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Private jokes e discursos íntimos

Existe um deus chamado Bruce. Não é um deus bondoso, nem maligno. É apenas Bruce, uma trindade: Nauman é a Luz (fluorescente). Mau é o design, o planeamento, e de certo modo a ACME das nossas vidas. E Lee, Bruce Lee, é a porrada que a vida nos dá. Existe ainda um semideus, Bud, o humor com que devemos encarar as coisas, sobretudo essa porrada que a vida nos dá.

Tal é a religião, estilo Spaghetti Monster, desenvolvida com uma amiga ao longo de muitas tardes de preguiça. Um de nós dirá “hoje Lee presidiu” e o outro dará o ombro, perguntará o que aconteceu. Bruce é um fragmento de uma linguagem íntima de que nós somos os únicos faladores. Surgiu espontaneamente, nunca nos sentámos e dissemos “vamos inventar uma religião parva”. São apenas metáforas que surgiram naturalmente no nosso discurso, evidências de entendimento e intimidade, tais como são as referências a Seinfeld ou a Smiths (“foi um plano à George”; “ainda levo com o double-decker”). Nunca teriam feito sentido se não conhecessemos e admirássemos Nauman e Mau; se não tivessemos crescido com os filmes de Lee, e com os de Bud e Terence Hill.

A linguagem da intimidade é construída. Pelas experiências e conversas comuns; e sobretudo pelos Momentos. Não é criada, não é partilhável, não é passível de ter qualquer significado quando citada. Com M. falo de Bruce Lee, com A. falo de pêras; referências diferentes para conversar sobre as mesmas coisas. Quer as private jokes, quer os discursos íntimos, são exactamente isso: privados e íntimos.

Histórias

Estou quase a acabar de ler Generation A do Douglas Coupland. O livro não é extraordinário, estando bastante longe de algo como o Jpod, mas fala bastante de algo que me tem ocupado os pensamentos nos últimos tempos: é que acredito que a vida é uma sucessão probabilística de acontecimentos e de momentos, e qualquer coerência aparente apenas poderá ser

  1. fruto das probabilidades (escassas) / sorte;
  2. resultado de um esforço muito deliberado (e muito pouco compensador).

A vida não é, portanto, um filme. Ou qualquer outra forma narrativa. Uma verdadeira biografia será, na melhor das hipóteses, uma massa desinteressante pontuada por alguns momentos de interesse. As histórias da nossa vida que contamos (incluindo as que valem realmente a pena contar) são sempre relatos posteriores. Pequenas narrativas fruto de uma ordenação e reordenação do passado.

in 'Generation A' de Douglas Coupland

in 'Generation A' de Douglas Coupland

Ninguém me irrita mais, portanto, que as pessoas que querem fazer o contrário, vivendo momentos escritos e planificados. Dois exemplos muito diferentes:

  1. A mulher que no meio de uma discussão não desfere um ataque verbal contra mim mas, pelo contrário, diz uma deixa (ex. “Eu não estou à procura de uma relação”) para ser apreciada por uma audiência invisível. Ouve: a nossa vida está aqui mesmo – não somos actores em nenhum filme francês.
  2. O tipo que, enquanto eu esperava aflito no corredor do bar, snifava coca na casa de banho armado em Gordon Gekko, provavelmente usando um Andante (passe mensal dourado) para desenhar a linha na caixa do autoclismo. Enquanto me tentava abstrair das três SuperBocks na bexiga, reflecti em como ninguém estava a ver o gajo*  -  porque é que não se limita a enfiar aquela merda pelo nariz acima com o dedo?

Cinematografizar a vida, admito, é algo em que todos caímos. Se vou entrar num sítio, penso na forma como o George Clooney ou o Brad Pitt entram nos sítios nos Ocean’s. Mas parte de mim espera que no fundo ninguém repare – precisamente porque não sou nem o George Clooney nem o Brad Pitt nem, infelizmente, me pareço com algum deles. Mas existe algo de fundamentalmente nefasto neste comportamento: sinto que estou a lidar com pessoas que se referem a elas próprias na terceira pessoa, estilo “o Jardel tem treinado bem e acha que o mister confia nele”. Ou com alguém que, quando se lhe pede que desenhe o que viu, se inclui a ele próprio na desenho.

Os meus olhos estão aqui mesmo, na minha cabeça, e só vejo para fora.

* Muito bem, nem eu. Mas o gajo saiu da casa de banho raiado e a fungar e juro que ouvi o que presumo ser um cartão plastificado a raspar qualquer coisa em cerâmica – mas ahah! aí o indivíduo até tinha uma audiência! Ora bolas…

O Carro

Tenho um carro. É um Fiat Punto de primeiríssima geração, fabricado pela marca de Turim em 1995. É um carro vulgar, motor de 1.1 litros e 55cv de potência, e uma pintura cor de ratazana metalizada. A única excepcionalidade reside na caixa de seis velocidades, algo que deve ter parecido boa ideia a algum engenheiro transalpino com uma tendência excessiva para o consumo de vermute. Esta caixa armada em especial de corrida é a razão pela qual a minha condução requer que eu mexa na manete das mudanças mais que o normal, o que me dá a fama de nervosinho ao volante. O carro tem ainda um risco na mala, duas amolgadelas na porta, um auto-rádio que não funciona e um limpa pára-brisas disfuncional. Em compensação tem também encostos de cabeça, vidros eléctricos, e a patina resultante de dez anos a ser estacionado na rua.

