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	<title>O Procrastinador Profissional &#187; sociedade</title>
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	<description>Observações e comentários preguiçosos, por Eduardo Morais.</description>
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		<title>Da cobardia</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Jan 2012 03:23:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[Filosofia Barata]]></category>
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		<description><![CDATA[É fácil, agradável até, dizer-se que o comandante do Costa Concordia foi um cobarde. Olhamos afinal para esta patética personagem (por exemplo quando afirma que tropeçou e caiu acidentalmente no salva-vidas &#8211; racionalizando  assim que tenha sido um acidente, contra a sua vontade, que salvou a sua vida à frente da dos passageiros que tinha o dever [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2012/01/da-cobardia/">Da cobardia</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignnone size-medium wp-image-512" title="Mais um encalhado" src="http://www.cafeina.org/ed/wp-content/uploads/2012/01/4640451419_ecea8e54ab_o-500x392.jpg" alt="" width="500" height="392" /></p>
<p>É fácil, agradável até, dizer-se que o comandante do <em>Costa Concordia</em> foi um cobarde. Olhamos afinal para esta patética personagem (por exemplo quando afirma que tropeçou e caiu acidentalmente no salva-vidas &#8211; racionalizando  assim que tenha sido um acidente, contra a sua vontade, que salvou a <em>sua</em> vida à frente da dos passageiros que tinha o dever de proteger) e não deixamos de sentir uma certa <em>schadenfreüde</em>, uma espécie de prazer na desgraça pública desta pessoa vil, cobarde e pequena. Os <em>media</em> internacionais não deixam de aproveitar esta amostra da suposta inferioridade moral dos italianos (e de certeza que os <em>media </em>italianos sediados em Milão também o fazem para demonstrar a fraqueza moral dos napolitanos), e mostram repetidamente este desgraçado encandeado pelas perguntas dos jornalistas. Vemos os seus cabelos encaracolados e com <em>mullet</em>, o comandante de um cruzeiro de luxo com ar de <em>playboy</em>, e julgamos com o <em>cliché</em> - este não é um homem, é um rato. Ou pior, é um Berlusconi apanhado em flagrante delito.</p>
<p>Ao mesmo tempo, olhamos para o comandante Schettino e pensamos, confortável e calorosamente, que não faríamos pior na mesma situação, de certeza que faríamos melhor, de certeza que permaneceríamos no navio até todos os passageiros estarem seguros, cientes do nosso heroísmo e do nosso orgulho em, caso fosse esse o desfecho, morrer em pé. Identificamo-nos com o oficial da capitania de Livorno, que barafusta via rádio, ordena ao comandante que volte para o navio e assegure o resgate dos passageiros; e é realmente fácil identificar-mo-nos, provavelmente também estaremos em terra firme, debaixo de um tecto que nos protege dos elementos, porventura sentados numa cadeira fofa. É fácil sermos heróis, é fácil berrar e barafustar quando o perigo está lá fora e apenas lhe chegamos perto através de feixes hertzianos.</p>
<p>É patética a indignação de café contra a cobardia igualmente patética do capitão. Eu assumo que duvido qual seria a minha reacção. Num barco inclinado, eu provavelmente paralisaria, e ficaria agarrado, choroso e inerte, a uma cama que se deslocou para a vertical. Herói, dificilmente me imagino.</p>
<p>Não há melhor prova de falta de introspecção que a incompreensão para com a mais elementar das fragilidades, o instinto de auto-preservação. Schettino foi cobarde, mas foi-o para salvar a sua vida, e o tempo dirá se essa vida é mais forte, se compensa a vergonha e a censura. E todavia, todos os dias se assiste à cobardia quotidiana dos indignados. Não se foge sequer de barcos a afundar que podem custar a vida. Foge-se de relacionamentos, apenas porque não são muito oportunos. Foge-se da aprendizagem, apenas porque é difícil. Foge-se da construção, apenas porque dá trabalho.</p>
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		<title>Caro André</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Jan 2012 01:21:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[II Grande Depressão]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>
