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Da fortuna

Descobri a weltschmerz aos 8 anos quando li, num livro de Astronomia Juvenil do Círculo de Leitores indicado para dos 9 aos 12 anos, que daqui a vários milhares de milhões de anos o Sol tornar-se-à uma estrela gigante que devorará meio Sistema Solar, a nossa Terra incluída. Perdi o sono durante meses, pois tinha descoberto a morte (até essa idade não tinha tido qualquer morte na família), e por sinal a inevitável morte última de toda a vida na Terra. Descobriria mais tarde mas sem trauma que me recorde que na realidade essa morte total está a alguns interruptores de distância. Que menino era eu!

Passaram entretanto mais de duas décadas que incluiram o divórcio dos meus pais, mortes na família, desistências de cursos, negócios falhados, traições, amizades desagregadas e rejeições com diferentes graus de cortesia; vinte e poucos anos de episódios que magoaram, dos banais e cinicamente previsíveis aos mais bizarros e absurdos, e dos quais ninguém, nem sequer eu próprio, tem o direito de sentir qualquer pena. É nisto mesmo que viver consiste: existem acontecimentos passados que magoaram profundamente e entretanto se tornaram meras anedotas, e existem coisas que continuam a magoar, ou pelo menos a condicionar quem somos. A tristeza significa insatisfação, porque queremos uma vida de alguma forma melhor.

O facto de metermos água não implica que nos tenhamos atirado propositadamente contra as rochas. Na maioria dos casos, é pura má sorte.

Não me considero um exemplo de estabilidade emocional. Acordo com um “f*da-se!”, saio de casa com um ardor lacrimejante nos olhos, estou eufórico a meio da tarde e regresso a casa prestes (mas nunca para lá disso) a esvair-me em lágrimas por causa de qualquer coisa como a previsão do tempo. O meu retorcido estado emocional não acompanha sequer aquilo que me vai acontecendo; acompanha apenas o retorcido que eu próprio sou.

No entanto, nunca saberei se aquilo que eu penso acerca de mim próprio será uma boa imagem da minha estabilidade emocional. Uma amiga minha refere-se frequentemente à minha ‘carapaça’, ‘armadura’, ‘pele de rinoceronte’, como se de alguma forma os dramas do passado tivessem feito ‘calo’ no meu coração e na minha mente. E surpreendo-me, de facto, pelas aparentes vulnerabilidades de pessoas próximas, pela forma como me rotulam de campeão do estoicismo. Eu conheço o meu “f*da-se” matinal, não existe ponta de estoicismo nele – pelo contrário, está cheio de autocomiseração (que só me começa a passar após o duche). O que prova que nestas coisas das emoções tudo é relativo, e é fácil vermos os outros como seres sem emoções pelo simples facto de que apenas sentimos as nossas. E admito que, independentemente do que sinto, não acredito no cortar de pulsos, real ou figurativo. O Menino da Lágrima é uma má pintura.

Não posso esquecer contudo a triste verdade: quase ninguém se interessará, independentemente da minha atitude. E falar das emoções, mesmo que positivas, raramente resultará em algo de bom.

Antes pelo contrário. Somos vistos como falhados se admitimos que por vezes falhamos. Fazemos parte de uma sociedade que adoptou os valores, a meu ver absolutamente detestáveis, de Ayn Rand: o valor de alguém é quantificável e mede-se pelo dinheiro que esse alguém ganhou; coisas subjectivas tais como ‘ser boa pessoa’ de nada interessam. Perante isto, falar de sorte e azar será a desculpa dos losers.

Exceptuando tragédias que envolvam a morte ou doenças graves (e nem sempre serão motivo de excepção), na realidade somos culpabilizados pelos nossos infortúnios. Uma má colheita? Dizem-nos que foi uma má opção de investimento, loser! Rejeitados no amor? Dizem-nos que existe uma causa, invariavelmente nossa culpa – losers – seja porque não temos a cara do Brad Pitt, seja porque não temos dinheiro suficiente para cativar quem queríamos – por exemplo fazendo a plástica que nos põe a cara igual à do Brad Pitt, ou comprando uma droga que nos proporcione uma auto-estima injustificada. O que segundo a MTV é o que os winners fazem. E se não temos dinheiro, é nossa a culpa de não conseguir um bom emprego - loser! Tu e os restantes 10% de desempregados, os estagiários e os precários! Sendo evidente o facto de que é estatísticamente impossível todos sermos machos alfa, bonitos e ricos, somos não obstante culpados de não o sermos, e marginalizados se não o desejarmos.