O meu Punto já foi assaltado diversas vezes (embora os bens furtados se tenham resumido a um colete reflector, umas fotocópias de Teoria e Crítica da Arte, e uma cassette), pelo que entretanto comprei um daqueles apetrechos que bloqueiam o volante. Mas aparte a questão da mobilidade que tento limitar a terceiros porque a gasolina é cara, vejo o meu carro como um espaço público sobre rodas. Lavo-o porque me chateia conduzir com lama no pára-brisas, e devo tê-lo aspirado pela última vez há uns cinco anos. Há coisas mais importantes na vida do que aspirar o carro. Incluindo não fazer nada.

Tendo 14 anos e uma quilometragem que já passou a centena de milhar, há quem possa dizer que se trata de um carro ‘velho’. Eu discordo. É ‘antigo’. O Fiat anda de A para B com pouca manutenção. Tenho poupanças que me permitiriam comprar um carro recente, talvez mesmo novo, mas sinceramente preferia gastá-las em SuperBock ou coisas ainda mais úteis. Além disso ainda há uns meses fiz um upgrade que consistiu na compra de uns tampões para as jantes no Continente.

Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja.

Também vai do ponto A ao ponto B. O problema é que uma vez no ponto B não teria dinheiro para uma cerveja.

Nunca criei uma relação afectiva com o meu carro. Nunca lhe chamei Bolinhas ou Antunes. É somente O Meu Carro. Que, se um dia puder dispensar, gostaria de empurrar por uma ribanceira abaixo, ficando depois a vê-lo explodir com uma câmara na mão direita e um Martini (dos que são vodka, vermute do bom e uma azeitona, não dos que são aquela coisa engarrafada) na mão esquerda.

O único problema é que evidentemente este meu comportamento de desprezo para com a carruagem-sem-cavalo que conduzo vai contra as normas sociais vigentes. Possuir uma viatura com mais de uma década e que requeira pouca manutenção é visto como uma forma de quase-indigência (se requerer muita manutenção é sinal de riqueza). É notável como o meu estatuto social aumenta automaticamente quando estou fora da cidade (não tenho o hábito de levar o meu carro para fora). Mas quando estou no Porto, passo a ser um cidadão de segunda sempre que esteja dentro ou junto da minha viatura. Páro no semáforo e o condutor ao meu lado ou o peão na passadeira põe um ar de superioridade, queixo subido e sorriso contido, como se o carro fosse o reflexo do valor da pessoa que o conduz. Mas pior é tentar obter uma cedência de passagem. É o apartheid automobilístico.

Certas mulheres olham para o Punto com desconfiança, e depois olham para mim com desconfiança. Se vamos sair e por alguma razão ou lhes dou boleia ou vêm o que conduzo, passam a noite a tentar averiguar, de formas que variam entre as mais directas e as mais subtis, mas sempre bastante nítidas para mim, quais serão as minhas reais capacidades financeiras, se serei um bom provider. Ou se serei, pelo contrário, extremamente avarento (o lixo electrónico que tenho em casa discorda). Como não têm nada a ver com isso, é normalmente a partir desse ponto que surgem as mensagens que dizem “estou muito ocupada” e coisas do género (como se uma mulher interessada não arranjasse tempo para café), para minha total falta de surpresa.

Entrámos no território do Boi do Príncipe, do Ken à escala 1:1: tal como para muitos a progressão natural da vida é Curso, Trabalho, Casamento, Filhos, Crise dos 40, Divórcio, Casamento, Filhos e Morte, aparentemente há também uma Progressão Natural das Dívidas – o Carro, a Casa, seguida da Mobília e de uma série de electrodomésticos organizados por prioridades, da Televisão à Câmara de Vídeo. E o Príncipe Encantado já não é o knight in a shining armor, mas aquele quem tem o maior número de objectos prateados dentro desta ordem de prioridades.

Há uns tempos vi no outro lado da rua uma rapariga com quem saí há uns tempos e que me recordo ter sido extremamente frontal quando me perguntou quanto é que eu ganhava na nossa primeira e única saída. O seu actual namorado seguia dez passos agressivos à frente, numa cena que me trouxe memórias esquecidas dos meses que precederam o divórcio dos meus pais. Havia também uma promessa de violência no andar do senhor. Cobarde como sou, virei-me para uma montra, escondendo-me enquanto assistia ao desenrolar da cena através do reflexo. Ela entrou para um carro de grande cilindrada, de traseira gorda e pintura prateada teutónica. Pensei, sem por um momento duvidar que estava a sentir um misto de Schadenfreude e amargura: ela tem o que queria. Afinal está tudo bem.


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