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Coraçõezinhos

Ao cimo da rua onde vivo existe uma casa emparedada, onde me recordo ter funcionado uma padaria. Há uns tempos alguém pintou, e muito bem, uns corações vermelhos no cimento que tapa as janelas. Talvez sejam um comentário cínico à quantidade de habitações devolutas aqui na zona, ou porventura uma observação sobre número de likes e de outros coraçõezinhos digitais conquistados pela exploração pornográfica do abandono. Ou, uma ideia radical: talvez apenas sejam corações vermelhos e bonitos.

Sendo sensível à estética do abandono da pedra, do tijolo, do cimento e da telha (e quiçá com um lascivo vislumbre de azulejo), o que faz de mim um desses pornógrafos do abandono urbano, fotografei os tais stencils. Hoje já não o faria, pois julgo que estou muito perto do meu limite para o fetichismo da ruína: por um lado aborrecido, por outro mais sensível à mensagem que este passa: “Venha fazer um tour à Detroit da Europa! Depois de anoitecer pode provar as melhores torradas, bifanas e palmiéres do mundo em cafés gourmet onde raramente vou porque as pessoas com quem me encontraria lá tiveram que emigrar!”, & etc.

Seja como for, às 12:32 do dia 8 de Março de 2014 não tinha estas ideias presentes. Foi esse o momento em que tirei a seguinte foto, utilizando o VSCO Cam porque no que toca a software de telemóvel sou claramente um hipster.

coracoezinhos

Como tenho as minhas aplicações e redes sociais interligadas através de uma complexa pichelaria, devo ter recebido a esperada meia-dúzia de coraçõezinhos no Instagram e de polegarzinhos erectos no Facebook. Esqueci a foto, ainda que continue a passar junto dos corações stencil quase diariamente.

Até ontem, Dia dos Namorados. A meio da tarde o meu telemóvel começa a receber toda uma torrente de amor na forma de notificações incessantes e que rapidamente começam a levar a bateria à exaustão. A foto que eu havia esquecido fora escolhida como ilustração de S. Valentim por alguém no marketing da VSCO Cam e um link para a minha conta no Instagram seria a minha única remuneração. Foram-me enviados dezenas e depois centenas de coraçõezinhos anónimos.

A torrente de notificações que recebi via Instagram no espaço de alguns minutos talvez represente o somatório de três minutos de apreço por uma humanidade anónima, mas ainda assim foram centenas de coraçõezinhos dirigidos no Dia dos Namorados a uma imagem que considero um comentário cínico sobre o abandono — sendo a ironia ainda maior uma vez que o fotógrafo em questão tem sido bastante inábil e algo desafortunado no que toca a assuntos do coração.

Foi-me inevitável ponderar o absurdo da situação. Estes coraçõezinhos do software quotidiano serão meros ideogramas de gosto, apreço, estima, muitas vezes por apenas meio segundo, raramente por mais que dez. Por isto não consigo considerar os emoji, quando usados como substantivos, como mais que eufemismos macabros. Valem um aceno ou um tímido gesto, e ainda assim vêm-se nas redes sociais pessoas que se referem às suas namoradas ou namorados como “a minha / o meu <3”; a ausência do deleite em assumir o amor por alguém transparece quando a ‘mais que tudo’ é a menos que três.

Ontem à noite dei um abraço de despedida a mais uma amiga, quase irmã, que vai emigrar. Ao menos vai fazê-lo por amor, e ainda não há emoji para esse gesto.

Eduardos

Há uns tempos recebi mensagens felicitando-me pelo destaque dado no Ípsilon a um dos ‘meus’ documentários. Não sabia a que se referiam, de certeza que seria um equívoco, já há anos que não fazia nada que pudesse ser classificado como documentário. Perguntaram-me se eu não tinha feito um documentário sobre o rock alternativo em Portugal. Mais uma vez bloqueei: bem, trabalhei num documentário do Miguel Vasconcelos sobre um curso de formadores musicais da Casa da Música, e havia partes com entrevistas a tipos em bandas de rock & etc. Mas o meu papel nesse trabalho tinha sido o grafismo e a etalonagem – muitos furos abaixo do que classificaria como ‘fazer’ o que quer que seja.

