gerir o tempo e as relações pessoais. Mas penso que há várias formas de desilusão com a Internet, e o tal site apenas manifesta a sua desilusão face ao mito, muito difundido, de que a Internet será a maior biblioteca do Mundo.

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