A Cidade
Evidências conhecidas há muito, e às quais poucos ligaram…
Evidências conhecidas há muito, e às quais poucos ligaram…

Eat the Rich / Kill the Poor, do colectivo Democracia, 2010
Vivemos num mundo em que existem mais pessoas do que trabalho para ser feito. Isto não significa que exista um excesso de população. Trata-se de um rácio. A computação, a automação, as eficiências necessárias para alimentar sete mil milhões de bocas e vestir sete mil milhões de corpos, levam a que exista uma grande insuficiência de coisas importantes para fazer. Poucos cultivam a terra, poucos são necessários nas fábricas a fazer coisas importantes. Fazem-se produtos que duram pouco para poder empregar quem os faça, destrói-se o Ambiente para se fabricarem inutilidades que empreguem mais homens do lixo e mais pessoas no processo de reciclagem. Inventam-se Gestões, Marketings, Designs de estratégias de investimento criativo, Consultorias de certificação ISO e outras tantas inutilidades com o objectivo de ocupar um número adicional de seres humanos enquanto participantes na economia; enquanto se empilham pós-doutoramentos em cima de doutoramentos, doutoramentos em cima de mestrados e estes em cima de pós-graduações, de modo a tentar atrasar a entrada de outros tantos desafortunados num Mercado de Trabalho tão deserto de emprego como o do Bom Sucesso o é de legumes.
O pouco trabalho que existe será de quem se oferecer para trabalhar mais por menos, seja o operário Chinês, seja o estagiário. A perversa aritmética deste sistema não deixa espaço para reinvindicações nem recuos: o desespero, aonde quer que ele exista, furará qualquer greve. Qualquer dita Utopia pressupõe ou o genocídio dos discordantes ou a fome daqueles que uma utopia regressiva não conseguirá alimentar. Apenas podemos andar para a frente e aguentar-nos à bronca. Só uma escolha pessoal que constitua uma força colectiva pela justiça, pela solidariedade e pela ciência, nos pode ajudar a sair deste desconforto em direcção a um destino incerto – em vez do desastre certo.
Mas como?, quando aqueles a quem a vida corre bem tendem a sentir-se Eleitos e Iluminados e de algum modo superiores aos restantes – a ralé preguiçosa, descrente, merecedora do seu infortúnio…
Embora já tenha perdido semanas ou meses de vida para jogos de estratégia ou de andar por ali aos tiros, os meus jogos de computador preferidos sempre foram os simuladores de futebol. Quando era miúdo o jogo de eleição era o Match Day no ZX Spectrum, seguindo-se-lhe o Kick Off e o Itália’90. Entrei na adolescência com um Commodore Amiga e rapidamente descobri a perfeição minimalista do Sensible Soccer. A pós-adolescência e os vintes trouxe uma sucessão de PCs de diferentes feitios e a estabilidade de uma alternância entre o FIFA e o PES a cada três ou quatro anos.
Recentemente, jogando campeonatos no FIFA 11, dou por mim a pensar o que seria do mundo se os meus jogos tivessem consequências reais, como se de feitiços vudu se tratassem: imagino o FC Porto a ficar para trás no campeonato transacto e eliminado pelo Spartak de Moscovo depois da grave lesão do Falcão num jogo contra o Beira-Mar, que por qualquer razão o computador achou por bem que se jogasse debaixo de um nevão. Imagino Robert Earnshaw do Nottingham Forest a acordar com uma perna partida depois de o mesmo ter acontecido ao seu boneco digital num jogo da segunda divisão inglesa contra o Watford, enquanto o seu companheiro de equipa Radoslaw Majewski recebe a notícia de uma suspensão de 2 jogos após a sua expulsão num jogo contra o Doncaster disputado num computador português. Isto serão certamente devaneios de alguém que leu demasiadas obras menores de Philip K. Dick (de repente lembra Flow My Tears, the Policeman Said), mas julgo que será também uma boa ilustração dos tais Mercados.