Pedi que me explicassem melhor. E assim soube que o artigo diz que o Eduardo Morais realizou um documentário sobre o rock alternativo em Portugal chamado Meio Metro de Pedra:

Um Eduardo Morais.

Raios. Quando acabei o curso de cinema decidi que deixaria de assinar com três nomes. Afinal soava-me pomposo, burguês e a nome de pivot de Telejornal. Também não queria contudo usar o primeiro e último nome, por me soar estranho e a futuro número 6 do Benfica (aqui estão alguns candidatos possíveis). Optei portanto por assinar com o primeiro e o penúltimo: um nome que me soa bem e não me parece nem demasiado popular nem burguês. Um nome sério de classe média.

Que fazer? Evidentemente, nada. Isto gerará alguns equívocos, como quando algum tempo depois da notícia incial me ligaram a convidar para apresentar o Meio Metro de Pedra e pôr música num bar uma sexta à noite. Expliquei que não era eu, ao que se seguiram mil desculpas e um convite para apresentar o Damião numa videoteca municipal uma segunda-feira à tarde. Evidentemente, arranjei forma de passar tal espécie de prémio de consolação – posso realizar filmes diferentes mas acho que também tenho bom gosto para passar música!

Equívoco por equívoco, ao menos não me chamo Aníbal Silva.

Foi apesar de tudo estranho acordar hoje, pôr-me a fazer zapping, e ao passar pela SIC Radical a box me indicar “um filme de Eduardo Morais” com o qual eu nada tive a ver. É um pouco como ir na rua e ouvir alguém a chamar “Ó Eduardo!”, olhar à minha volta e ver que quem estava a ser chamado era um miúdo de 5 anos. Ou um idoso. Ou o mecânico ou o carteiro. Calculo que os Joões, os Zés e os Manéis (e mesmo os Zés Manéis) já estejam mais insensíveis a este fenómeno (que será, contudo, uma história para a vida para os Inocêncios e os Olegários).

Gostei do Meio Metro de Pedra. Qualquer documentário com uma edição conivente com um dos entrevistados quando este diz algo como “Que se fodam os Deolinda! São a maior bosta que aí anda!” contará com toda a minha simpatia. Foi no entanto estranho sentir aquela voz interior crítica a tudo o que faz o Eduardo Morais: aquele plano em que um dos entrevistados tem a testa cortada; o preto e branco que me parece mais um desaturate que um verdadeiro preto e branco; porque é que estes tipos se vestem todos como cidadãos da Brooklyn global; & etc. Como se eu tivesse de facto alguma responsabilidade, pudesse ligar o meu computador, abrir o Premiere e mudar estas coisas. Não costumo ser tão crítico com as coisas que escolho ver na TV, mas aqui senti-me como se eu tivesse dupla personalidade e andasse a entrevistar roqueiros enquanto julgo que estou a dormir. Ou serei eu aqui essa segunda personalidade?

Seja como for. Gostei do documentário. Nunca fui muito dado ao rock, mas senti-me de volta ao liceu, a ouvir falar das mesmas bandas de que falavam alguns dos meus colegas mais ‘fixes’. E pelos vistos até dá para ver todo no YouTube. Está visto que ‘Eduardo Morais’ é uma boa marca.

Mickey

Tiveste excelentes razões para nunca confiares nos seres humanos. Um amigo meu encontrou-te, fraco e indefeso, num contentor do lixo. Passaste os primeiros tempos de vida a saltar de lar em lar, pouco querido por quem relutantemente te acolhia. Pelo meio, foste baptizado de ‘gato Mickey’, um nome ao qual sempre achaste a piada que um trocadilho merece: pouca.

