Se há queixa recorrente feita pela mulher portuguesa, é a de que já não há Homens. Fragmentos de conversas ouvidas na rua, desabafos de amigas, coisas escritas nos blogues, no Facebook ou no Twitter aludem à evidência: não há gentlemen, não há Senhores.
Permitam-me refutar tal alegação, concordando: porque os gentlemen só existem numa sociedade onde existem ladies. Para sermos Senhores é necessário que haja Senhoras. As queixas não são um exclusivo do sexo feminino, são endémicas: a falta de cortesia não olha a sexos ou orientações. A maioria das pessoas é, muito simplesmente, rude e mal educada na sua relação com os outros.

Não sendo livre de pecados sociais peço desde já desculpa pelas generalizações. Reservo-me no entanto o direito de não descer do pedestal de onde emito estas opiniões, pois acredito na Regra de Ouro:
Tratarei os outros como quero ser tratado.
Se afirmar isto é sinal de arrogância nestes tempos bárbaros, que seja. A quem quiser resistir, comportar-se como um Senhor ou uma Senhora, deixo os seguintes conselhos unissexo:
a) As mensagens e as chamadas perdidas merecem uma resposta logo que oportuno. Se a celeridade não for genuinamente possível, a resposta deverá ser dada na mesma, ainda que no dia seguinte – comprometemo-nos a não questionar as razões do atraso. Os tarifários com SMSs gratuitos, aplicações como o Google Talk, o Facebook Messenger ou o Viber, e a Internet gratuita dos cafés conspiram para invalidar desculpas como a falta de saldo. É confortável chegar do trabalho, fumar uma ganza, ligar a televisão e ignorar o mundo, mas assim se constrói o futuro em que será o mundo a ignorar-nos a nós. Podemos comunicar gratuitamente com pessoas a doze fusos horários de distância, pelo que é tempo de entendermos aquilo que uma falta de resposta é – uma forma rude de sermos ignorados. Isto também porque:
b) A palavra ‘não’ deve ser usada. O ignorar uma mensagem não é a mesma coisa que um ‘não’. Usemos as palavras que há para utilizar. Evidentemente que:
c) A resposta ‘não’ deve ser acatada. Aliás, qualquer resposta a uma pergunta nossa deve ser acatada. É por isso que perguntamos.
d) Os compromissos sociais são para se cumprir. Se prevemos poder vir a mudar de ideias, mais vale dizer de antemão que não iremos ao jantar, explicando, caso haja confiança para isso, qual a nossa expectativa alternativa. Assim, se a situação o permitir poderemos ser sempre uma surpresa de última hora. Um bom amigo compreenderá que não queiramos comprometer-nos com uma saída para copos porque esperamos a resposta de alguém em quem estamos romanticamente interessados, mas já não gostarão se nos cortarmos em cima da hora. Ninguém gosta de ‘cortes’:
e) As promessas são para se cumprir. Se digo que na próxima semana combinamos um café: na próxima semana ligo a propor tomarmos café. Se digo “amanhã ligo-te”, farei esse telefonema.
f) Os pontos deverão ser colocados nos ‘is’. Se convidar uma rapariga para sair, deverá ser evidente para ambos que provavelmente tenciono conhecê-la melhor enquanto pessoa, não como potencial sócia para um projecto de empreendedorismo a submeter ao QREN – nesse caso tê-lo-ia dito de antemão. Logo, tal convite deverá ser imediatamente recusado caso exista alguém com quem a rapariga convidada prefira estar (e não custa nada dizê-lo: “eu já ando com outra pessoa”). Eventuais dúvidas acerca da sua (potencial) relação com outro não me dizem respeito; se mesmo assim sentir que prefere conhecer-me, então deverá pedir-me para esperar até à semana seguinte: hoje é dia de ter uma conversa séria. E por falar nisso:
g) Dar falsas esperanças a alguém deve ser entendido como um crime social. A menos que a pessoa use aliança ou um colar com a palavra COMPROMETIDA escrita a cristais Swarovski, não é suposto ninguém descobrir por si que aquela pessoa que mal conhecemos e que aceitou o nosso convite para sair está, de facto, comprometida. Estando numa situação em que já desrespeitou a recomendação anterior, a última coisa que deve fazer é comportar-se como solteira, seja aceitando e devolvendo os flirts, seja elogiando-me, seja queixando-se de ex-namorados, seja fazendo planos para o futuro nos quais não tem qualquer interesse. A única saída algo digna para alguém que se colocou nessa situação será assumir o mais rapidamente possível a existência de uma outra pessoa, e levar a conversa subsequente a incidir em projectos de empreendedorismo a submeter ao QREN.
h) O dever de fidelidade não depende da existência de uma relação afectiva. Se vou sair com outra pessoa, ser-lhe-ei fiel até nos despedirmos. Mesmo saindo com uma amiga, não passarei o tempo a olhar para outras raparigas (embora neste caso até seja admissível apreciarmos outras pessoas, desde que discretamente e em cumplicidade). Não deixarei a pessoa com quem estou subitamente porque encontrei de forma fortuita outra pessoa com quem preferia estar – paciência, tivesse feito planos com essa pessoa -, nem desatarei a convidar pessoas para se juntarem a uma saída que tinha sido combinada a dois.
Existe todo um mundo de diferença entre ter pose e ter postura. Mulheres e Homens adultos, Senhoras e Senhores, ladies e gentlemen fazem-se não pelas roupas, mas pelas acções e pelas atitudes. Não tenho uma recomendação sobre como reagir quando uma pessoa nos trata da forma de que não gostaria de ser tratada. Tudo depende do relacionamento que já temos com a pessoa em causa, uma vez que não há melhor forma de sermos vistos como vilões do que censurarmos directamente o comportamento de alguém. Tendo a assumir que é muito difícil mudar outra pessoa, pelo que me resta afastar-me das pessoas quando a principal faceta que revelaram foi a falta de cortesia. Apenas a sociedade, como um todo, pode mudar os seus elementos.
Cabe-nos assim, aos resistentes, expor e ridicularizar os comportamentos selvagens. Tornêmo-los tão malcheirosos como a música que sai de telemóveis em alta-voz nos transportes públicos.