Aboliu-se a distinção vital entre os binómios sorte – azar e mérito – demérito; muitos livros de Gestão dizem-nos que somos nós que temos que estar preparados para ter sorte, responsabilizando-nos por ela. Esta ligação entre sorte e mérito cria personalidades monstruosas quando a humildade é posta de parte – pessoas hiperdefensivas com sorte e sem mérito, solipsistas com sorte e com mérito. E a humildade é, dizem-nos, coisa de losers.

Alain de Botton explica melhor.

Restam os verdadeiros amigos. Os que nos ouvem e querem ouvir. E nos concedem que tivemos má sorte.

Lâminas

Estou prestes a escrever acerca de um sonho. Um pesadelo que tive. Sei o quanto gosto que as outras pessoas me falem dos sonhos que tiveram na noite anterior, daí o aviso. Provavelmente aquilo que se seguirá é uma estupidez sem interesse. No entanto, estando eu habituado ao género vulgar de sonhos em que a mente faz um mashup de tudo aquilo que a ocupou antes de ir dormir (infelizmente com mais inclinação para tirar reportório ao Euronews do que às meninas dos concursos nocturnos), não consigo deixar de pensar na falta de subtileza deste sonho que tive há um par de noites atrás:

Estava naquele cinema que só conheço dos meus sonhos – aquele em que temos de subir meia dúzia de degraus para comprar as pipocas, debaixo dos néons púrpura, amarelo e azul. Julgo que é um multiplex localizado num shopping, mas na realidade não conheço nenhum cinema com tal arquitectura. É curioso como nos meus sonhos existem uma série de cenários que são reutilizados: Não é a primeira nem a segunda vez que me encontro naquele cinema. Sei que um dia ficarei assustado quando (e não se) o encontrar no mundo real.

Há detalhes que me escaparam, porque nunca tive o hábito de tirar notas quando acordo. Não sei se estava só ou acompanhado, não me rec0rdo do nome do filme – que sei que sabia. Mas recordo-me do terror. Entrei na sala, essa semelhante a várias salas Lusomundo que conheço, com secções de cadeiras separadas por corrimões azul-claro, quando o filme já tinha começado. Um slasher-movie, terror gore série B. No filme, toda a gente tinha tido os braços e as mãos substituídos por espadas, talvez por um deus sádico. Estas não eram bem espadas medievais, nem sabres, nem floretes, nem cimitarras. Eram mais uma espécie de lâmina extremamente afiada, em forma de cunha alongada, com o comprimento de um braço. Qualquer contacto físico entre pessoas resultava consequentemente em mortes horrendas: cabeças cortadas, membros decepados, troncos impecavelmente cortados ao meio com um simples abraço. Qualquer toque implicava um derramamento generoso de sangue, como naquele sketch em que os Monty Python gozam com os filmes de Sam Peckinpah.

A crueza da metáfora aterrorizou-me. Aterrorizou-nos aos dois, o eu que dormia e o eu sonhado, que assitia, numa sala cheia por um público aparentemente indiferente, a aquele gore todo. Vi-me a fazer aquilo que, apesar dos péssimos filmes que já vi, nunca fiz na vida real – abandonar a sala. Acordei.

Sendo um idiota um pouco narcisista, senti-me talvez um pouco aliviado quando me apercebi que o meu score de aguentar filmes maus até ao fim continuava intacto. E interroguei-me se teria também lugar no filme dentro do sonho, e se tendo, se seria decepador ou decepado, ou ambos. Mas algo persistiu, o terror sentido perante metáforas tão cruas, óbvias e, pior que tudo, verdadeiras.

Private jokes e discursos íntimos

Existe um deus chamado Bruce. Não é um deus bondoso, nem maligno. É apenas Bruce, uma trindade: Nauman é a Luz (fluorescente). Mau é o design, o planeamento, e de certo modo a ACME das nossas vidas. E Lee, Bruce Lee, é a porrada que a vida nos dá. Existe ainda um semideus, Bud, o humor com que devemos encarar as coisas, sobretudo essa porrada que a vida nos dá.

