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Mais que Isto

Não sou um membro da Aristocracia. Não tenho nenhum familiar que seja membro da Aristocracia. Nem Condes, nem Viscondes, nem Marqueses. Apenas uma marquise de que me envergonho. Tive, é verdade, um avô que era Maior da Aldeia, mas acontece que a aldeia em questão é realmente uma aldeia, daquelas onde o barbeiro é também o taxista e onde não existe nem um café nem uma mercearia mas apenas somente O Comércio. O máximo de contacto que tive de facto com qualquer espécie de Aristocracia foi quando em criança fui com os meus pais visitar uns primos que eram caseiros de um Visconde que tinha uma pequena plantação de toranjas no seu palacete. Sabiam mal, as toranjas.

Concorri recentemente a um concurso de atribuição de subsídios do Instituto do Cinema e Audiovisual. Estando eu, pensava, em início de carreira, fui comedido na ambição. Enviei, através de uma produtora, um projecto de curta-metragem. “É por aí que se começa”, pensei. A resposta foi célere: Fiquei em 14º lugar a contar do fim, e levei aquilo que o produtor (aliás magnífico, e a quem agradeço ter acreditado no projecto) classificou como uma injusta chapada na cara:

“Parece no entanto que o argumento carece de alguma solidez, merecendo um tratamento mais cuidado, que torne mais perceptíveis algumas das motivações que conduzem e condicionam os personagens e os seus conflitos, que podiam ser melhor caracterizados, melhorando a sua consistência narrativa.”, disseram. Muito bem, é uma avaliação indiscutível porque é vaga. Tão vaga de facto, que pode ser dita acerca de qualquer outro argumento. Chamemos-lhe portanto Desculpa para Indeferimento nº 27. Bem sei que o meu argumento não é perfeito. Uma vez que não será filmado, disponibilizei-o online para que qualquer um o critique (PDF). N0 entanto sei o seguinte: o meu projecto é melhor do que alguns aos quais serão atribuídos subsídios. Como provavelmente serão também melhores muitos dos outros projectos chumbados. Basta ir a festivais e ver algumas das coisas que têm sido financiados pelo I.C.A. nos últimos anos. Mas foi contudo aquilo que se seguiu que me inflamou a razão:

“O candidato tem sobretudo curriculum académico, com alguns (poucos) trabalhos realizados, com pouca expressão em festivais nacionais e sem referências internacionais.”

Não sendo aristocrata não sou, pelos vistos, um Cidadão. Não sou, pelo menos, cidadão de primeira categoria. Tenho o direito de voto, que utilizo desde os 18 anos. Mas àparte isso é notório que sou um Zé Ninguém. Porque não tenho o direito de tentar iniciar uma carreira. Se peço um subsídio é porque não tenho dinheiro nem recursos para fazer os tais trabalhos que possam ter expressão nos festivais nacionais e internacionais. É verdade que hoje em dia a tecnologia permite, felizmente, que vá fazendo umas coisitas nos limites das disponibilidades de amigos e dos recursos que consigo juntar. Mas há limites para o que pode ser feito quando tudo é racionado, quando a ideia depende dos meios e não o contrário. O comentário acima proferido pelo júri, que não acredito que seja ingénuo a ponto de ser alheio à realidade, não passará de um simples “vai-te foder – fico aí, entre uma rocha e um sitio duro.” A impossibilidade de iniciar uma carreira sem ter nome, exigindo-se que se tenha nome sem carreira é o ‘preso por ter cão’ que diferencia as castas.

É evidente que não tenciono desistir. Este não é o primeiro Fuck You que recebo de um júri, nem será certamente o último - há dois anos, por exemplo, escreveram que o meu argumento (PDF) tinha “um final pouco conclusivo” (em nenhuma página do regulamento existia uma referência à obrigatoriedade de ter narrativas fechadas). Todavia, chegado aos trinta anos e com cada vez mais dificuldades em mobilizar pessoas e recursos para projectos ‘no budget’, começo a temer que a minha finest hour já esteja para trás, despercebida, em algum (dos poucos) trabalhos realizados. Desde a adolescência que me apoiei na felicidade que conseguia extraír da criatividade como forma de compensar a infelicidade noutras áreas, mas hoje tal como para Celeste o futuro próximo é um nevoeiro cerrado. Apenas sei que a Igualdade de Oportunidades é uma mentira.