Tinhas cerca de meio ano, acolhemos-te em minha casa. Desconfiaste. Tratava-se de um lar onde ainda se estava de luto pelo anterior felídeo, Gaspar, que havia morrido subitamente com poucos meses de idade. Aconteceram-te coisas terríveis, que relutantemente aceitaste a troco de água, comida e superfícies fofas onde dormir. Certa ocasião, ainda te estavas a ambientar à nova casa, foste metido num caixote e levado para um sítio frio e asséptico onde te caparam. Aprendeste a temer aquele caixote, mas nada pudeste contra os vários cobardes subterfúgios dos teus companheiros humanos. Periodicamente vias-te enfiado naquele caixote terrível, levado para sítios estranhos onde vampiros de bata branca te retiravam sangue, onde te injectavam substâncias. Defendias-te como podias. Sentiste-te justamente insultado quando alguns dos humanos que te tiravam sangue te chamavam de “gato mau”.

Por tudo isto te peço desculpa.

Compreendo porque nunca me deixaste aproximar-me muito. Nem a mim nem a nenhum outro ser humano. Sabias que as festas servem apenas para contentamento desta minha outra espécie. De nada te serviam a ti, pelo que raramente as toleravas.

Presumo que tenhas pensado várias vezes em fugir. Saltaste para o muro do quintal, observaste os muros dos quintais vizinhos, nada intransponíveis para ti. Presumo que só mesmo a mágoa causada pela condição de eunuco te tenha impedido. De que te serviria a liberdade? Calculo que tenha sido com amargura que optaste pelo contentamento suave de uma almofada e de uma refeição garantida.

Mesmo apesar de tudo isto, foste capaz de ocasionais actos de generosidade para com os teus parceiros humanos, como daquela vez que nos ofereceste um rato, infelizmente exalando os seus últimos suspiros.

Entretanto passou mais de uma década de tolerância distante. Envelheceste. Surgiram coisas na tua condição de ser vivo que, desprovido de conhecimento científico, não tinhas como compreender. Apenas sabias que tinhas um papo na omoplata, que fazer xixi era difícil, que o fundo das costas te doía. Não sei se percebeste que foi o teu hálito forte que reintroduziu a queima de incenso lá em casa. Nada soubeste sobre doenças oncológicas ou problemas renais.

Perdeste o apetite. Não conseguimos ter uma explicação certa para isso.

Infligimos-te mais subterfúgio, mais terror. Retirámos-te sangue, injectamos-te substâncias. Ficaste enjaulado, com um tubo de soro preso a uma pata. Garanto-te que tudo foi feito com a melhor das intenções, mas entendo a tua perplexidade e dificuldade em compreender. Sentiste-te traído, vendo-me a colaborar com as vampiras de bata branca, a impedir-te de te defenderes enquanto te espetavam agulhas.

Mesmo assim deixaste-me fazer-te festas quando te visitei ontem pela última vez.  Talvez tenhas compreendido que o apetite jamais voltaria. Deixaste que te tapasse os ouvidos enquanto a minha mãe falava com a veterinária. Não merecias alguma vez ouvir as palavras ‘eutanásia’ ou ‘cremação’.

Baixaste a guarda e deixaste-me estar ali.

Foste um bom gato.

Segundas escolhas

Já não me recordo se foi na altura do Campeonato da Europa de Futebol de 1988 (aquele do volley incrível do Marco van Basten na final entre a Holanda e a União Soviética) ou se já no Mundial de Itália ’90 (aquele do jogo para Spectrum e do Maradona a chorar depois da derrota na final contra a Alemanha, sentenciada por um penalty marcado pelo Lothar Matthaus). Não me lembro, portanto, se andava ainda na escola primária ou se já estava no ciclo preparatório, naquele que seria o último Verão antes da separação dos meus pais. Numa daquelas agradáveis tardes em que o final do ano escolar se aproximava, estava no recreio participando naquela tradição bienal da troca de cromos da Panini afectos aos grandes eventos futebolísticos internacionais. Alguém – talvez até tenha sido eu – se interrogou sobre quem seria aquele jogador que lhe tinha saído na carteira. O cromo seria parecido com este (não consegui encontrar uma imagem de uma das colecções em causa):

Stanley Menzo, guarda-redes do Ajax de Amesterdão entre 1984 e 2000. Eterno suplente na selecção holandesa.

