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Somos os maiores!

A cidade do Porto ganhou o prémio de Melhor Parque Temático Europeu, não dando sequer hipóteses à Euro-Disney, ao Parque Asterix, e ao grande favorito, a Bracalândia. As mesmas massas que elegeram (acho) Pablo Osvaldo como o melhor reforço do FC Porto 2015/2016 foram mobilizadas para uma decisiva vitória numa votação online apenas comparável com a escala das últimas presidenciais norte-americanas.

Admito que a propaganda municipal me merece menos interesse que a Dica da Semana, pelo que posso ter lido mal. A ter vencido o prémio de Melhor Ponto de Partida Europeu, será uma vitória justíssima: tenho a maioria dos meus amigos emigrados em cidades como Berlim, Toronto e Pequim (medíocres quando comparadas com as oportunidades de trabalho, lazer, e qualidade de vida oferecidas pelo Porto-ponto) e o nosso aeroporto é de facto porreiro. Somos os maiores, carago!

Coraçõezinhos

Ao cimo da rua onde vivo existe uma casa emparedada, onde me recordo ter funcionado uma padaria. Há uns tempos alguém pintou, e muito bem, uns corações vermelhos no cimento que tapa as janelas. Talvez sejam um comentário cínico à quantidade de habitações devolutas aqui na zona, ou porventura uma observação sobre número de likes e de outros coraçõezinhos digitais conquistados pela exploração pornográfica do abandono. Ou, uma ideia radical: talvez apenas sejam corações vermelhos e bonitos.

Sendo sensível à estética do abandono da pedra, do tijolo, do cimento e da telha (e quiçá com um lascivo vislumbre de azulejo), o que faz de mim um desses pornógrafos do abandono urbano, fotografei os tais stencils. Hoje já não o faria, pois julgo que estou muito perto do meu limite para o fetichismo da ruína: por um lado aborrecido, por outro mais sensível à mensagem que este passa: “Venha fazer um tour à Detroit da Europa! Depois de anoitecer pode provar as melhores torradas, bifanas e palmiéres do mundo em cafés gourmet onde raramente vou porque as pessoas com quem me encontraria lá tiveram que emigrar!”, & etc.

Seja como for, às 12:32 do dia 8 de Março de 2014 não tinha estas ideias presentes. Foi esse o momento em que tirei a seguinte foto, utilizando o VSCO Cam porque no que toca a software de telemóvel sou claramente um hipster.

coracoezinhos

Como tenho as minhas aplicações e redes sociais interligadas através de uma complexa pichelaria, devo ter recebido a esperada meia-dúzia de coraçõezinhos no Instagram e de polegarzinhos erectos no Facebook. Esqueci a foto, ainda que continue a passar junto dos corações stencil quase diariamente.

Até ontem, Dia dos Namorados. A meio da tarde o meu telemóvel começa a receber toda uma torrente de amor na forma de notificações incessantes e que rapidamente começam a levar a bateria à exaustão. A foto que eu havia esquecido fora escolhida como ilustração de S. Valentim por alguém no marketing da VSCO Cam e um link para a minha conta no Instagram seria a minha única remuneração. Foram-me enviados dezenas e depois centenas de coraçõezinhos anónimos.

A torrente de notificações que recebi via Instagram no espaço de alguns minutos talvez represente o somatório de três minutos de apreço por uma humanidade anónima, mas ainda assim foram centenas de coraçõezinhos dirigidos no Dia dos Namorados a uma imagem que considero um comentário cínico sobre o abandono — sendo a ironia ainda maior uma vez que o fotógrafo em questão tem sido bastante inábil e algo desafortunado no que toca a assuntos do coração.

Foi-me inevitável ponderar o absurdo da situação. Estes coraçõezinhos do software quotidiano serão meros ideogramas de gosto, apreço, estima, muitas vezes por apenas meio segundo, raramente por mais que dez. Por isto não consigo considerar os emoji, quando usados como substantivos, como mais que eufemismos macabros. Valem um aceno ou um tímido gesto, e ainda assim vêm-se nas redes sociais pessoas que se referem às suas namoradas ou namorados como “a minha / o meu <3”; a ausência do deleite em assumir o amor por alguém transparece quando a ‘mais que tudo’ é a menos que três.

Ontem à noite dei um abraço de despedida a mais uma amiga, quase irmã, que vai emigrar. Ao menos vai fazê-lo por amor, e ainda não há emoji para esse gesto.

Terra queimada

Tropas preparam a destruição de uma casa com dinamite, durante a Guerra dos Boers.

Numa demonstração sucinta que o 25 de Abril é um work in progress, a Câmara Municipal do Porto voltou a despejar a Escola da Fontinha ao amanhecer do dia 26, depois da entusiástica reocupação levada a cabo no dia anterior. Desta vez tentam garantir que a Escola ficará imprópria para reocupação, destruindo a canalização, as casas de banho, e a instalaçao eléctrica. Isto só demonstra que o executivo de Rui Rio é como aqueles miúdos que preferem atirar com os seus carrinhos (de WTCC?) para o esgoto a deixar que mais alguém brinque com eles.