Quero de qualquer forma terminar por aqui a autocomiseração e o ressabiamento. “Fuck Them”, como diz o outro que é mais burgesso que aristocrata. Digo sempre “quem quer pena que chame o Bono”, e eu não gosto dos U2. Resistirei, nem que para estar entre uma rocha e um sítio duro me torne rocha eu mesmo. Sei que no final as coisas correram bem a Celeste.

Contudo, Celeste é uma aristocrata…

Caros senhores da CDU de Olhão

Eu não sou natural de Olhão, nem vivo em Olhão. Não sou algarvio, nem vivo no Algarve sequer. E em boa verdade, nem visito o Algarve. Passei umas férias com os meus pais ali para os lados de Lagos em 1997, e há coisa de três anos passei uma má noite de campismo selvagem entre Sagres e Portimão, antes de rumar para outra região do país. Julgo aliás que se contam pelos dedos de uma mão as vezes que atravessei o Tejo, e incluo nestas contas – não devia – uma estadia no Montijo, num dia em que houve uma chuvada tão forte que o Tejo estava literalmente à porta do hotel. É que nasci no Porto, vivo no Porto, e não viajo por aí além.

Portanto, é evidente que por mais que possa até simpatizar com a cor política (na verdade não posso dizer que simpatize muito com a cor, embora ache simpático o matiz) não tenho qualquer interesse nas propostas da coligação entre o PCP e outros gajos para a autarquia de Olhão, que é das poucas que não sei precisar lá muito no mapa (nem sei se é a barlavento ou a sotavento, e como nunca me interessei muito por sinónimos dos pontos cardeais não sei sequer o que barlavento quer dizer). Portanto:

Parem de me entupir o mail com essa merda.

Também não estou interessado nas actividades culturais do concelho, embora até ache curioso o facto da cultura de Olhão produzir e-mails à razão de dois ou três por semana enquanto a Área Metropolitana do Porto produz uma mini-revistinha trimestral. Mas de qualquer forma dispenso os e-mails, que estranhamente resistem à marcação como spam. E falam os outros de asfixia democrática…

Entre uma rocha e um sítio duro

É o estágio não remunerado. É a experiência de seis meses. É o mostra o que vales, que a gente dá-te ajudas de custo. É o projecto jovem e inovador, que pagará logo que existam receitas. Oferecem equipas dinâmicas, equipas bem-dispostas, a oportunidade de trabalhar com os melhores clientes do mundo. A única coisa que não oferecem é um salário, quanto mais um salário  justo. Os anúncios do Carga de Trabalhos (que é apenas um exemplo) são das coisas mais deprimentes imagináveis. Nesse idílio empresarial não existe o dinheiro – raíz de todo o mal. E também nunca é apresentada a realidade do patrão que obriga o estagiário a dividir fifty-fifty o subsídio estatal, nem do patrão que o promete, promete, e nunca chegou a meter os papéis.

Há que chamar ao estágio aquilo que realmente é: roubo e exploração, e denunciar os empresários que a ele recorrem. As implicações morais e éticas do trabalho não remunerado – violação flagrante dos Direitos Humanos – aparentemente não incomodam ninguém, portanto temos que reflectir também nas implicações económicas: Além de ser uma forma de concorrência desleal, pois quem não paga aos trabalhadores pratica preços (ligeiramente) mais baixos, o estágio implica evidentemente uma quebra brutal no poder de compra de uma geração. E ainda:

Senhor Cliente: está a ver aquelas facturas que discriminam os honorários de uma série de colaboradores pagos com uns 25 euros/hora (o que daria vontade de rir se não desse de chorar)? É pura mentira. Você está a ser roubado. Para a próxima, faça uma pesquisa pelos sites de oferta de emprego. Veja o que é que a empresa que contratou oferece aos trabalhadores.

É uma ideia simples. Uma vez que nenhum Governo tem tomates para criminalizar o trabalho não remunerado, incentive-se o boicote às empresas que o praticam e por arrasto enganam os respectivos clientes.

Evidentemente, isto dificilmente acabará enquanto existir gente disposta a trabalhar sem receber. Enquanto uns precisam de ganhar para o pão, há por aí muitos palermas a quem os pais pagam uma independenciazinha IKEA e se podem dar ao luxo de roubar empregos a quem realmente precisa.* Mas eu, se for um cliente que espera um trabalho bem feito em troca do dinheiro que vou pagar, não quererei certamente gente dessa a meter-lhe a pata.

Trabalho não remunerado é roubo – não só aos trabalhadores como também aos clientes e a todos nós.