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		<description><![CDATA[Não será nem a primeira nem a segunda vez que aqui me refiro ao assunto. Será a terceira vez, o que me aborrece, porque escrevo sobre algo que para mim é tão evidente que se eu estiver tão incorrecto como transparece pelos comportamentos que observo e as opiniões que oiço mais vale que me submeta ao cativeiro de [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2012/01/caro-andre/">Caro André</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Não será nem <a href="http://www.cafeina.org/ed/2009/06/entre-uma-rocha-e-um-sitio-duro/">a primeira</a> nem <a href="http://www.cafeina.org/ed/2011/08/entalados/">a segunda vez</a> que aqui me refiro ao assunto. Será a terceira vez, o que me aborrece, porque escrevo sobre algo que para mim é tão evidente que se eu estiver tão incorrecto como transparece pelos comportamentos que observo e as opiniões que oiço mais vale que me submeta ao cativeiro de uma instituição que trate quimicamente os delírios e as visões. É que do meu ponto de vista, não só é errado aceitar trabalhar gratuitamente (excepção feita ao serviço de causas não lucrativas), como também é profundamente <em>imoral</em>.</p>
<p>Daí, <a href="http://www.e-clique.com/destaque/geracao-andre/">André</a>, que tenha que te confessar algo terrível, usando covardemente o meu blog para te dizer sem rodeios aquilo que, caso nos encontrássemos cara-a-cara, abordaria com cuidado para não provocar desacatos: não tenho pena de ti. Não simpatizo com a tua situação, e tenho de facto um pouco de desprezo pelas tuas acções. Porque por mais brilhantismo e dedicação que tenhas demonstrado ao teu rico &#8216;empregador&#8217; durante os seis meses de trabalho não-remunerado, tu não és nenhuma vítima de exploração, não és nenhum oprimido. Pelo contrário André: és tão opressor como aquele que lucrou com o teu trabalho.</p>
<p>Roubaste, André. Seis meses de salário a alguém que teria o teu trabalho se este tivesse que ser pago. Deves isso a alguém que perdeu o emprego pela tua disponibilidade sacana em trabalhar gratuitamente. Deves isso aos teus colegas de curso sem emprego nem subsídio, futilmente fazendo <em>refresh</em> ao Carga de Trabalhos em casa dos pais, desesperando quando as palavras &#8216;estágio&#8217; e &#8216;não-remunerado&#8217; encerram a maioria dos anúncios promissores. André, deves esses seis meses a todos aqueles que na tua área se viram obrigados a emigrar ou estão nos <em>call centers</em> a tentar a explicar a alguém muito idiota que não têm maneira de saber qual o nome do restaurante que tem azulejos azuis em Águas Santas, que a Vodafone não é omnisciente. Fazem-no porque têm que pagar uma renda, porque têm filhos para cuidar, porque têm a dignidade de saber que o seu saber tem um preço.</p>
<p>Põe-te na pele do maldito patrão. Sim, eu também não o tenho em grande conta, sei bem que será provavelmente um seboso, um ganancioso. Imagino-o um decadente da era Maio &#8217;68 &#8211; 25 de Abril e tão obcecado em rapar o fundo do tacho da sua virilidade que só pensa em foder alguém, nas mais diversas formas. Ou então imagino-o um dos tais rebeldes &#8216;rascas&#8217;, que passou do cu-ao-léu para a Manuela Ferreira Leite para o fascismo pessoal dos meritocratas sem mérito. Seja como for, esse patrão tem dois objectivos &#8211; conquistar clientes para o que quer que ele faça, e aumentar a sua margem de lucro. Para conquistar clientes, especialmente num país onde estes se cagam na qualidade das coisas, o patrão precisa de praticar preços baixos. Para aumentar o lucro, o patrão quer ter as menores despesas possíveis. Daí não ser possível censurá-lo de todo, por mais repugnante que seja a pessoa em questão, se o patrão vai ao mercado e te encontra a ti, e a todos os outros Andrés &#8211; demasiado preguiçosos para se dedicarem a projectos próprios, demasiado interesseiros para participar em causas não-lucrativas -, a oferecerem gratuitamente os seus serviços.</p>
<p>Mas continuas a achar que a tua situação actual, sem futuro depois de chutado sem cerimónia no final de seis submissos meses a gerar lucros, não é culpa tua. Que o único problema é que os sacanas dos patrões não te pagam. Pois bem, a EDP não diz aos teus patrões que a electricidade será gratuita. A Galp não oferece gasolina gratuita para os carros da empresa. Mas tu nem uma mísera comissão exigiste, André!</p>
