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Capitalism Kills Love

Num muro exterior do Museu de Serralves, virado para a Avenida Marechal Gomes da Costa, encontra-se um néon da autoria de Claire Fontaine. Todos os dias após o pôr-do-sol, o gás contido nas lâmpadas recebe uma carga eléctrica intermitente. O gás produz radiação ultravioleta que por sua vez leva o fósforo que cobre a superfície das lâmpadas a emitir, em luz visível:

CAPITALISM KILLS LOVE

Já tinha passado por esta mensagem várias vezes nos últimos meses, mas hoje detive-me, tirei o telemóvel do bolso e tentei tirar fotografias. A primeira apanhou o piscar intermitente em off; a segunda tentativa, nervosa pela lentidão do aparelho, saiu algo tremida; a terceira lá ficou semi-aceitável, apesar da perspectiva forçada imposta pelo passeio estreito, pela Avenida de quatro faixas onde os carros passam a alta velocidade, e pela fome, o cansaço, e sobretudo a preguiça em tentar procurar um ângulo mais favorável no outro lado.

A fraca qualidade óptica do telemóvel e o exagerado ângulo de difracção impedem a leitura da palavra LOVE.

O que me interessa afirmar é que concordo em absoluto com esta mensagem; não a entendendo todavia como uma mera observação superficial (mas tantas vezes tristemente verdadeira) sobre o modo como o amor e os relacionamentos estão sujeitos a cálculos materiais.

Não vejo nos fundamentos do capitalismo nenhuma espécie de Mal absoluto que seca e apodrece os corações ao mesmo tempo. Não está em causa que qualquer um possa criar riqueza e transacioná-la; que qualquer um possa assumir a propriedade de um pedaço de terra se a trabalhar. Existem sistemas piores, embora seja para mim igualmente evidente que existem crimes e ‘pecados’ nas formas como muitos recursos e riquezas foram acumulados – e talvez a própria herança seja um deles -, para além do modo como hoje em dia muito do ‘sistema capitalista’ nada tem que ver com trabalho e riqueza (isto é, palpável). Mas não será isso que estará a meu ver em causa, pelo menos directamente, na condenação que infiro da afirmação CAPITALISM KILLS LOVE.

O que está para mim em causa é o Capitalismo enquanto modelo para tudo o resto: o Amor não é nenhum Mercado, nem é um Bem de Consumo. O Amor dá-se. Não se acumula, não se empresta, não se Investe para receber qualquer Juro ou Dividendo. Não é nenhuma moeda de troca. O Amor é pessoal e transmissível sem que alguma vez se esgote.

E no entanto, no actual regime Capital-Consumista as relações amorosas desenrolam-se como se obedecendo a uma espécie de Mercado Laboral. Tal como o potencial empregador que atira com os currículos para o fundo de arquivadores após olhar para a primeira página durante 40 milisegundos, sem um C.V. romântico substancial tornamo-nos invisíveis. Teremos de parecer os Príncipes Encantados de alguém (que por definição nunca seremos, por melhor que sejamos), mas esta expectativa que só de si nos coloca a pressão da insuficiência ocorre na constante tensão com uma outra: que sejamos o Empregado Modelo, absolutamente normalizado e incapaz de surpreender – ou previsível na surpresa, como bom personagem cinematográfico. Casamento, filhos, pacotes A Vida É Bela contendo fins-de-semana em Pousadas de Portugal; esse género de coisas. Num sistema que despreza as noções de sorte e azar, ou somos winners ou somos losers, se somos os segundos os juízos são exigentes e cruéis, se somos os primeiros, somo-os sob a ameça permanente da queda.

Não consigo precisar quando ou porquê fui condenado ao sopé de uma montanha íngreme. De forma de todo inesperada, numa tarde solitária de Sábado, foram três as não-respostas a convites para mero café, conversa, talvez uma volta pelo museu. Silêncios que são ensuredecedores quando coexistimos com uma matriz de bits, e quando a sua movimentação é cómoda, acessível e barata. Xtremes, Tags e baterias de lítio têm o potencial de nos aproximar, mas também sobem o volume do silêncio.

Foi neste contexto que encontrei CAPITALISM KILLS LOVE. Não identifiquei esse Love que foi Killed com um Amor ou uma paixão minha – afinal disparei três convites diferentes (e talvez não o devessse admitir, mas se escrevo não é para parecer bom rapazinho); mas sim o Amor Em Geral, a Estima, a noção de que mais vale estar bem acompanhado do que só, de que o Outro merece um Reconhecimento, de que as interrogações têm uma resposta, mesmo que seja um singelo ‘n’. Ou voltando ao meu ponto de vista: de que Existo. De que mereço ser olhado. De que alguém poderá gostar de o fazer.

Passar a mão pelo pêlo

Escrevo este artigo um sábado à noite. Devia ter saído e estar neste momento a beber uns copos na fria e agorafóbica noite do Porto, mas decidi-me ficar em casa devido a um certo sentido de dever; nomeadamente, a execução de um certo trabalho de cariz informático para o qual existe uma certa urgência. No entanto dou por mim a escrever este artigo, e a decidir-me a deixar para amanhã, e se nada melhor houver para fazer, aquilo que teria que ter feito hoje. Isto porque não gosto que me passem a mão pelo pêlo.

