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Requiem por uma mercearia

Hoje é dia de reentré para a Baixa do Porto. Regressam as ditas inaugurações nas galerias de dita arte na Rua Miguel Bombarda e arredores, e com estas regressa o pretexto para umas iniciativas e uns eventos coincidentes, em que o comércio se anima na expectativa de atrair a estima, mas sobretudo, o escasso dinheiro das pessoas que vêm passear para a zona central do Porto, e que hoje mostram as suas melhores roupas e o seu melhor sotaque a-portuense na esperança de encontrar e impressionar colegas de trabalho; e o fazem à custa de entupir os acessos à zona e encher de monóxido de carbono uma zona que até costuma ser aprazível, mesmo em horas idênticas durante os dias de semana.

As ruas da Baixa enchem-se de jovens, muitos deles trajados como certamente encaminhados para as escolas artísticas e para a exploração às mãos das ditas indústrias criativas. Hoje têm o mundo a seus pés, vestem-se impecávelmente, são felizes e carregam os seus brinquedos preferidos. Entristece-me saber que muitos estão ali, de forma inconsciente, no auge das suas vidas. Temo pelo futuro deles num sistema sócio-económico insustentável, mas também pelo meu: que crimes horrendos poderão vir a cometer estes jovens alegres, de Wayfarers coloridos e expressões saídas de um anúncio a telemóveis ou cerveja, para que este Sábado se possa prolongar para o resto das suas vidas. A que estarão dispostos os jovens casais, para manter o passeio e o consumo? Uma eventual futura polícia política também andará a passear pelas inaugurações.

Não sou, apesar da minha visão das coisas, um espectador soturno que se esconde nas sombras: integro-me, mais ou menos. Calças Benetton (dos saldos), pólo Nike (dos saldos) e óculos castanhos estilo os tais Wayfarers – de inspiração e não de imitação – comprados precisamente no tal Centro Comercial Bombarda há uns anos (e fora dos saldos). A não ser pelo pormenor de não me deter muito nos sítios e por me encontrar sem companhia, julgo que passo bem por figurante. Não consigo é deixar de me sentir desconfortável com o que me rodeia, e apesar de tudo sinto-me como se estivesse sem disfarce nesta festa de Carnaval Capitalista –  ou como um homem sóbrio na Queima das Fitas.

Na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, existia uma mercearia. Não me lembro com precisão se alguma vez lá tinha entrado. Talvez, a caminho de um jantar em casa de uma amiga que vivia na zona há uns anos, ainda antes de ter aberto o Minipreço, tenha lá comprado uma garrafa de vinho. Talvez também tenha acompanhado alguém a comprar tabaco lá – de alguma forma sei que essa mercearia vendia tabaco, e eu não fumo.

Aquilo que encontrei hoje, na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, foi a inauguração de uma loja com umas coisas que normalmente são descritas como design mas que não tenho a certeza que sejam. Um daqueles entreténs para quem está à vontade para suportar rendas caras. Entristeceu-me.

Porque sou esquisito em relação aos cafés

Apesar de achar que o panorama melhorou bastante nos últimos anos, continuo a ser esquisito relativamente aos cafés que frequento. Não há muito para rever neste artigo de 2002:

Decoração: Há cafés que são verdadeiros atentados. São daqueles com espelhos na parede, cortados na diagonal, ou com todo o reportório de espelhinhos da Tuborg e da Carlsberg colocado ao acaso. Apresentam mesas e cadeiras com tampos de plástico cinzento, a imitar granito, cadeiras estas que se roçam metalicamente no chão de marmorite. Costumam ter umas plantas de plástico iluminadas por luzes fluorescentes verde ou roxo. Em suma: são locais onde dói estar.

Putos: Até podemos estar num café agradável, construído com gosto, mas eis que aparecem dois putos a estragar o sistema: Depois de descobrirem o ruído satisfatório de pisar com força o chão de madeira, nada os parece impedir de correr para trás e para a frente, até um deles cair e desatar aos berros. Dizem que o melhor contraceptivo são os filhos dos outros. É pena que os pais destes miúdos nunca tivessem presenciado tão aberrante cena num café.