Mas brincadeiras àparte, aquilo a que se assiste é à destruição de um espaço público às mãos dos eleitos para defender o interesse público. Pode-se argumentar a suposta ilegalidade da ocupação por parte de ‘activistas’ e moradores da zona, mas não estava de todo em causa a ocupação de uma propriedade privada. O que estava sim em causa era a dinamização de um espaço público devoluto. A ‘Es.col.a’ (não sou grande fã dos pontinhos no nome) era uma verdadeira Escola. Vejam-se as actividades que estariam previstas para hoje, de acordo com o seu site:

– 14:00 – Laboratório de Fotografia;
– 17:00 – Apoio Educativo Geral (explicações);
– 18:30 – Aulas de Capoeira;
– 18:30 – Hacklaviva (clube de Informática);
– 18:30 – Oficina de música.

Além disto a Escola tinha uma cantina e várias instalações (ex. sala de computadores) para uso geral da comunidade. Como é que a Câmara pode argumentar (e terá que o fazer forçosamente, sob pena de a destruição de hoje configurar uma actividade criminal) que ao emparedar e destruir uma verdadeira Escola e Centro de Comunidade está a defender o interesse público? Na Escola da Fontinha morreram uma série de chavões do discurso oficial – o empreendedorismo social, o dar à comunidade, a iniciativa, o dinamismo, e a generalização venenosa em que os mais jovens e os mais pobres são uns parasitas que vivem de subsídios e nada fazem. Percebe-se que empreendedorismo e iniciativa são exclusivos de um certo tipo de gente, que não partilha.

Penso que existirão algumas culpas no lado de cá da barricada, na forma como o discurso sobre a Escola da Fontinha foi politizado (não venham dizer que a ocupação era ‘apolítica’, que isso mesmo é política), na forma como se construiu toda uma publicidade em torno de uma ocupação ‘especial’, quando porventura dever-se-ia ter realçado a decência elementar de um projecto como a Escola (que tal cartazes com calendários em vez de slogans?) uma vez que, mais que demonstrar uma qualquer ‘diferença’, um projecto destes deveria ambicionar ser a normalidade das comunidades locais.

Todavia, por mais importante que seja ter em atenção as percepções das pessoas não familiarizadas com o projecto de ocupação da Escola da Fontinha e desmontar a forma redutora como alguma comunicação social o apresenta (‘okupas’, com aquele K nojentinho), o essencial hoje é o erro e a indecência básica do executivo de Rui Rio: no Porto, as comunidades não têm o direito de se organizar e de construir algo, o público não tem direito a utilizar positivamente o espaço público. Reenvindicando para si e para as Caridades escolhidas a dedo o exclusivo da ‘intervenção social’, a Câmara Municipal do Porto faz terra queimada daquilo que possa pôr em causa o dogma liberal. Faria um Rui Rio primeiro-ministro como Bashar Al-Assad e Muammar Khadafi, bombardeando as ‘suas’ cidades quando estas não fossem do seu agrado? Que a carreira política deste senhor acabe depressa.

Requiem por uma mercearia

Hoje é dia de reentré para a Baixa do Porto. Regressam as ditas inaugurações nas galerias de dita arte na Rua Miguel Bombarda e arredores, e com estas regressa o pretexto para umas iniciativas e uns eventos coincidentes, em que o comércio se anima na expectativa de atrair a estima, mas sobretudo, o escasso dinheiro das pessoas que vêm passear para a zona central do Porto, e que hoje mostram as suas melhores roupas e o seu melhor sotaque a-portuense na esperança de encontrar e impressionar colegas de trabalho; e o fazem à custa de entupir os acessos à zona e encher de monóxido de carbono uma zona que até costuma ser aprazível, mesmo em horas idênticas durante os dias de semana.

As ruas da Baixa enchem-se de jovens, muitos deles trajados como certamente encaminhados para as escolas artísticas e para a exploração às mãos das ditas indústrias criativas. Hoje têm o mundo a seus pés, vestem-se impecávelmente, são felizes e carregam os seus brinquedos preferidos. Entristece-me saber que muitos estão ali, de forma inconsciente, no auge das suas vidas. Temo pelo futuro deles num sistema sócio-económico insustentável, mas também pelo meu: que crimes horrendos poderão vir a cometer estes jovens alegres, de Wayfarers coloridos e expressões saídas de um anúncio a telemóveis ou cerveja, para que este Sábado se possa prolongar para o resto das suas vidas? A que estarão dispostos os jovens casais, para manter o passeio e o consumo? A futura polícia política também andará a passear pelas inaugurações.

Não sou, apesar da minha visão das coisas, um espectador soturno que se esconde nas sombras: integro-me, mais ou menos. Calças Benetton (dos saldos), pólo Nike (dos saldos) e óculos castanhos estilo os tais Wayfarers – de inspiração e não de imitação – comprados precisamente no tal Centro Comercial Bombarda há uns anos (e fora dos saldos). A não ser pelo pormenor de não me deter muito nos sítios e por me encontrar sem companhia, julgo que passo bem por figurante. Não consigo é deixar de me sentir desconfortável com o que me rodeia, e apesar de tudo sinto-me como se estivesse sem disfarce nesta festa de Carnaval Capitalista –  ou como um homem sóbrio na Queima das Fitas.