* Uma palavrinha acerca dos grupos de protesto contra a precariedade: um grupo de agentes sabotadores enviados pelas confederações patronais dificilmente conseguiria vir com uma ideia mais contraproducente do que a marcação de protestos para o Piolho.

O Pseudo

Escrevi a primeira versão deste artigo em Abril do ano 2000, ainda antes do início do Cafeína, tendo-o depois reeditado mais tarde. Ao lê-lo agora, dá para perceber que eu era um miúdo irritado. Provavelmente, tinha estado a discutir com alguém no IRC (pois é, essas modernices estilo Facebook são para meninos). E provavelmente, tinha levado um kick, ou um ban, ou lá como se chamavam essas coisas. Daí a dose de ressabiamento.

Vejo, no entanto, uma grande verdade por detrás do meu artigo: existe em Portugal uma crença nefasta numa ‘alta cultura’. Para alguém que trabalha nessa tal ‘área da cultura’, a ubiquidade desta crença torna-se sufocante. Eu cá não acredito que a cultura traga qualquer valor acrescentado a alguém – ninguém é melhor pessoa por ter visto os filmes do Jean-Luc Godard. É bom conversar com alguém com quem temos um vocabulário comum. É apenas natural que as pessoas com gostos semelhantes se aproximem. Mas ninguém é superior  a ninguém – não há qualquer mérito em ver filmes, ouvir música, em ler, ir ao teatro ou a uma exposição: Falamos de consumo, afinal. O valor do conhecimento cultural é estritamente pessoal – se ver um filme do Michael Bay de algum modo me ajudar a ser uma pessoa melhor, óptimo – para mim. Por outro lado, se um filme do Manoel de Oliveira só me servir para me vangloriar de ‘conhecer Oliveira’, então estamos mal – isto é o que Steven Pinker chamou e muito bem de “machismo cultural”.

Fica o artigo:

Isto é um assalto. À mão armada. Um ataque violentíssimo. Como um leão que salta para cima de um caçador que caminhava serenamente pela savana, maravilhado com a diversidade de cores de um amanhecer africano. Um ataque vil, horrendo, como o cavalheiro que manda três brutamontes assassinar o seu rival com 50 facadas nas costas, isto na véspera de um duelo (que não podia vencer visto ser um azelha a pegar numa pistola, e o seu rival campeão de tiro aos pratos).

Qual é, então, o meu problema? Penso que o posso descrever como a bipolarização de Portugal, à luz de uma azeiteirice e de uma pseudolice crescentes. Há cada vez menos pessoas normais. Apesar de muitas variações, 99% da população pode ser classificada ou como azeiteira (a maioria) ou como pseudo (apesar de em menor número, a classe intelectual dominante).

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Pirâmides

Mal sabia eu o que viria aí quando, a 4 de Julho do ano passado, escrevi o artigo que reponho mais abaixo. Lembro-me que nesse dia tinha ido ao Banco ‘trocar as fichas’ depois de a Bolsa ter tido mais um crashzito fatela de uns três porcento. No balcão juraram que a Bolsa tinha batido no fundo, que a recuperação começava no dia seguinte, que a seguir ao Verão estaria rico. Mesmo estando em causa um ‘fundo de investimento’ e uma quantia pequena (basicamente era um depósito dos restos não-esmifrados de prendas de Natal e de aniversário), sinto-me hoje orgulhoso dos meus ouvidos de mercador. Mas em relação ao artigo, não tive tomates para colocar por escrito a conclusão lógica do meu raciocínio – que a Economia mundial é um colossal esquema em Pirâmide, tal como Douglas Ruskoff descreve eloquentemente neste artigo. Fica o meu artigozinho ligeiro:

Há uns dias recebi um e-mail de um senhor que se apresentou como Ministro dos Transportes da Gâmbia em que me era pedida ajuda financeira. Sim, a mim!, um portuguesito com uma conta bancária igualmente diminutiva.

Continuando. O Ministro dos Transportes da Gâmbia necessitava de dez mil euros para pagar uma taxa qualquer para fazer qualquer coisa envolvendo muito milhões de dólares que estão num offshore na Suíça. Mais tarde eu receberia os meus dez mil euros de volta, mais um milhão de dólares. Ou seja, tendo em conta a cotação do dólar, pagar-me-ia mais uns 10% de juros. Não é um negócio lá muito atractivo, mas em tempo de crise [mal sabia eu - Ed], porque não?

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