Do Amor no Século XXI
Vi-a no café: pequena e magra, bracelete no braço moreno e cabelo encaracolado como uma ilustração clássica de Afrodite. Ela sorria. Sorria muito, um vislumbre de dentes brancos entre os lábios. E mexia no cabelo, brincava com os caracóis – tique de mulher apaixonada, ou pelo menos interessada. A sua companhia era um pequeno computador branco, a maçã trincada por esta presumÃvel Eva. Mas há que frisar: apenas o computador branco.
Quero acreditar que o papel do computador na cena é apenas o de meio de comunicação. Que presenciei uma mera actualização do ansioso telefonema que esta rapariga receberia de uma pessoa amada; da carta que chega após sabe-se lá quanto tempo e cuja leitura constitui uma deliciosa catarse. A explicação alternativa, sem dúvida uma possibilidade, sem dúvida a verdadeira em inúmeras cenas análogas, é o triunfo da Hiperrealidade. Os media sociais derrotaram a Realidade.