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Entre uma nova rocha e um novo sítio duro

O meu entusiasmo pela demissão do Governo e pelas eleições que aí vêm é tão grande como o meu entusiasmo em torcer pela selecção do Canadá em curling. Tivemos e continuaremos a ter os governos que merecemos, que de qualquer modo se limitarão a administrar as prescrições de gente que não elegemos.

A situação de Portugal lembra a seguinte parábola budista:

A man traveling across a field encountered a tiger. He fled, the tiger after him. Coming to a precipice, he caught hold of the root of a wild vine and swung himself down over the edge. The tiger sniffed at him from above. Trembling, the man looked down to where, far below, another tiger was waiting to eat him. Only the vine sustained him.

Two mice, one white and one black, little by little started to gnaw away the vine. The man saw a luscious strawberry near him. Grasping the vine with one hand, he plucked the strawberry with the other. How sweet it tasted!

- 101 Zen Stories, #18

Entre uma rocha predominantemente constituída por Sílica (S) e um Sítio Duro (SD), talvez o melhor a fazer seja comer os morangos.

Passar a mão pelo pêlo

Escrevo este artigo um sábado à noite. Devia ter saído e estar neste momento a beber uns copos na fria e agorafóbica noite do Porto, mas decidi-me ficar em casa devido a um certo sentido de dever; nomeadamente, a execução de um certo trabalho de cariz informático para o qual existe uma certa urgência. No entanto dou por mim a escrever este artigo, e a decidir-me a deixar para amanhã, e se nada melhor houver para fazer, aquilo que teria que ter feito hoje. Isto porque não gosto que me passem a mão pelo pêlo.

Abomino, aliás. Se não quero saber o quão bom é o meu trabalho antes de estar concluído, como encaixar os elogios que precedem os primeiros bits? Ninguém dá nada a ninguém, e mesmo que as palavras sejam gratuitas não deixo de associar uma mão no pêlo a água no bico.

Entendo que muitos se deixam levar por uma figurativa festa no couro cabeludo. A lisonja é um bom lubrificante social, o Redex Bala da micro e pequena política. Queremos ouvir palavras simpáticas acerca de nós; em troca de uma pequena massagem na auto-estima fazemos favores, confiamos. No entanto, alguns de nós têm a pele calejada – ou um cabelo estilo palha-de-aço, que dói quando lhe fazem festas com pouco jeito. A minha auto-estima depende de mim, como indica o prefixo auto-. Depende da minha auto-crítica relativamente às minhas acções; se falamos de trabalho, relativamente à obra feita. Uma mão pelo pêlo retira-me qualquer autonomia.

Uma vez dei por mim a passar a mão pelo pêlo a uma colega que achava atraente, cheio de água no bico. Respondeu-me que eu era livre de elogiar obras concretas, mas não me permitia que generalizasse tais elogios à pessoa. Em retrospectiva, fui foleiro e tive a resposta merecida.

Quando gostamos do que fazemos, não precisamos de ouvir certas merdas.

Da Incompletude

Não sou uma pessoa completa. Ou sequer, um homem completo. Durante a maior parte da minha existência, desde que me lembro, sinto-me como se padecesse de uma estranha condição que faz de mim 90% opaco. Se do outro lado a luz for suficientemente forte, será possível ver através de mim. Se assim for desejado por quem me vê, torno-me numa percepção fantasma – desapareço, vá.

Existem outras metáforas que poderia utilizar para descrever este sentimento, mas esta será a melhor. Para lá deste persistente estado de alma, os diversos indicadores indicam incompletude aos mais variados níveis: fraco capital económico, apesar de nada dever; fraco capital político; fraco capital erótico; talvez algum capital cultural, mas por esse ninguém se interessa realmente. Falta-me dinheiro, falta-me poder, falta-me companhia (de diversos géneros), e portanto tenho tempo de sobra para ler. Onde quero chegar é: incompletude. No que toca a ser um self-made man, ainda estou a desdobrar as instruções do kit.

Mas chega de auto-comiseração: não acredito que alguma vez algum ser humano tenha sido completo no sentido ocidental-comercial da palavra. Buda atingiu o Nirvana, mas arruinou as finanças familiares. Atingir a Fachada, no entanto, parece que será tudo o que basta hoje em dia.

Assumo portanto, que nada tenho mais para oferecer que um Kit de pessoa ou uma personalidade liofilizada (como o seu quê de produto ACME). Terei de ser levado ao alfaiate para ajustes. Se uma mulher me demonstra acreditar – esperar – um parceiro completo (ou talvez, uma solução integrada, um pack, um pronto-a-vestir), desilude-me. Deixar-me-à em breve, porque haverá sempre alguém a parecer mais completo do que eu, dependendo da luz: as fachadas, regra geral, parecem opacas.

Mais construtivismo, abaixo os capitalismos!

Regresso ao trabalho

Passei as férias a escrever uma espécie de livro grande que tinha que ser entregue num sítio. Infelizmente agora terei que voltar ao trabalho: a procrastinação não pode esperar mais.

Do Optimismo

Passei a última semana num ídilio académico, rodeado de pessoas inteligentes e apaixonadas pelo que fazem, a discutir como mudar o mundo em pequenos passos, sempre partindo daquilo que de bom há em cada um de nós.

Terminado o congresso, de regresso à vida real, deparei-me com a necessidade de ir às compras – leite, atum e batatas, Sonasol e papel higiénico, um triãngulo de Brie como pequeno luxo, esse tipo de coisas. Fui pela fresca, Domingo à noite, a um supermercado de shopping. Voltei pela VCI.

Suspiro. Venha é daí o suave apocalipse.


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