<p>A culpa é toda tua André, tua e dos restantes Andrés, os que vieram antes e os que saltaram para o teu lugar no dia seguinte à tua saída. Sustentado pelos teus pais, jogaste sujo e deste cabo da carreira aos teus colegas de curso que realmente precisam de trabalho. Jogaste sujo e fizeste que colegas de profissão mais velhos perdessem os seus empregos, com poucas perspectivas de os recuperarem. E ainda achas tudo isto bem; que os medíocres devem ceder o lugar aos capazes, que com a tua energia, juventude e mérito o sector onde trabalhas será purificado.</p>
<p>Pois, o &#8216;mérito&#8217;. Medido por quem? Por ti, que vendeste a tua espetacularidade a zero euros mensais? Ou pelos gestores inaptos ou maliciosos que desmotivaram trabalhadores capazes, que lhes colocaram objectivos impossíveis ou em áreas fora das suas capacidades, empurrando-os para o demérito? Achas que não te poderá acontecer a ti, ser levado numa purga? É que se estás sem trabalho depois de seis meses não remunerados, já te aconteceu. O teu &#8216;mérito&#8217; foi teres saído barato.</p>
<p>Diz-me uma coisa, André: trabalharias a troco de nada noutro país? Trabalharias a troco de nada na caixa de um supermercado, a atender telefonemas de idiotas, a apanhar fruta num cu-de-judas qualquer desde manhãzinha até ao sol se pôr? A fazer tarefas que consideras <em>abaixo</em> das tuas capacidades e qualificações?</p>
<p>Ai não?</p>
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		<title>Da ignorância</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Nov 2011 16:10:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Anda a circular por aí um vídeo que nos apresenta a &#8220;ignorância dos nossos estudantes universitários&#8221;. Vemos pessoas que, por total desconhecimento ou devido à pressão da súbita entrevista, são incapazes de dizer qual é a capital de Itália ou quem escreveu Os Maias. Divertimo-nos a ver este vídeo e damos-lhe &#8216;likes&#8217; ao mesmo tempo [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2011/11/da-ignorancia/">Da ignorância</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Anda a circular por aí um vídeo que nos apresenta a &#8220;ignorância dos nossos estudantes universitários&#8221;. Vemos pessoas que, por total desconhecimento ou devido à pressão da súbita entrevista, são incapazes de dizer qual é a capital de Itália ou quem escreveu <em>Os Maias</em>. Divertimo-nos a ver este vídeo e damos-lhe &#8216;likes&#8217; ao mesmo tempo que lamentamos a existência de pessoas tão burras. Culpamos o sistema educativo, os pais e os professores. E achamos que aqui está a prova de que temos razão: as novas gerações são incultas, estupidificadas e vão destruir o pouco que resta da nossa civilização. Porque nós sabemos que Roma é a capital de Itália, que o Eça de Queiroz escreveu <em>Os Maias</em>, e que o símbolo (sic) químico da água é H<sub>2</sub>O.</p>
<p>Pois bem. Se o estimado leitor reagiu com um &#8220;muito bem&#8221; ao parágrafo anterior, tenho o dever de o informar que o estimado leitor é na realidade o maior ignorante nesta história. Porque esta não é uma história da ignorância de alguns universitários que nunca jogaram muito Trivial Pursuit. Afinal, para que serve realmente saber que Roma é a capital de Itália? Sabe quais as capitais do Gabão e do Botswana? E se não sabe, é porque serão países menos importantes que Itália? Quem diz?</p>
<p>Caro leitor, esta é uma história sobre a ignorância dos <em>licenciados</em> (presumivelmente em jornalismo ou comunicação social) que terão sido responsáveis pelo vídeo. E uma história também sobre a ignorância dos muitos licenciados, mestres e doutores que terão acolhido tal &#8216;reportagem&#8217;, partilhado o vídeo nas redes sociais com vigor e aplauso apenas porque servia de prova dos seus preconceitos. É uma história sobre a vontade de generalizar anedotas e calinadas, e sobre a vontade de manipular e ser manipulado. Independentemente do motivo ser político ou apenas dar umas risadas.</p>