Ruídos industriais: Quantas vezes uma agradável conversa é subitamente interrompida pelo silvo metálico e ensurdecedor do jacto de uma máquina de café? E o estardalhaço que é quando começam a arrumar as chávenas, não na cozinha mas perto dos clientes, com um zelo só comparável ao de um maníaco com uma picareta numa loja da Vista Alegre? E já nem falo nas situações absolutamente bizarras, como daquela vez em que estava eu num café requintado e subitamente alguém começou a aspirar o chão, transformando o ambiente no de um consultório de um dentista. É sabido que o típico patrão tuga não paga aos empregados para que a limpeza seja feita depois do fecho, logo a culpa é sua: perdeu um cliente.

Namorados: Existem de facto alguns cafés que são cenários de um certo romantismo e acho perfeitamente natural que possam ser frequentados por casais apaixonados. Só peço que namorem em silêncio, em vez de se pôrem na comidela com linguados húmidos e sonoros estilo filme americano dos anos 90 na mesa atrás de mim, enquanto eu me tento concentrar e acabar a porcaria deste artigo!

Armantes e loucos: É verdadeiramente revoltante é o ‘falar alto selectivo’ de gente que quer que todo o café ou bar fique a saber que conheceram pessoalmente um gajo dos Radiohead, que estiveram em Londres em 1972, ou que vão expor umas fotos sei-lá-onde. É para isso que existem os weblogs afinal. Mas piores mesmo são as ‘atracções turísticas’ que subitamente começam a declamar poemas que não rimam aos berros ou que aproveitam a minha t-shirt para nos espetar com uma conversa indesejada, além do hálito a aguardente.

Adultos com brinquedos: Embora eu ache útil e seja frequentemente utilizador das redes sem fios gratuitas de alguns cafés, irritam-me profundamente as pessoas que não tratam o portátil como um qualquer livro ou jornal que com elas tivessem, mas sim como um brinquedo. Chamando a antenção para a maçãzinha reluzente (ou pior, para a maçã autocolante na tampa do seu Acer), vêm filmes e metem música. Piores ainda são os grupos onde um iPhone salta de mão em mão, cada pessoa experimentando um pouquinho do milagre da tecnologia (como temo a primeira aparição pública dum iPad!). Ou aquelas pessoas que espalham os brinquedos todos (computadores, telefonee, máquinas fotográficas, leitores de MP3) sobre a mesa. Quando era miúdo os meus pais obrigavam-me a escolher um único brinquedo para levar quando saía de casa com eles. Acho que é um bom princípio.

Horário: Sou um viciado em cafeína, e tenho a mania: não gosto de beber café feito na cafeteira, nem vou muito à bola com os Nespressos e afins. Quero o meu espresso, o meu cimbalino. Chateiam-me os cafés em que não existe a noção de dever cívico, de que são um serviço público essencial com a responsabilidade de administrar café a adictos como eu, faça chuva ou faça sol, seja Domingo ou Feriado, seja Natal ou Ano Novo.

É por isto que sou esquisito em relação aos cafés.

Comprar o jornal ao Domingo

Ultimamente tenho vindo a ponderar qual será o índice económico ideal para determinar a vitalidade socio-economico-cultural de uma cidade. E julgo que o descobri.

Proponho a criação do Índice de Facilidade de Compra de um Jornal ao Domingo. Por exemplo, no Porto: o Dr. Rui Rio quer-nos fazer acreditar que a sua política de reabilitação urbana é um sucesso, isto porque agora há duas ruas (até Outubro alegremente patrocinadas pela Câmara Municipal) com alguns bares onde às Sextas e Sábados à noite se junta toda uma multidão vinda dos arredores à procura de temas de conversa para Segunda-feira de manhã. No entanto, qualquer verdadeiro portuense sabe que o Índice de Dificuldade da Compra de um Jornal ao Domingo atingiu hoje talvez o seu nível mais elevado.

Por exemplo, hoje, 16 de Agosto de 2009. Apesar da haver imensos turistas pela Baixa, fui obrigado a ir comprar o jornal à Estação de São Bento e mesmo aí “já só há o ‘Noticias’”. Jornais ‘esquisitos’ como o Público só mesmo naqueles locais com muita imprensa internacional, como os shoppings e as bombas de gasolina. Bela reabilitação, Dr. Rio!


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