Abomino, aliás. Se não quero saber o quão bom é o meu trabalho antes de estar concluído, como encaixar os elogios que precedem os primeiros bits? Ninguém dá nada a ninguém, e mesmo que as palavras sejam gratuitas não deixo de associar uma mão no pêlo a água no bico.

Entendo que muitos se deixam levar por uma figurativa festa no couro cabeludo. A lisonja é um bom lubrificante social, o Redex Bala da micro e pequena política. Queremos ouvir palavras simpáticas acerca de nós; em troca de uma pequena massagem na auto-estima fazemos favores, confiamos. No entanto, alguns de nós têm a pele calejada – ou um cabelo estilo palha-de-aço, que dói quando lhe fazem festas com pouco jeito. A minha auto-estima depende de mim, como indica o prefixo auto-. Depende da minha auto-crítica relativamente às minhas acções; se falamos de trabalho, relativamente à obra feita. Uma mão pelo pêlo retira-me qualquer autonomia.

Uma vez dei por mim a passar a mão pelo pêlo a uma colega que achava atraente, cheio de água no bico. Respondeu-me que eu era livre de elogiar obras concretas, mas não me permitia que generalizasse tais elogios à pessoa. Em retrospectiva, fui foleiro e tive a resposta merecida.

Quando gostamos do que fazemos, não precisamos de ouvir certas merdas.

Da Incompletude

Não sou uma pessoa completa. Ou sequer, um homem completo. Durante a maior parte da minha existência, desde que me lembro, sinto-me como se padecesse de uma estranha condição que faz de mim 90% opaco. Se do outro lado a luz for suficientemente forte, será possível ver através de mim. Se assim for desejado por quem me vê, torno-me numa percepção fantasma – desapareço, vá.

Existem outras metáforas que poderia utilizar para descrever este sentimento, mas esta será a melhor. Para lá deste persistente estado de alma, os diversos indicadores indicam incompletude aos mais variados níveis: fraco capital económico, apesar de nada dever; fraco capital político; fraco capital erótico; talvez algum capital cultural, mas por esse ninguém se interessa realmente. Falta-me dinheiro, falta-me poder, falta-me companhia (de diversos géneros), e portanto tenho tempo de sobra para ler. Onde quero chegar é: incompletude. No que toca a ser um self-made man, ainda estou a desdobrar as instruções do kit.

Mas chega de auto-comiseração: não acredito que alguma vez algum ser humano tenha sido completo no sentido ocidental-comercial da palavra. Buda atingiu o Nirvana, mas arruinou as finanças familiares. Atingir a Fachada, no entanto, parece que será tudo o que basta hoje em dia.

Assumo portanto, que nada tenho mais para oferecer que um Kit de pessoa ou uma personalidade liofilizada (como o seu quê de produto ACME). Terei de ser levado ao alfaiate para ajustes. Se uma mulher me demonstra acreditar – esperar – um parceiro completo (ou talvez, uma solução integrada, um pack, um pronto-a-vestir), desilude-me. Deixar-me-à em breve, porque haverá sempre alguém a parecer mais completo do que eu, dependendo da luz: as fachadas, regra geral, parecem opacas.

Mais construtivismo, abaixo os capitalismos!

Do Amor no Século XXI

Vi-a no café: pequena e magra, bracelete no braço moreno e cabelo encaracolado como uma ilustração clássica de Afrodite. Ela sorria. Sorria muito, um vislumbre de dentes brancos entre os lábios. E mexia no cabelo, brincava com os caracóis – tique de mulher apaixonada, ou pelo menos interessada. A sua companhia era um pequeno computador branco, a maçã trincada por esta presumível Eva. Mas há que frisar: apenas o computador branco.

Quero acreditar que o papel do computador na cena é apenas o de meio de comunicação. Que presenciei uma mera actualização do ansioso telefonema que esta rapariga receberia de uma pessoa amada; da carta que chega após sabe-se lá quanto tempo e cuja leitura constitui uma deliciosa catarse. A explicação alternativa, sem dúvida uma possibilidade, sem dúvida a verdadeira em inúmeras cenas análogas, é o triunfo da Hiperrealidade. Os media sociais derrotaram a Realidade.

Do Optimismo

Passei a última semana num ídilio académico, rodeado de pessoas inteligentes e apaixonadas pelo que fazem, a discutir como mudar o mundo em pequenos passos, sempre partindo daquilo que de bom há em cada um de nós.

Terminado o congresso, de regresso à vida real, deparei-me com a necessidade de ir às compras – leite, atum e batatas, Sonasol e papel higiénico, um triãngulo de Brie como pequeno luxo, esse tipo de coisas. Fui pela fresca, Domingo à noite, a um supermercado de shopping. Voltei pela VCI.

Suspiro. Venha é daí o suave apocalipse.


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