Hoje em dia, graças à Internet, sei que Stanley Purl Menzo nasceu a 15 de Outubro de 1963 no Suriname – o que faz dele um guarda-redes de 24 ou 26 anos na altura do acontecimento -, e que salvo meia época no Haarlem tinha feito toda a carreira no Ajax de Amesterdão. Em 1988 e 1990 não tinha como saber essas coisas. Era necessário recorrer à mente colectiva dos colegas:

– “Esse é o Menzo, o eterno suplente.”

A resposta atingiu-me como uma revelação sobre a crueldade que a vida adulta pode reservar. Stanley Menzo era o guarda-redes suplente da grande selecção holandesa em que a titularidade indiscutível pertencia ao Hans van Breukelen. De facto, Menzo não teria grande hipótese de jogar, a menos que guarda-redes do PSV Eindhoven se lesionasse ou o Luiz Felipe Scolari retrocedesse década e meia para orientar a Holanda. Será no entanto um exagero descrever um jogador a meio da sua carreira como ‘eterno’ qualquer coisa. Menzo não era um amargo guarda-redes de 38 anos passados no banco e com mais equipas que jogos no currículo, nem um protagonista trágico de um filme do Wim Wenders. Hoje entendo que o meu colega da escola não estava dotado de uma visão sóbria e adulta sobre a vida. Provavelmente papagueou uma expressão produzida pelo jornalismo desportivo da época:

O eterno suplente.

Contudo, essa expressão ficou-me. Passando a adolescência como suplente dos jogos escolares, senti-me amaldiçoado por essas palavras. Se nos melhores momentos esperava para substituir um lateral direito ou um ponta-de-lança (assim eram os improváveis perfis tácticos do futebol juvenil), nos piores via-me relegado para uma atroz (mas justa) segunda escolha na defesa da baliza: sempre que chamado a jogar era daqueles guarda-redes que, de forma cobarde e imbecil, viravam as costas aos remates. Como resultado disso, evoluí bastante no purgatório do voleibol misto durante as aulas de educação física, enquanto esperava uma oportunidade de entrar no jogo de futebol que decorria ali ao lado. Escolhendo sempre o copo meio vazio, é evidente que não me quis aperceber que até era bastante bom jogador de voleibol.

As segundas escolhas são inevitáveis no desporto, na análise de currículos e de especificações; onde haja uma métrica. Poucas pessoas compreendem que fora estes casos, será inaceitável que se atribuam números às escolhas.

São coisas que acontecem

O outro dia fiz trinta e três anos. Chegou-se a isto. Os trinta e três, tal como os vinte e sete, é uma daquelas idades com carga simbólica, e sendo infeliz portador de uma destas idades em 2012 terei que ser bastante cuidadoso, verificando os piscas do carro, evitando descer escadas de mãos nos bolsos, adiando para 2013 o curso de desactivação de minas anti-tanque. Isto porque seria aborrecido magoar-me gravemente e morrer, mas ser-me-ia sobretudo motivo de vergonha intolerável ter dado qualquer satisfação a pessoas supersticiosas.

Fazer trinta e três anos significa também que faz dez anos que fiz vinte e três anos. Por há muitos anos escrever este tipo de futilidades consigo agora recuperar a vaga memória de uma noite de aniversário a ver sozinho o Amores Perros em DVD, uma tecnologia então novidade para mim. Verifico que tal data foi um sábado, e interrogo-me porque é que não comemorei esse aniversário com ninguém. Ou será que saí com amigos e, não tendo registado esse facto nem em papel nem em weblog, não me recordo? De qualquer forma, persiste a sensação de que, apesar de não me lembrar do que fiz em 2002, tal dia foi ontem: uma falta de progresso.

Forço-me assim a quantificar aquilo que fiz nos últimos dez anos, aquilo que consegui, aquilo que aprendi e que experimentei, as histórias que vivi. A lista é longa e talvez seja, com excepção de algumas histórias, maçadora para qualquer outra pessoa. E ainda bem. Há progresso afinal.