<p>Na letra pequena abaixo do tal vídeo lê-se que foram entrevistados 100 alunos, e a cada um foram colocadas vinte questões. Em lado algum nos é dado um número &#8211; quantas respostas foram erradas? Dez porcento? Vinte? Ou oitenta? Apenas nos é dada &#8220;a ignorância dos universitários&#8221; e um &#8216;best-of&#8217; de respostas escolhidas pelo seu potencial cómico. Constata-se que os responsáveis pelo vídeo não foram medir o nivel de cultura geral dos universitários (e com uma falta de rigor estatístico aterrador): Foram sim arranjar umas quantas calinadas para poderem montar este vídeo. A isto não se chama jornalismo, chama-se propaganda. E para prova da total falta de ética destes senhores veja-se o intertítulo &#8220;qual é a fórmula química da água?&#8221;, que numa primeira versão se lia &#8220;qual o símbolo químico&#8221;. Pois com total despudor seguem-se imagens de jovens a meter os pés pelas mãos a uma pergunta mal formulada, como se a pergunta certa tivesse sido colocada.</p>
<p>Isto não é jornalismo. É uma merda. Gostar de chafurdar nela é bem pior que a falta de cultura geral.</p>
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		<title>Só para dizer uma coisa</title>
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		<pubDate>Sun, 30 Oct 2011 17:15:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[Escárnio e Maldizer]]></category>
		<category><![CDATA[II Grande Depressão]]></category>
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		<description><![CDATA[Estou indignado com muita coisa. Indignado com a nossa sociedade, a nossa cultura, a nossa política; com os media e a opinião pública, tanto a pop como a alternativa. Estou indignado com a minha inércia e os meus vícios. Estou indignado com os ricos, indignado com os pobres, indignado com os intelectuais e com as [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2011/10/so-para-dizer-uma-coisa/">Só para dizer uma coisa</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estou indignado com muita coisa. Indignado com a nossa sociedade, a nossa cultura, a nossa política; com os <em>media</em> e a opinião pública, tanto a <em>pop</em> como a alternativa. Estou indignado com a minha inércia e os meus vícios. Estou indignado com os ricos, indignado com os pobres, indignado com os intelectuais e com as pessoas que acham que os dinossauros eram mamíferos ou que África é o nome de um país na América austral.</p>
<p>Mas não admito que uns quaisquer aspirantes a publicitários, que ainda por cima não elegi, se julguem representantes da minha indignação. A minha indignação não requer relações públicas ou qualquer outro tipo de representação. E é orgulhosamente amadora.</p>
<p>Serei profissional noutras coisas &#8211; no ensino e nos biscates multimédia pelos quais sou pago habitualmente, na ajuda que ofereço a quem ma merece, ou na procrastinação que pratico com fervor e cuidado -, coisas com as quais espero contribuir de forma concreta para melhorar a minha vida e a das pessoas que se cruzem comigo. Mas jamais terei qualquer aspiração profissional baseada na minha indignação, e repudio quem a tenha.</p>
<p>Os 1% de indignados profissionais, que esperam salivando por tempos ainda mais difíceis que os vinguem, não me merecem mais simpatia que os 1% da elite económica que <em>crackaram</em> todo o sistema socio-económico e que ninguém parece entender que terá que ser reparado para nos pôr a salvo dessa predação. Compreende-se que os predadores e parasitas que exploram a nossa estrutura social não o queiram fazer, mas jamais estarei ao lado dos que querem resolver a questão dinamitando tudo conosco no interior (na versão <em>new-age</em> da crença de que iremos todos para o Céu); ou de umbiguistas a quem apenas interessa o engate retro-revolucionário via Facebook (que alguém por favor abra um <em>resort </em>Maio&#8217;68 ou PREC para esta gente!). Não admito que a minha indiganção seja explorada por quem revela, na sua arrogância <em>naif</em>, estar-se cagando para a complexidade do mundo e dos seus 7000 milhões de seres humanos &#8211; 7000 milhões de bocas e de sonhos, 7000 milhões de interesses e opiniões altamente contraditórios que é necessário respeitar e gerir sem que nos matemos a todos.</p>