Na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, existia uma mercearia. Não me lembro com precisão se alguma vez lá tinha entrado. Talvez, a caminho de um jantar em casa de uma amiga que vivia na zona há uns anos, ainda antes de ter aberto o Minipreço, tenha lá comprado uma garrafa de vinho. Talvez também tenha acompanhado alguém a comprar tabaco lá – de alguma forma sei que essa mercearia vendia tabaco, e eu não fumo.

Aquilo que encontrei hoje, na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, foi a inauguração de uma loja com umas coisas que normalmente são descritas como design mas que não tenho a certeza que sejam. Um daqueles entreténs para quem está à vontade para suportar rendas caras. Entristeceu-me.

Porque sou esquisito em relação aos cafés

Apesar de achar que o panorama melhorou bastante nos últimos anos, continuo a ser esquisito relativamente aos cafés que frequento. Não há muito para rever neste artigo de 2002:

Decoração: Há cafés que são verdadeiros atentados. São daqueles com espelhos na parede, cortados na diagonal, ou com todo o reportório de espelhinhos da Tuborg e da Carlsberg colocado ao acaso. Apresentam mesas e cadeiras com tampos de plástico cinzento, a imitar granito, cadeiras estas que se roçam metalicamente no chão de marmorite. Costumam ter umas plantas de plástico iluminadas por luzes fluorescentes verde ou roxo. Em suma: são locais onde dói estar.

Putos: Até podemos estar num café agradável, construído com gosto, mas eis que aparecem dois putos a estragar o sistema: Depois de descobrirem o ruído satisfatório de pisar com força o chão de madeira, nada os parece impedir de correr para trás e para a frente, até um deles cair e desatar aos berros. Dizem que o melhor contraceptivo são os filhos dos outros. É pena que os pais destes miúdos nunca tivessem presenciado tão aberrante cena num café.

Ruídos industriais: Quantas vezes uma agradável conversa é subitamente interrompida pelo silvo metálico e ensurdecedor do jacto de uma máquina de café? E o estardalhaço que é quando começam a arrumar as chávenas, não na cozinha mas perto dos clientes, com um zelo só comparável ao de um maníaco com uma picareta numa loja da Vista Alegre? E já nem falo nas situações absolutamente bizarras, como daquela vez em que estava eu num café requintado e subitamente alguém começou a aspirar o chão, transformando o ambiente no de um consultório de um dentista. É sabido que o típico patrão tuga não paga aos empregados para que a limpeza seja feita depois do fecho, logo a culpa é sua: perdeu um cliente.

Namorados: Existem de facto alguns cafés que são cenários de um certo romantismo e acho perfeitamente natural que possam ser frequentados por casais apaixonados. Só peço que namorem em silêncio, em vez de se pôrem na comidela com linguados húmidos e sonoros estilo filme americano dos anos 90 na mesa atrás de mim, enquanto eu me tento concentrar e acabar a porcaria deste artigo!

Armantes e loucos: É verdadeiramente revoltante é o ‘falar alto selectivo’ de gente que quer que todo o café ou bar fique a saber que conheceram pessoalmente um gajo dos Radiohead, que estiveram em Londres em 1972, ou que vão expor umas fotos sei-lá-onde. É para isso que existem os weblogs afinal. Mas piores mesmo são as ‘atracções turísticas’ que subitamente começam a declamar poemas que não rimam aos berros ou que aproveitam a minha t-shirt para nos espetar com uma conversa indesejada, além do hálito a aguardente.

Adultos com brinquedos: Embora eu ache útil e seja frequentemente utilizador das redes sem fios gratuitas de alguns cafés, irritam-me profundamente as pessoas que não tratam o portátil como um qualquer livro ou jornal que com elas tivessem, mas sim como um brinquedo. Chamando a antenção para a maçãzinha reluzente (ou pior, para a maçã autocolante na tampa do seu Acer), vêm filmes e metem música. Piores ainda são os grupos onde um iPhone salta de mão em mão, cada pessoa experimentando um pouquinho do milagre da tecnologia (como temo a primeira aparição pública dum iPad!). Ou aquelas pessoas que espalham os brinquedos todos (computadores, telefonee, máquinas fotográficas, leitores de MP3) sobre a mesa. Quando era miúdo os meus pais obrigavam-me a escolher um único brinquedo para levar quando saía de casa com eles. Acho que é um bom princípio.

Horário: Sou um viciado em cafeína, e tenho a mania: não gosto de beber café feito na cafeteira, nem vou muito à bola com os Nespressos e afins. Quero o meu espresso, o meu cimbalino. Chateiam-me os cafés em que não existe a noção de dever cívico, de que são um serviço público essencial com a responsabilidade de administrar café a adictos como eu, faça chuva ou faça sol, seja Domingo ou Feriado, seja Natal ou Ano Novo.

É por isto que sou esquisito em relação aos cafés.