Tal é a religião, estilo Spaghetti Monster, desenvolvida com uma amiga ao longo de muitas tardes de preguiça. Um de nós dirá “hoje Lee presidiu” e o outro dará o ombro, perguntará o que aconteceu. Bruce é um fragmento de uma linguagem íntima de que nós somos os únicos faladores. Surgiu espontaneamente, nunca nos sentámos e dissemos “vamos inventar uma religião parva”. São apenas metáforas que surgiram naturalmente no nosso discurso, evidências de entendimento e intimidade, tais como são as referências a Seinfeld ou a Smiths (“foi um plano à George”; “ainda levo com o double-decker”). Nunca teriam feito sentido se não conhecessemos e admirássemos Nauman e Mau; se não tivessemos crescido com os filmes de Lee, e com os de Bud e Terence Hill.

A linguagem da intimidade é construída. Pelas experiências e conversas comuns; e sobretudo pelos Momentos. Não é criada, não é partilhável, não é passível de ter qualquer significado quando citada. Com M. falo de Bruce Lee, com A. falo de pêras; referências diferentes para conversar sobre as mesmas coisas. Quer as private jokes, quer os discursos íntimos, são exactamente isso: privados e íntimos.

A ressaca

Saí da festa de passagem de ano, eram cerca de seis e meia da manhã. Foi uma festa divertida, que infelizmente não me senti incapaz de apreciar na totalidade, traído pelo excesso de consumo de álcool, que levou a uma enorme dor de barriga (talvez pela enorme quantidade de fruta que ingeri, esquecendo-me que o meu estômago não é um recipiente adequado para fazer sangria) e ao revelar da minha tendência para estados de embriaguez depressivos. O que leva a que este artigo seja patrocinado pela Coca-Cola (ainda não conheço melhor alívio para a ressaca).

Desci os três (ou seriam quatro?) andares de elevador, mentalizando-me para o confronto com o frio e a chuva que iria encontrar no caminho para a estação de metro. Desci depois a rua, tentando concentrar o máximo de sobriedade nos pés de forma a não escorregar na calçada – o porquê do uso do calcário em ruas íngremes da cidade do Porto sempre me ultrapassou. Passei junto do stand de motorizadas de onde, segundo um amigo me contou, alguém uma vez saiu sentado numa coisa de 1000cc para embater com violência num muro mesmo em frente, do outro lado da rua.

Não havia ninguém no caminho. Virei uma esquina, e logo a seguir outra. Vi a entrada da estação de metro, uma reconfortante luz fluorescente que sinalizava o momento em que finalmente poderia fechar o guarda-chuva. Ouvi um carro que se aproximava, conduzido pelo primeiro ser humano que encontraria em 2010 fora da festa em que estive. O primeiro Anónimo do ano. O carro buzinou e pareceu-me abrandar. Seria afinal conduzido por alguém que conheço?

Olhei e vi um indivíduo a fazer-me piças. Uma fracção de segundo antes de o Golf prateado acelerar para fora do meu campo de visão. Entrei na estação de metro e fechei o guarda-chuva, pensando:

2010 – a mesma merda.

Quase lá

Está por horas este Ano dos Infernos que foi 2009. Um ano passado a dizer “pêra pêra pêra” repetidamente para mim próprio, e a relembrar os valiosos ditos da minha falecida avó, tais como:

“Se queres que a tua vida te corra bem, não contes dela a ninguém.”

2009 foi também o Ano das Lições, e ainda o Ano das Ilações. Serão aliás o meu pequeno prémio de consolação por ter chegado a este dia, salvo e relativamente são. Aprendi o valor de estar com quem estar comigo querendo eu igualmente estar, e o valor de não estar com quem não quero estar. Coisinhas simples e das quais tenho vergonha de ter demorado trinta anos a apreciar.

Foi, no fundo, o Ano dos Males Necessários. É por isso que agora, chegado a 31 de Dezembro sem muitas mais Questões Problemáticas a Resolver, brindarei muito em breve com os meus amigos a um grande 2010!


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