Afinal, falamos de toda uma elite de pessoas que jogam computador o dia todo. Não jogam nem FIFA nem Street Fighter mas sim algo que, pelos vislumbres televisivos das salas de corretagem (espaços que, para ser honesto, nunca visitei), se assemelha aos jogos de estratégia dos anos 80 do estilo Trade Wars. O objectivo é ganhar dinheiro, vendendo caro o que se comprou barato. E podem-se fazer todo o tipo de manigâncias para subir o score. Hackar - ou como se diria na altura, ‘meter POKEs’ – ao sistema financeiro não só é legítimo como faz parte do jogo.
É uma vida boa ser pago para jogar computador o dia todo, ganhando bónus cada vez que se passa de nível. E o melhor de tudo é o vudu que enriquece a conta bancária do jogador: como se a minha vitória nos penálties com o Forest contra o Arsenal na Taça de Inglaterra tivesse colocado na minha conta bancária as 262 mil libras que o computador disse que ganhei, e eu agora pudesse andar aí a enviar para a atmosfera 30 litros de gasolina por cada 100 kilómetros de viagem entre campos de golfe.
Maravilha.
Já expressei por diversas vezes a minha opinião de que as eleições que se aproximam são essencialmente uma escolha entre uma parede e uma espada. Temos, no lado do ‘sistema’, um partido desgastado e situacionista e que a crer nos media é liderado por Satanás em pessoa; e dois partidos que crêem entusiasmada e verdadeiramente neste capitalismo-turbo, tal o brilho pleno de fé nos olhos dos respectivos líderes. Do outro lado, dois partidos pelo Não a uma boa parte das injustiças vigentes, votos úteis para marcar uma posição, mas que infelizmente se esquecem que o Mundo é muito grande e complexo; algumas das suas propostas bem-intencionadas seriam um pouco como acabar com as energias nuclear e fóssil de um dia para o outro – tanta fogueira acesa e tanto alimento estragado não faria nem bem ao ambiente nem à saúde.
De qualquer modo, espero que o futuro governo – qualquer que seja – siga a minha humilde proposta para o sector dos media, que é para mim o principal factor de irritação e crispação na actualidade: Todos os meios de comunicação social deveriam ser legalmente obrigados a adoptar o nome do seu presidente, director ou principal accionista.
Ou seja: quando SIC Notícias coloca, debaixo de uma intervenção em que Jerónimo de Sousa diz que PS, PSD e CDS são gatunos, a legenda tecnicamente verdadeira “Jerónimo de Sousa diz que PS são gatunos”, temos uma leitura – especialmente se não prestarmos muita atenção ou se virmos isto no café, onde a TV está sem som. Seria no entanto totalmente diferente ver isto na Pinto Balsemão Notícias. Da mesma forma, uma sondagem do jornal Belmiro não será bem o mesmo que uma sondagem do jornal Público; uma entrevista na RTP não é bem o mesmo que uma entrevista na Televisão com Funcionários Públicos; um furo da Rádio Renascença não será o mesmo que um furo da Igreja Católica.
Fico a aguardar uma resposta do futuro governo a esta reivindicação, que não acarreta qualquer custo adicional para o Estado nestes tempos austeros que vivemos.
O meu entusiasmo pela demissão do Governo e pelas eleições que aí vêm é tão grande como o meu entusiasmo em torcer pela selecção do Canadá em curling. Tivemos e continuaremos a ter os governos que merecemos, que de qualquer modo se limitarão a administrar as prescrições de gente que não elegemos.
A situação de Portugal lembra a seguinte parábola budista:
A man traveling across a field encountered a tiger. He fled, the tiger after him. Coming to a precipice, he caught hold of the root of a wild vine and swung himself down over the edge. The tiger sniffed at him from above. Trembling, the man looked down to where, far below, another tiger was waiting to eat him. Only the vine sustained him.
Two mice, one white and one black, little by little started to gnaw away the vine. The man saw a luscious strawberry near him. Grasping the vine with one hand, he plucked the strawberry with the other. How sweet it tasted!
- 101 Zen Stories, #18
Entre uma rocha predominantemente constituída por Sílica (S) e um Sítio Duro (SD), talvez o melhor a fazer seja comer os morangos.
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