<p>O apolítico é o melhor amigo das elites, o seu agente-duplo que nem necessita de remuneração. É de verdadeira agenda política (<em>Polis</em> &#8211; cidade &#8211; cidadania) que precisamos: no dia em que vir palavras de ordem de consequência construtiva para os 98% sairei à rua. Receio ter que esperar sentado.</p>
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		<title>Requiem por uma mercearia</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Sep 2011 17:20:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Eduardo Morais</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[porto]]></category>
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		<description><![CDATA[Hoje é dia de reentré para a Baixa do Porto. Regressam as ditas inaugurações nas galerias de dita arte na Rua Miguel Bombarda e arredores, e com estas regressa o pretexto para umas iniciativas e uns eventos coincidentes, em que o comércio se anima na expectativa de atrair a estima, mas sobretudo, o escasso dinheiro das [...]<p><br />Ler <b><a href="http://www.cafeina.org/ed/2011/09/requiem-por-uma-mercearia/">Requiem por uma mercearia</a></b> n'<a href="http://www.cafeina.org/ed">O Procrastinador Profissional</a>...</p>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje é dia de <em>reentré</em> para a Baixa do Porto. Regressam as ditas <em>inaugurações</em> nas galerias de dita <em>arte</em> na Rua Miguel Bombarda e arredores, e com estas regressa o pretexto para umas <em>iniciativas</em> e uns <em>eventos</em> coincidentes, em que o comércio se anima na expectativa de atrair a estima, mas sobretudo, o escasso dinheiro das pessoas que vêm passear para a zona central do Porto, e que hoje mostram as suas melhores roupas e o seu melhor sotaque a-portuense na esperança de encontrar e impressionar colegas de trabalho; e o fazem à custa de entupir os acessos à zona e encher de monóxido de carbono uma zona que até costuma ser aprazível, mesmo em horas idênticas durante os dias de semana.</p>
<p>As ruas da Baixa enchem-se de jovens, muitos deles trajados como certamente encaminhados para as escolas artísticas e para a exploração às mãos das ditas <em>indústrias criativas</em>. Hoje têm o mundo a seus pés, vestem-se impecávelmente, são felizes e carregam os seus brinquedos preferidos. Entristece-me saber que muitos estão ali, de forma inconsciente, no auge das suas vidas. Temo pelo futuro deles num sistema sócio-económico insustentável, mas também pelo meu: que crimes horrendos poderão vir a cometer estes jovens alegres, de Wayfarers coloridos e expressões saídas de um anúncio a telemóveis ou cerveja, para que este Sábado se possa prolongar para o resto das suas vidas. A que estarão dispostos os jovens casais, para manter o passeio e o consumo? Uma eventual futura polícia política também andará a passear pelas inaugurações.</p>
<p>Não sou, apesar da minha visão das coisas, um espectador soturno que se esconde nas sombras: integro-me, mais ou menos. Calças Benetton (dos saldos), pólo Nike (dos saldos) e óculos castanhos estilo os tais Wayfarers &#8211; de inspiração e não de imitação &#8211; comprados precisamente no tal Centro Comercial Bombarda há uns anos (e fora dos saldos). A não ser pelo pormenor de não me deter muito nos sítios e por me encontrar sem companhia, julgo que passo bem por figurante. Não consigo é deixar de me sentir desconfortável com o que me rodeia, e apesar de tudo sinto-me como se estivesse sem disfarce nesta festa de Carnaval Capitalista &#8211;  ou como um homem sóbrio na Queima das Fitas.</p>
<p>Na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, existia uma mercearia. Não me lembro com precisão se alguma vez lá tinha entrado. Talvez, a caminho de um jantar em casa de uma amiga que vivia na zona há uns anos, ainda antes de ter aberto o Minipreço, tenha lá comprado uma garrafa de vinho. Talvez também tenha acompanhado alguém a comprar tabaco lá &#8211; de alguma forma sei que essa mercearia vendia tabaco, e eu não fumo.</p>
<p>Aquilo que encontrei hoje, na esquina da Rua Miguel Bombarda com a Rua do Rosário, em frente ao Café Célia, foi a inauguração de uma loja com umas coisas que normalmente são descritas como <em>design</em> mas que não tenho a certeza que sejam. Um daqueles entreténs para quem está à vontade para suportar rendas caras. Entristeceu-me.</p>
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